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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

— Também eu – ajuntou Luzia – já pensei nisso... Um homem, como Alexandre, não teria astúcia para tanto... Além disso haviam de, por força, desconfiar dele...

— Com efeito... Era preciso ser muito besta para furtar coisas do armazém, fazendas, mantimentos, dinheiro...

— Sim, coisas que davam logo na vista... Quem só vive do trabalho, que mal dá para o de-comer e arranjar um molambo para cobrir, não poderia esconder semelhante furto... Quando aparecesse com roupa nova ou fizesse gastos...

— É mesmo. Perguntava-se: onde foi o fogo, onde arranjou isso?... Quem cabras não tem e cabrito vende... Eu, por mim, não se me dava de jurar que não foi Alexandre... Gente que tem furto na consciência não olha direito para os outros... Cara de ladrão não me engana...

— Ah! Teresinha!... É Santo Antônio quem está falando pela tua boca... Os anjos digam amém...

— Tanto hei de teimar que descobrirei tudo... Não é a primeira nem será a última vez que eles fazem das suas e botam a culpa nos outros...

Ocorreu, então, a Luzia o que lhe havia dito Alexandre, aludindo em termos vagos, a uma intriga que não queria revelar diante do outros presos. O Promotor também lhe falara, com meias palavras de uma pequena complicação, naturalmente alguma coisa desfavorável, algum indício de culpa... Que seria?... Que intervenção diabólica frustara o milagre, perturbando a visão de Teresinha, lhe ofuscando a memória? Quem sabe se ela não vira o ladrão e, por natural delicadeza, se esquivava de lhe patentear a dolorosa realidade para não a magoar, privando-a do inefável conforto da esperança com a desilusão e a tristeza esmagadora de deparar a verdade fria e implacável?!

A razão é a luz; a dúvida é a treva, congeminação de contrastes engendrados pela mesma causa. Felizes os irracionais, porque não duvidam.

Apesar da sua energia máscula, ela se sentia aniquilada, num colapso de nervos enrijados à contínua tensão de tantas amarguras e cuidados, vexames, a pobreza, duras privações de haveres, a moléstia da mãe, o pressentimento de perdê-la a qualquer momento e a obsessão do soldado, além da orfandade, o desamparo pela prisão de Alexandre, a única pessoa que a poderia ajudar a viver.

Não lhe bastavam para tormento constante, as próprias aflições? Para que se mortificar com a sorte dele? Não era seu parente; nada os ligava, a não ser recíproca troca de favores, a gratidão, orvalhando o gérmen da simpatia instintiva e um projeto vago, a proposta de se aliarem pelo matrimônio.

Quem sabe – pensava ela – se, em vez de partir de impulso do coração, não fora feita por generosidade, compaixão, ou desejo sensual de possuí-la, onerá-la com a responsabilidade da família, filhos, que aumentariam os vexames já oprimentes, para depois, como tantos outros, abandoná-la, infligir-lhe a abjeção de ser preterida por outra mulher, crime que os homens cometem como um direito do sexo, ou divertimento cruel, igual ao de matar rolas e desmanchar ninhos?!

Culpado e punido, ficaria livre de penar por ele, do compromisso de gratidão e das conseqüências funestas do triste consórcio de dois pobres. Sozinha no mundo, poderia, com a graça de Deus, e os seus músculos, trabalhar para viver, ou emigrar para a praia em busca da proteção e amparo do padrinho José Frederico.

Tais pensamentos, bons e maus, perversos ou generosos, acudiam, em tumulto, disparatados e contraditórios, ao seu cérebro perturbado pela dúvida. Acariciava-os ou lutava para expungi-los; e vinha-lhe, por fim, o remorso de haver pecado por soberba, por falta de caridade, julgando mal Alexandre, quando, em verdade, os sofrimentos dele repercutiam no seu coração com dobrada intensidade, como se ele fora parte de seu ser, porção de sua alma.

Seria isso bem-querer, como imaginava; duas criaturas confundidas de corpo e alma em harmonia ininterrupta de afetos e idéias, vivendo da mesma nutrição moral, dos mesmos anelos, eternamente ligados no prazer e na dor, na vida e na morte?!

(continua...)

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