Por Aluísio Azevedo (1880)
Qualquer resolução todavia atravessou como um relâmpago o cérebro do artista — cruzou os braços e fitou Sombra da Noite.
— Tem certeza do que está dizendo?
— Tenho, respondeu com firmeza o pescador, tanto quanto tenho de saber que falo com senhor Miguel Rizio.
Miguel tornou a estremecer; agora, porém, era a idéia da raiva de Maffei que lhe surgia negra e ameaçadora. Seria isto uma cilada? Estaria aquele homem pago por ele? Miguel desconfiava, mas ardia de curiosidade; finalmente, descendo de seus espasmos, disse descansadamente e afetando o mais frio desinteresse:
— Com que, o senhor conhece-me?...
— Perfeitamente, cavalheiro, e até desejo falar-lhe.
— A respeito de Rosalina?
— Sim, senhor, a respeito de dona Rosalina.
— Então fale! disse Miguel já não podendo se conter. Fale que..
— Agora, é impossível.
— Então, quando?
— Quando estivermos a sós. Eu moro naquela choupana. E Sombra da Noite indicou a casinha que quase não se divisava. — O senhor pode procurar-me ai. Quer vir amanhã?
Miguel não respondeu. Tinha a cabeça baixa e o queixo descansado na mão direita.
Depois de um quarto de hora, sombra da Noite quebrou o silêncio.
— Então vem?
Miguel ergueu resolutamente a cabeça.
— Venho!
— Amanhã?
— Não! Hoje?
— Pois até a meia-noite, disse o pescador, dando-lhe as costas e descendo as pedras. Daí a pouco tinha desaparecido nas trevas.
Miguel continuou a olhá-lo por algum tempo; depois sacudiu os ombros e tornou a tomar a mão dos pequenos.
Meia hora depois, caminhavam pela estrada. Na lama nervosa do artista, após tão longa noite, raiara afinal um clarão triste, de desesperança e despeito, mas era uma luz, enfim.
E como a mariposa que festeja a própria luz que a há de queimar, começou a alvoroçar-se, cantarolando nervosamente.
As crianças, tomando aquele cantar por expansão de alegria, abriram também a imitá-lo, até chegar a uma cocheira, onde tomaram um carro que os levou alegremente à casa.
CAPÍTULO XI
Miguel voltou incontinente.
A viagem foi demorada em virtude do caminhar incômodo da carroça. Mal chegado à cocheira, montou, sem tomar fôlego, um cavalo que lhe pareceu melhor e galopou para o lugar da entrevista.
Daí a pouco, atravessava de vertiginosa carreira todos aqueles barrancos, impregnados para ele de saudade e tristeza, de amor e de fadigas.
Parecia mais galopar na impaciência de chegar do que no seu cavalo.
A solidão, o marulhar da costa, a hora adiantada da noite, erguiam-se com enorme fantasma de neblina e espuma, que lhe vinha avivar a cólera de Maffei; o luzir vermelho e colérico dos olhos da fera, ainda o sentia ele dentro de si, como duas brasa a lhe queimarem os osso do crânio. Esses olhos, que Miguel viu pela última vez antes de cair no precipício, procurava desde então esconder com o manto claro das suas idéias; entanto, eles sentia-os a queimá-las, a esburacá-las e, depois de encardi-las, reaparecem ameaçadores e vivos, a espreitar de dentro os seus movimentos, palavras e mais íntimas intenções, como se fosse o próprio olhar da consciência, mas de uma consciência ébria.
Sim, porque a consciência também se embriaga, e nesse estado diz as coisas sem nexo e às vezes obscenas.
Ela, como toda mulher que se embriaga, fica nojenta - arregaça as mangas e as saias, fuma, cospe-se toda, ri-se como os marujos e bebe como os soldados; perde, enfim, a vergonha e o pudor.
As grandes crises podem divinizar ou prostituir uma consciência do mesmo feitio que um grande amor pode divinizar ou prostituir uma mulher.
A casta, a pudica, a terna consciência do artista dava nessa ocasião gargalhadas; contudo, lá ia ele a galopar com ela na garupa. Levava consigo a bêbada e pelo caminho abraçavam-se e beijavam-se como dois amantes doidos.
De fato, é loucura o amor sem conforto que passa de cinco anos; o cérebro e o coração também concebem e os seres, às vezes, saem alucinados, extravagantes e incoerentes.
A idéia fixa, que acompanhava Miguel há quatro anos, era um ser desse gênero, fecundado pelo amor e pela desgraça e endoidecido pelos próprios pais; crescera, crescera ainda mais e quando nasceu mamou nas tetas de uma fera.
— Uma fera doida, eis a idéia fixa de Miguel nessa noite; presa, era horrível; solta, deveria ser fatal.
Nesse estado, chegou ele à cabana do desconhecido; apeou-se e empurrou com um murro a porta.
Sombra da Noite dormia tranqüilamente sobre umas palhas no chão; a claridade amortecida das estrelas, que se introduzia pela greta da porta, iluminava frouxamente o interior miserável da casinha.
Miguel arquejava; dir-se-ia o ressonar da sua consciência ébria; à vista, porém, da tranqüilidade rústica com que dormia o pescador, fugiram envergonhadas as suas suspeitas e foi cheio de confiança que se chegou para o acordar.
Sombra da Noite espichou uma perna, abriu duas vezes a boca e levantouse finalmente, fazendo o sinal da cruz.
— Espere, homem! disse ele a Miguel, não vá dar com as pernas por aí!
E recolheu-se ao fundo da casa, donde voltou pouco depois com um rolo de cera de abelha torcido e encerado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.