Por Adolfo Caminha (1894)
Pelo verão reúnem-se ali cerca de 5.000 pessoas, segundo o cálculo aproximado do cônsul brasileiro.
Dias depois da nossa chegada, o Barroso entrou para o dique de Brooklin, a fim de sofrer alguns reparos no casco.
Enquanto isto se dava, enquanto a guarnição ocupava-se da limpeza externa do cruzador, com o cuidado, com o desvelo e com o carinho mesmo de amigos dedicados, íamos visitando outras cidades americanas, ligeiramente, de relance.
Não nos foi dado, porém, diga-se em parêntesis, ver o mais grandioso espetáculo dos Estados Unidos — a célebre cascata do Niágara, que Chateaubriand pinta com as maravilhosas cores de sua palheta de artista inimitável.
Não tivemos mesmo a felicidade de ver Washington, a bonita capital americana, e tampouco o presidente Cleveland.
Esse privilégio coube quase que exclusivamente ao ex-príncipe D. Augusto, que aliás não revelou grande admiração pela Niágara, nem pelo presidente Cleveland.
Sua Alteza não era para que digamos muito amigo da natureza e menos ainda de personagens ilustres.
Quanto a mim continuei a ver a famosa cascata por um óculo, nos livros do poeta, e o Sr. Cleveland, vi-o casualmente no Daily News, no ato do seu casamento realizado a esse tempo. Pareceu-me um belo tipo de ianque: cheio de corpo, cabelo penteado pra trás, olhar firme, bigode grosso...
Assim, contentamo-nos com visitar algumas cidades de importância e tão depressa que era impossível apanhar com precisão todos os caracteres por meio dos quais se pode apreciar a vida de uma população.
Vejamos:
BALTIMORE — Cidade aristocrática, pequena, mas extremamente bela na simplicidade, no gosto sóbrio de sua edificação, muito asseada, clara, semelhando toda ela, no seu conjunto gracioso, uma confortável habitação de outono, fresca e risonha, boa para se gozar o sossego de uma vilegiatura sem preocupações mercantis e utilitárias.
A gente de Baltimore parece viver uma vida tranqüila e descuidada no calmo interior de seu home, longe da mentira social, longe de todo o ruído, beatificamente, numa paz invejável, respirando uma atmosfera livre do micróbio daninho das civilizações tumultuosas.
Baltimore é uma cidade por excelência aristocrática e higiênica, onde os temperamentos requintadamente pacíficos encontrariam o desejado repouso trespassado da incomparável doçura de um clima raro.
Na melhor de suas praças e no mais elevado de seus pontos ergue-se a estatua em mármore do grande Washington, geralmente considerada "um dos mais interessantes monumentos da América" e inaugurada em 1809. Mede 60 pés quadrados na base e 15 de altura. Sobre o pedestal foi levantada uma elegante coluna dórica de 20 pés de diâmetro na base e 15 no cimo, onde branqueja a estátua do primeiro presidente dos Estados Unidos, representando-o no momento de renunciar a sua comissão de general-em-chefe dos exércitos de seu pais.
Para subir até essa galeria fui obrigado a vencer duzentos degraus (contados) de uma estreita escadaria de pedra, em espiral. De cima vê-se, a olho nu, todo o panorama, realmente belo, da cidade, que lembra uma dessas paisagens holandesas, muito claras e sugestivas, tais como descreve Ramalho Ortigão, e onde destacam, num fundo de aquarela, linhas de arvoredo e revérberos d'água parada.
Ouvi dizer algures que as mulheres mais bonitas dos Estados Unidos são as de Baltimore. Durante as poucas horas que aí nos demoramos vimos alguns rostos femininos na verdade encantadores. É possível que víssemos com olhos protetores de hóspedes em terra estranha...
Era nosso cônsul naquela cidade Fontoura Xavier, o conhecido autor das Opalas, bom poeta e péssimo republicano, que se apressou em nos proporcionar todas as comodidades possíveis, franqueando-nos os quartos e os salões do melhor hotel do lugar. Fez mais: ofereceu gentilmente à oficialidade brasileira um delicadíssimo almoço ao qual compareceram diversos estudantes nossos patrícios.
Guardamos belas recordações de Baltimore.
FILADELFIA — Grande centro de indústria e comércio. Altas chaminés características. Céu encoberto de fumaça, pesado e lúgubre a certas horas do dia. Aquedutos, casas colossais, ruas largas e atulhadas de barricas e caixotes. Continuo movimento de carros e tramways. Imensa e grandiosa, a cidade vista de qualquer ponto elevado. A lembrança que fica é a de um grande edifício em construção, cheio de rumor de máquinas e de operários em atividade permanente.
— Jardim Zoológico. — Universidade importantíssima, onde vão estudar moços de todas as nacionalidades. — City Hall, edifício monumental, vasto e muito alto, onde funcionam as repartições públicas: dizem ser o maior dos Estados Unidos.
Não há tempo a perder. Temos apenas três horas a nossa disposição, pois que o trem deve partir para Anápolis às cinco da tarde e já são duas...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. No país dos ianques. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=20929 . Acesso em: 27 mar. 2026.