Por Euclides da Cunha (1909)
Mas compreende-se esta antilogia. O aventureiro ali vai com a preocupação exclusiva de enriquecer e voltar; voltar quanto antes, fugindo àquela terra melancólica e empantanada que parece não ter solidez para agüentar o próprio peso material de uma sociedade. Acompanha-o, em todas as conjunturas da sua atividade nervosa e precipitada, o espetáculo das cidades vastas, onde brilhará um dia, transformado em esterlinos o oro negro do caucho. Dominado de todo pela nostalgia incurável da paragem nativa, que ele deixou precisamente para a rever apercebido de recursos que lhe facultem maiores somas de felicidades — atira-se às florestas: enterraria e subjuga os selvagens; resiste ao impaludismo e às fadigas; agita-se, adoidadamente, durante quatro, cinco, seis anos; acumula algumas centenas de milhares de soles e desaparece, de repente...
Surge em Paris. Atravessa em pleno esplendor dos teatros ruidosos e dos salões, seis meses de vida delirante, sem que lhe descubram, destoando da correção impecável das vestes e das maneiras, o mais leve resquício do nomadismo profissional. Arruína-se galhardamente; e volta... Reata a faina antiga: novos quatro ou seis anos de trabalhos forçados; nova fortuna prestes adquirida; novo volver ansioso em busca da fortuna perdida, numa oscilação estupenda das avenidas fulgurantes para as florestas solitárias.
A este propósito correm as mais curiosas versões, em que se destacam famosos caucheiros conhecidíssimos em Manaus.
Neste viver oscilante ele dá a tudo quanto pratica, na terra que devasta e desama, um caráter provisório - desde a casa que constrói em dez dias para durar cinco anos, às mais afetuosas ligações que às vezes duram anos e ele destrói num dia. Neste ponto, sobretudo, desenha-se-lhe a inconstância irrivalizável. Um deles, como lhe perguntássemos, em Curanja, onde desposara a amauaca gentilíssima que lhe assistia há dez anos com os desvelos de uma esposa exemplar, retorquiunos, levemente irônico:
— Me han hecho regalo em Pachitéa.
Um regalo, um presente, um traste que ele abandonaria à primeira eventualidade, sem cuidados.
Reportado negociante daquele vilarejo decaído, que em Lima ou Iquitos seria um belo molde de burguês pacífico e abstêmio, ali hambriento de mujeres, apresenta aos amigos e ao forasteiro adventício, o seu harém escandaloso, onde se estremam a interessante Mercedes, de ojillos de venado, que custou uma batalha contra os coronauas, e a encantadora Facunda de grandes olhos selvagens e cismadores, que lhe custou cem soles. E narra o tráfico criminoso, a rir, absolutamente impune, e sem temores.
Não há leis. Cada um traz o código penal no rifle que sobraça, e exercita a justiça a seu alvedrio, sem que o chamem a contas. Num dia, de julho de 1905, quando chegava ao último puesto caucheiro do Purus uma comissão mi9sta de reconhecimento, todos os que a compunham, brasileiros e peruanos, viram um corpo desnudo e atrozmente mutilado, lançado à margem esquerda do rio, num claro entre as frecheiras. Era o cadáver de uma amauaca. Fora morta por vingança, explicou-se vagamente depois. E não se tratou mais do incidente — coisa de nonada e trivialíssima na paragem revolvida pelas gentes que a atravessam e não povoam, e passam deixando-a ainda mais triste com os escombros das estâncias abandonadas...
Estas lá estão em todas as voltas do Alto-Purus, aparecendo, entristecedoras, sob os vários aspectos que vão das urmanas humildes dos peões às vivendas outrora senhoris dos caucheiros.
Pouco acima do Shamboyaco, uma, sobre todas, nos impressionou, quando descíamos.
Fora um posto de primeira ordem. Saltamos para o examinar; e vingando a custo a barranca malgradada, descobrindo em cima o velho caminho invadido de vassouras bravas, chegamos ao terreiro onde o matagal inextricável ia peneirando e cobrindo os acervos de vasilhas velhas, farragens repugnantes, restos de ferramentas, e ciscalhos em montes deixados pelos prófugos habitantes. A casa principal, defronte, meio estruída, tetos abatidos, paredes encombentes e a tombarem despegando-se dos esteios desaprumados, figurava-se sustida apenas pelas lianas que lhe irrompiam de todos os pontos, furando-lhe a cobertura, enleando-se-lhe nas vigas vacilantes, amarrando-lhas, e estirando-se à feição de cabos até as árvores mais próximas, onde se enlaçavam impedindo-lhe o desabamento completo; e as vivendas menores, anexas, cobertas de trepadeiras exuberando floração ridente, apagavam-se, desaparecendo a pouco e pouco na constrição irresistível da mata que reconquistava o seu terreno primitivo.
Mal atentamos, porém, no magnífico lance regenerador, da flora, juncando de corolas e festões garridos aquela ruinaria deplorável. Não estava inteiramente desabitada a tapera.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CUNHA, Euclides da. À Margem da História. 1909. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16624. Acesso em: 17 jun. 2026.