Por Aluísio Azevedo (1881)
— Por ninguém... respondeu a Lagartixa, sorrindo melancolicamente com os caquinhos dos dentes.
— Ele não é feio... a senhora não acha D. Bibina?... segredava Lindoca à outra sobrinha de D. Maria do Carmo, olhando furtivamente para o lado de Raimundo.
— Quem? O primo d Ana Rosa?
— Primo? Eu creio que ele não é primo dona!
— É! sustentou Bibina quase com arrelia E primo, sim, por parte de pai!. E olhe ali está quem lhe sabe bem a história!...
E indicava a fia com o beiço inferior.
— An... resmungou a gorducha, passando a considerar da cabeça aos pés o objeto da discussão.
Por outro lado, Maria do Carmo segredava a Amância Sousellas:
— Pois é o que lhe digo D. Amância muito boa preta!... negra como este vestido! Cá está quem a conheceu!...
E batia no seu peito sem seios. - Muita vez a vi no relho. Iche!
— Ora quem houvera de dizer!... resmungou a outra fingindo ignorar da existência de Domingas, para ouvir mais. Uma coisa assim só no Maranhão! Credo!
— É como lhe minha rica! O sujeitinho foi farto à pia, e hoje olhe só pr'aquilo!
está todo cheio de fumaças e de filáucias!... Pergunte ao cônego, que está ao lado dele.
— Cruz! T'arrenego, pé de paro!
E Amância bateu por hábito nas faces engelhadas.
Nisto, ouviu-se um grande moam, que vinha da varanda.
— Ó Benedito! Moleque! Ó peste! Estás dormindo, sem vergonha?!
E logo o estalo de uma bofetada. - Arre! que ate me fazes zangar com visitas na sala!...
Era Maria Bárbara, que andava às voltas com o Benedito.
— Vai deitar a mesa do chá moleque!
Manuel correu logo à varanda, contrariado.
— Ó senhora!... disse à sogra. Que enfermeira! Olhe que está ai gente de
fora!...
Freitas passou-se à janela de Raimundo, e aproveitou a oportunidade para despejar contra este uma estopada a respeito do mau serviço doméstico feito pelos escravos.
— Reconheço que nos são necessários, reconheço!... mas não podem ser mais imorais do que são!... As negras, principalmente as negras!... São umas muruxabas, que um pai de família tem em casa, e que domem debaixo da rede das filhas e que lhes contam histórias indecentes! f uma imoralidade! Ainda outro dia, em certa casa, uma menina, coitada apareceu coberta de piolhos indecorosos, que pegara da negra! Sei de outro caso de uma escrava que contagiou a uma família inteira de impigens e dartros de caráter feio! E note doutor que isto e o menos, o pior é que elas contam às suas sinhazinhas tudo o que praticam ai por essas ruas! Ficam as pobres moças sujas de corpo e alma na companhia de semelhante corja! Afianço-lhe meu caro senhor doutor, que, se conservo pretos ao meu serviço, é porque não tenho outro remédio! Contudo...
Foi interrompido por Benedito que nu da cintura para cima e acossado pela velha Bárbara, atravessou a sala com agilidade de macaco. As senhoras espantaram-se, mas abriram logo em gargalhadas. O moleque alcançara a porta da escada e fugira. Então, o Dias, que até ai se conservara quieto no seu canto, ergueu-se de um pulo e deitou a correr atrás dele. Desapareceram ambos.
Benedito era cria de Maria Bárbara; um pretinho seco, retinto, muito levado dos diabos; pernas compridas, beiços enormes dentes branquíssimos. Quebrava muita louça e fugia de casa constantemente.
A velha estacara no meio da sala furiosa.
— Ai, gentes! não reparem!.. bradou. Aquele não sei que diga! aquele maldito moleque!... Pois o desavergonhado não queria vir trazer água na sala, sem pôr uma camisa?... Patife! Ah, se o pego!... Mas deixa estar, que não as perdes, malvado!
E correndo à janela: — Se seu Dias não te alcançar, tens amanhã um campeche te seguindo a pista, sem-vergonha!
E saiu de novo para a varanda, muito atarefada, gritando pela Brígida:
— Ó Brígida! Também estás dormindo, seu diabo?!
Na sala as visitas discutiam rindo a cena do moleque e o mau gênio de Maria Bárbara, mas tiveram de abafar a voz, porque Ana Rosa pôs-se a tocar uma polca ao piano.
Pouco depois, ouviu-se um farfalhar de saias engomadas, e em seguida apresentou-se a Brígida, uma mulata corpulenta a carapinha muito trançada e cheia de flores, um vestido de chita com três palmos de cauda, recendendo a cumaru. Preparava-se daquele modo, para ir à sala, oferecer água. com ambas as mãos uma enorme salva de prata, cheia de copos, dirigia-se a todos, um por um, a bambalear as ancas volumosas.
A criadagem de Manuel e Maria Bárbara constava, além de Brígida, e
Benedito, de uma cafuza já idosa, chamada Mônica, que amamentara Ana Rosa e lavava a roupa da casa, e mais de uma preta só para engomar, e outra só para cozinhar, e outra só para sacudir o pó dos trastes e levar recados à rua. Pois, apesar deste pessoal, o serviço era sempre tardio e malfeito.
— Estas escravas de hoje tem luxos!... observou Amância em voz baixa a Maria do Carmo, apontando com o olhar para o vulto empantufado de Brígida.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.