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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

Rejubilei de contente. Agradeci-lhe com um abraço sincero. Dispondo de semelhante ajudante-de-ordens, tinha certeza da vitória! César, amoroso e dedicado como sempre fora para comigo, havia de tomar a peito a minha causa e destruiria, com o seu valor de homem, os obstáculos que eu não pudesse quebrar com as minhas mãos de mulher.

— Os seus serviços, meu amigo, disse-lhe eu, vão ser desde logo necessários para uma prévia inspeção. Inspeção rigorosa, na pessoa de quem se propuser para meu genro. Só consentirei que se case com Palmira um rapaz perfeito, em plena normalidade de saúde.

Está claro!

— A menor lesão, o menor vício de organismo ou de sangue, a menor deformação física, é o bastante para pô-lo fora de combate. Não lhe parece?

— Decerto; e desde já respondo por mim, como médico consciencioso... disse o meu bom amigo. Mal apareça o homem, arranje, Olímpia, um meio de pô-lo em contacto comigo, e eu me encarregarei do resto. Desde que eu declare: “Este serve! — Este é perfeito — Este está conforme!” pode você aceitá-lo de olhos fechados, porque não deixarei passar gato por lebre!

Ele ficou para jantar conosco, e toda essa tarde meu coração cantou vitorioso, como se efetivamente já tivesse segura a felicidade de Palmira.

CAPÍTULO XI

Mas o homem põe, e Deus dispõe; um ano decorreu sem que eu descobrisse, para minha filha, um oficial de marinha que lhe conviesse. Ela acabava de fazer dezenove anos e era um mimo de graça e de inocência; amava-me extremamente, e jurava que me faria todas as vontades — só para me ver feliz.

Coitada! — Ver-me feliz!... a mim! Como se no mundo houvesse para mim, outra felicidade que não fosse a dela própria.

Durante todo esse ano dei festas em minha casa; comecei a receber, às quartas-feiras, todas as semanas. Como sabiam por aí que éramos ricas, não faltavam pretendentes à mão de minha filha; e o bom acolhimento que dispensei logo à farda de marinha encheu-me as salas de velhos e jovens oficiais dessa milícia, com tamanha profusão, que cheguei a recear ter inutilizado o gênero, barateando-o aos olhos de Palmira.

Minha casa parecia já uma repartição de Marinha, e no entretanto a rapariga não se decidia por nenhum dos oficiais. Verdade é que bem raros se me afiguravam corresponder aos requisitos exigidos. Só um Saturnino da Rocha, primeiro-tenente, de vinte e cinco anos, me deu vivas esperanças. Um belo moço! Mas o Dr. César disse que ele tinha a solitária. Pusemo-lo à margem.

Com o que eu não contava foi o que sucedeu, como acontece quase sempre. Entre os candidatos, colhidos pela rede que atirei ao mar para pescar um noivo, veio, de mistura com os legítimos representantes daquele poético elemento, um empregado público, de Segunda ou terceira ordem, um amanuense de secretaria, amador de música; um verdadeiro contrabando, impingido já me não lembra por quem. Era ainda muito moço, bonito e bem apessoado. Estudei-o de relance; não me pareceu mau de gênio e revelou inteligência quase regular. Tocava piano e bandolim com certa graça; falava inglês, francês e espanhol. Era pobre.

— Quem sabe?... pensei eu. Talvez apesar da idade, cuja diferença de Palmira me parecia pequena demais, estivesse naquele contrabando um rapaz aproveitável para os fins que eu tinha em vista... Mas, que pena! não era oficial de marinha!... De todos os proponentes era, todavia, e sem termo de comparação, o melhor como estampa.

Interpelei minha filha, a respeito dele, frouxamente, como por descargo de consciência. E qual não foi o meu espanto quando a vi reproduzir fielmente todos os gestos retraídos, que eu própria fizera quando me consultaram, nas mesmas condições, sobre o meu defunto esposo?

Ela abaixou os olhos, corou, sorriu quase imperceptivelmente, e começou a percorrer com os dedos da mão direita os botões do corpinho do seu vestido.

Tomei-lhe as mãos; estavam frias e ligeiramente trêmulas. Interroguei-a de novo, e Palmira, em vez de responder, caiu-me nos braços, soluçando.

Era a coisa, não havia dúvida! Comigo tinha sido tal e qual!

Gostas dele... Não é verdade, minha filha?... perguntei-lhe, beijando-a na testa.

Eu o amo, minha mãe... foi a sua única resposta.

— Tu o amas! — Sabes lá o que é isso! Queira Deus que não estejas procurando iludir-te; iludir a ti e a mim! Não te deixes levar por falsas impressões!...

Só com ele me casarei por meu gosto! Só com ele serei feliz!...

— Isso é o que todas nós dizemos nas tuas condições, minha filha... Mas não te mortifiques, que, se o rapaz te ama deveras, e se estiver em condições de casar contigo, não serei eu que a tal me oponha, porque bem sabes que só procuro e quero a tua felicidade.

Ela, transportada, beijou-me repetidas vezes, agradecendo-me com as suas carícias as minhas palavras.

(continua...)

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