Por Adolfo Caminha (1895)
No fundo estava alegre, sentia-se humorado, com ímpetos de criança brejeira, como um pássaro solto... Estranhava-se até! Há muito não amanhecia tão bem disposto...
O retrato do imperador sorria-lhe meigo, com a sua barba de patriarca indulgente. Era o seu homem. Diziam mal dele, os tais “republicanos”, porque o velho tinha sentimento e gostava do povo... Acendeu um cigarro e deitou-se.
— Ah! isso era outra cousa! não lhe fossem falar em navios de guerra: preferia sua cama, seu bem estar, seu descanso.
Pela janela entrava agora uma réstia de sol, e o carrilhão continuava o seu interminável estribilho musical...
Dlingo, dlingo, dlingo,
Dlingo, dlingo, dlão!
— Bom-Crioulo, ó Bom-Crioulo!
— Anh!... Que é?
— Acorda rapaz, olha que não tarda meio-dia.
— Meio-dia?
— Sim, pois não vês o sol como vai alto?
D. Carolina, vendo que o marinheiro estava custando a descer, foi acordá-lo. Amaro dormia profundamente, com a boca aberta, estendido na cama, o boné sobre os olhos, um fio de baba escorrendo pelo queixo, imóvel... Pendiam-lhe os braços numa frouxidão cadavérica. A mulher, ao entrar no quarto recuou pálida. — Jesus! estaria morto? O negro, porém, ressonava alto. — Que susto. Aproximou-se timidamente para o não sobressaltar e, quando ele abriu os olhos, viu-a, diante de si, muito gorda e risonha, toda em roupa nova, um avental branco.
— Acorde, seu preguiçoso! fez ela dando uma palmada na coxa do negro. Vamos, levante-se, que isto não são horas de dormir.
Bom-Crioulo ergueu-se vagarosamente, limpando a saliva com a manga, perguntou pelas horas, o corpo mole, os olhos vermelhos, um sabor esquisito na boca.
— Então que foi isso hoje? perguntou a portuguesa...
— Eu que fugi, disse o marinheiro naturalmente, abrindo os braços num bocejo. Vim no escaler das compras e aqui estou sem licença.
— Que loucura, filho! São capazes de mandar-te prender...
—... que os pariu! Não sou escravo de ninguém. Fujo quantas vezes quiser; ninguém me proíbe...
— Modera-te, rapaz. É preciso ir com jeito...
— Qual jeito qual nada, minha senhora! Depois que estou naquele navio ainda não tive descanso. Isso também é demais!
— Ora, meu filho, paciência. Deus há de ajudar... — É a tal história: fia-te na Virgem e não corras...
— Vocês lá se entendem, rematou a portuguesa, fitando o retrato do imperador, como se nunca o tivesse visto.
— Uma cousa, tornou Bom-Crioulo: o Aleixo tem vindo à terra? — Veio quinta feira, se não me engano...
E o outro contando os dedos:
— Quinta, sexta, sábado, domingo: ontem era dia dele vir...
— Agora vocês vivem sempre desencontrados. Não combinam...
— Vamos a saber, disse a mulher. Queres comer alguma cousa, ou já almoçaste?
— Nada, vou petiscar ali no frege.
— Manda-se comprar...
— Não, obrigado, preciso mesmo dar uma volta, esticar as pernas, fazer exercício.
— Cuidado! Olha algum oficial...
E dirigindo-se para a escadinha:
— Bom, vim apenas te acordar. Até logo.
— Té logo, madame. Então o pequeno só veio uma vez, hein? — Uma vezinha, coitado...
E o negro ficou pensando no grumete, sentado à mesa, de crista caída, esgravatando maquinalmente a unha com um fósforo — “Aquilo” não ia bem... Precisava tomar uma resolução: abandonar o Aleixo, acabar de uma vez, meter-se a bordo, ou então amigar-se aí com uma rapariga de sua cor e viver tranqüilo. Estava emagrecendo à toa, não comia, não tinha descanso, em termos de adoecer, de apanhar uma moléstia, por causa do “senhor Aleixo”. Se ao menos pudesse vê-lo todos os dias, como na corveta...; mas assim, longe um do outro? Não valia a pena, era cair no desfrute...
E, tomando o boné, com uma expressão de aborrecimento:
— Ora, adeus! havia de se resolver hoje ou amanhã;
Bateu a porta, deu volta à chave, e saiu por ali fora, palpando os bolsos. com desespero.
D. Carolina estava para dentro e lá ficou estendendo uma roupinha no coradouro.
Faiscavam as pedras da rua sob a luz perpendicular do meio-dia. Na taverna da esquina, ali perto, havia uma aglomeração de gente e cada transeunte que passava era mais uma curioso, um basbaque. Os moradores debruçavam-se às janelas, esticando o pescoço com uma interrogação no olhar. Um oficial de bombeiros passou correndo para o lugar do “acontecimento”. Gente punha-se em pé nos bondes. O padeiro, em mangas de camisa, chegou à porta, com um lápis atrás da orelha, arrastando os chinelos.
Bom-Crioulo supôs logo que fosse algum “rolo” e precipitou-se, abrindo caminho. Era um sujeito acometido de gota, que se espojava no chão, babando, o rosto ensangüentado, a barba suja de areia, em contorções horrorosas. Caíra de repente, ao sair da venda.
— Tinha bebido muita cachaça, dizia penalizado o taverneiro. Se soubesse, não teria vendido...
Dois guardas tentaram erguer o homem pelo torso, mas fraquejaram. — Passa fora, o animal pesava que nem chumbo!
— Espera, espera! saltou Bom-Crioulo. Vocês também não prestam pra nada...
O povo recuou, admirado, e viu o negro suspender o homem com as duas mãos e levá-lo ao ombro à Santa Casa de Misericórdia, sem grande esforço, como se pegasse uma criança.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.