Por Inglês de Sousa (1891)
Macário estava com vontade de perguntar-lhe se persistia na idéia de surpreender o povo de Silves, aproveitando a reunião das pessoas gradas na igreja, para aquilo que havia imaginado. Mas padre Antônio preparava-se para a missa como se já estivesse celebrando o santo sacrifício. Concentrado, os seus movimentos vagarosos e elegantes tinham a regularidade da disciplina, e a unção da graça que consola. Erguia a miúdo para o teto os olhos semicerrados, e com os lábios trêmulos parecia dizer fervorosa prece. Baixava a cabeça, coroada de cabelos negros, beijava a estola sagrada antes de a cruzar sobre o amplo peito de rapaz robusto, e depois levantando a casula enfiava-a pelo pescoço, continuando a oração com que se procurava tornar digno do mais santo dos mistérios.
Macário não se atrevia a dirigir-lhe a palavra. A atitude de padre Antônio de Morais infundia-lhe respeito. Como era diferente do defunto padre José! Como tudo era diverso! As roupas novas, bordadas a ouro, ou rendadas a ponto de labirinto, tinham um brilho que tornava mais miserável e mais velha a imunda fatiota de padre José. Os modos, os gestos, os usos eram duma elegância grave e digna. As cerimônias vulgares do ofício divino assumiam uma nunca vista majestade. Padre Antônio, na vestimenta comum dos celebrantes, parecia um bispo de pontifical, sereno e radiante na magnificência sagrada de paramentos régios. Só lhe faltava a mitra!
— Vamos, disse S. Rev.ma pegando no cálice coberto com a bolsa da cor dos paramentos, cheia de alvos corporais bem engomados.
Macário vestiu a opa, tomou o missal e entrou na capela-mor, seguido por S. Rev.ma.
A missa começou.
— Introibo ad altare Dei, anunciou padre Antônio com a voz comovida e trêmula com que sempre iniciava o sacrifício, como se a sua indignidade não se atrevesse a comparecer afoitamente perante Deus Onisciente e Todo-Poderoso.
— Ad Deum qui lætificat juventutem meam, disse Macário com voz segura e cheia, exprimindo a doce emoção da sua alma, no desempenho da sua ocupação predileta.
— Judica me, Deus....
O celebrante abaixou os olhos para o quadro preto, e um murmúrio confuso lhe saiu dos lábios, no recolhimento fervente da oração, enquanto com os braços entreabertos, unindo o polegar e o indicador de ambas as mãos, mostrava o êxtase da alma suspensa entre o céu e a terra.
Macário aproveitou a ocasião para correr uma olhadela pela igreja. As sobrecasacas negrejavam, em linha, por trás dos vestidos aparatosos, de cores vivas. Na primeira fila, os botões do Cazuza Bernardino brilhavam.
Padre Antônio voltou-se para o povo e disse:
— Oremus...
Um leve sussurro correu pela nave, um murmúrio de admiração e respeito. A presença do padre, simpático e venerado, nas ricas roupas bordadas a ouro, atraiu por instantes toda a atenção dos fiéis. Quando o padre voltou as costas ao público para rezar o Confiteor os olhos em liberdade puseram-se de novo a admirar o Cazuza Bernardino e a sua interessante noiva. Macário aproveitou o Confiteor para dar outra olhadela. O coletor, de casaca, engastava a figura redonda e barbada na massa escura formada pela primeira fila de homens.
— De casaca! pensou Macário. É incontestavelmente um homem decente e digno. Sabe como se fazem as coisas. Isto é que é. Um homem sério deve apresentar-se às cerimônias decentemente vestido.
E exclamou, curvando-se reverente, atraído pela sublimidade do mistério:
— Misereatur tui Omnipotens Deus, et dimissis peccatis tuis, perducat te ad vilam æternam.
Padre Antônio esgotou o Kyrie eleison. Terminou a epístola. Macário, mudando o missal para o lado do Evangelho, lançou em cheio a vista sobre o povo de fiéis que assistia à missa.
Lá estava o Valadão, esgrouviado e tísico, com o fitão tricolor a tiracolo, o José Antônio Pereira, muito sério, com o guarda-chuva e o pequeno chapéu de feltro pendurados das mãos engatadas sobre o baixo ventre. O Costa e Silva lá estava, em devoção fervorosa; o Mapa-Múndi, suado e enorme, dando sinais de impaciência; o Regalado, o Chico Ferreira... Silves em peso, inclusive as pessoas gradas, tinha vindo assistir aquela missa especial para gozar melhor o espetáculo dum casamento rico. Macário estava contente. Era aquilo mesmo que ele desejava! Queria que estivessem ali todos aqueles devotos descontentes ou arredios, para ter o gosto de os ver vencidos, confessando o arrependimento, no balbuciar humilde da oração.
— Orate, frates, aconselhou o celebrante, voltando-se de novo para os fiéis. Houve um ruge-ruge de saias engomadas, e um ruído de chapéus-de-sol que batiam no chão. O povo ajoelhava.
Padre Antônio lia o Evangelho. Macário voltou-se de três quartos, e pareceulhe que pela fresta da porta lateral, a figura enfezada e biliosa do professor Chico Fidêncio espiava.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.