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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

Bourgogne e pelo champanha — um almoço leve, delicadíssimo e substancial, "aristocraticamente fino", como ideara o esposo de D. Branca. Evaristo, ao abrir-se o champanha, pediu que não se fizessem brindes.

— O brinde é a maior tolice do século dezenove — explicou ele, tragando uma roda de abacaxi. - O brinde parece até uma invenção do Valdevino Manhães ou de Mr. de La Palisse; eu sou contra o brinde como sou contra a mon...

Ia dizendo monarquia, mas arrependeu-se logo, sem olhar para o visconde:

— ... Como sou contra o voto feminino!

— Eu só compreendo o brinde quando é de honra, à Sua Majestade o Imperador, à princesa... ou mesmo a um homem ilustre que se não confunda com o resto da gente.

— Qual, senhor visconde! exclamou o bacharel depondo o talher.

— O brinde, seja ele a quem for, é uma das muitas ridicularias da civilização... Não sei como qualificar o indivíduo que interrompe a boa digestão de uma mesa, de uma sociedade, para, de taça em punho, levantar um brinde às virtudes de outro, não sei.

Evaristo esquecia-se do batizado da Julinha em que o diretor do Banco LusoBrasileiro fizera diversos brindes entre os quais um a seu amigo Furtado, que por sua vez brindara à sereníssima herdeira do trono.

Adelaide fez-lhe sinal piscando o olho, mas o bacharel não percebeu e concluiu dizendo catedraticamente que o brinde "era uma prova de ignorância e de tacanhez intelectual",

Todos estranharam aquela franqueza perante o visconde de Santa Quitéria, na presença do respeitável amigo de Suas Majestades que ninguém ousava contrariar nas menores coisas.

Furtado disfarçou o mau efeito das palavras de Evaristo, dizendo alegremente que, para provar ignorância e tacanhez intelectual, ia brindar à Inspetoria do Jardim Botânico e mais à Flora brasileira.

— Muito bem, muito bem, meu amigo — fez o visconde erguendo o copo. — O esposo da Sra. D. Adelaide estava bem para niilista, ao que vejo. Atira-lhe com um brinde à Flora.

As palavras do visconde mereceram aplauso das duas senhoras. Adelaide e Branca saudaram-no entusiasticamente.

— Bravo, senhor visconde, bravo - exclamaram as duas a um tempo.

E Evaristo, esmagado pela maioria, bebeu também à saúde do Jardim Botânico, "uma vez que o amigo Furtado e o ilustre senhor visconde faziam questão".

Beberam, e o champanha, caindo no estômago farto dos homens e das senhoras, trouxe-lhes ainda mais alegria e expansão.

A própria Adelaide tinha agora um brilho comprometedor nos olhos, uma viveza fora do natural, e falava também, muito risonha, inclinando a cabeça no ombro de Branca. A mulher do secretário lamentou a ausência da viúva Tourinho; faltava uma senhora para completar três casais, e a viúva sabia se divertir como gente, era uma bela companhia.

— E o desembargador? por que não convidaram o desembargador Lousada? — disse o marido de Adelaide, devorando um cacho de uvas.

— Oh, Evaristo, você ainda come? — acudiu a jovem esposa do bacharel, cujas faces, ordinariamente pálidas, tinham agora um ruborzinho quente.

Furtado perguntou, então, se ainda queriam tomar alguma coisa, e como todos recusassem, propôs novo passeio através das árvores. Ninguém discordou da idéia. Evaristo, porém, falou ao ouvido do secretário, que lhe respondeu baixinho, acrescentando alto, para as senhoras e o visconde:

— Podemos ir, podemos ir; o Evaristo irá depois...

— Como, irá depois? — perguntou Adelaide com um arzinho de riso. — Vão andando, que eu já os encontro — disse o bacharel misteriosamente. — É questão de minutos...

— Espera por ele, oh Raul - ordenou Furtado.

E, oferecendo o braço a Adelaide, à imitação do visconde, que já se apoderara de D. Branca, saiu do caramanchão.

O número de passeantes aumentava com o correr da tarde. O jardim ia-se enchendo de famílias e rapazes que percorriam as avenidas de chapéu-de-sol aberto à luz das duas horas. Os sons da música chegavam aos ouvidos distintamente na aragem acariciadora que soprava. Como que esmoreciam os tons vivos da paisagem, num desmaio lento; o sol esfriava um pouco e o azul tinha agora uma cor poeirada de cinza, como um espelho que de repente se ofuscasse a um bafejo úmido. Todas as coisas iam mudando de aspecto à proporção que se aproximava o fim da tarde. Os tons vivos iam-se traduzindo em tons melancólicos; a natureza, cansada de luz, queimada pelos ardores do sol, numa indolência outonal, volvia-se para o crepúsculo, adivinhava a noite. O repuxo central do Jardim entoava a sua ladainha num ritmo blandicioso de cascata longínqua.

(continua...)

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