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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

- Qual! Não obtive a cadeira que desejava no colégio do tal Madeiros, mas em compensação um amigo do Sampaio arranjou-me um lugar de conferente no Jornal. - Quanto vais ganhar?

- Trinta mil réis por mês.

- Oh!

- Antes isso do que nada...

- Quantas horas de serviço?

- Das sete às onze da noite.

- É horrível.

- Prometeram-me arranjar também alguns explicandos de latim, francês e português.Teobaldo já não o ouvia, porque estava entretido a falar com a dona da casa, que ele acabava de descobrir no andar de baixo.

- Temos então hoje um convidado? perguntou ela, depois do que lhe disse o rapaz.

- É exato, um amigo. Pode acrescentar um talher à mesa; dos vinhos encarrego-me eu.

D. Ernestina, assim se chamava a senhoria, era uma rapariga de vinte e poucos anos, cheia de corpo, muito bem disposta, mas um tanto misteriosa na sua vida íntima. Pelo jeito possuía alguma coisinha de seu e era mulher honesta.

Viúva, casada ou solteira?

Viúva, podia ser; casada é que não, porque em tal caso não seria ela a senhora da casa e sim o marido. Solteira... mas há tantos gêneros de mulher solteira...

Contudo ninguém podia dizer mal de sua conduta. Passava todo o santo dia ocupada com os arranjos da casa e só se mostrava à janela ou saía a passear no jardim nas tardes de muito calor, quando o corpo reclama ar livre.

Teobaldo notara que, todas as noites, entre as sete e as dez, aparecia na sala de jantar de D. Ernestina um sujeito de meia idade, gordo, semicalvo, discretamente risonho e pelo jeito homem de negócios.

A persistência deste tipo ao lado da rapariga e as maneiras carinhosas com que ele a tratava levaram o estudante a decidir para si que o homem, "Seu Almeida", como lhe chamava ela, era sem dúvida o verdadeiro dono da casa; mas nem de leve se preocupou com isso.

Às vezes D. Ernestina reunia em torno de si duas ou senhoras de amizade e palestravam antes do chá.

Nessas ocasiões, Teobaldo descia quase sempre ao andar debaixo e, com a sua presença, animava a sala, cantando, tocando piano, fazendo prestidigitações e recitando poesias.

Uma vez, em que ele deixou-se ficar à mesa depois do almoço, Ernestina guardou também a cadeira e os dois principiaram a conversar:

- Ainda não tinha vindo à corte? perguntou ela.

- Vim, mas de passagem, quando saí de Minas para à Europa.

- Ah! viajou pela Europa?

- Estive em um colégio de Londres.

- E depois voltou para junto de sua família?...

- Até o dia em que vim para aqui.

- Seu pai é fazendeiro?

- Sim, senhora.

- E pelos modos, rico...

- Remediado.

- Como se chama?

- Barão do Palmar.

- Ah!

- Ou então Emílio Henrique de Albuquerque.

- Ainda vive a senhora sua mãe?

- Ainda. Quer ver o retrato dela? Trago-o nesta medalha.

D. Ernestina levantou-se e ficou por alguns segundos debruçada sobre Teobaldo a ver a delicada miniatura em marfim que ele trazia na corrente do relógio.

- Ainda está moça... muito bem conservada....

- Hoje tem os cabelos quase todos brancos. Meu pai, que é muito mais velho, não está tão acabado.

- Que perfume é esse que o senhor usa?

- É dos que ainda trouxe de casa. O velho recebe-os diretamente da Inglaterra.

- É muito agradável.

- Pois, se quiser, posso ceder-lhe um frasquinho; tenho ainda muitos lá em cima.

D. Ernestina aceitou; ele correu a buscar a perfumaria e, depois de conversarem a respeito do Coruja, que fora trazido à baila e o qual declarou ela com franqueza que achava detestável, Teobaldo entendeu chegada a sua vez de interrogar, e perguntou-lhe sem mais preâmbulos: - A senhora é casada?

Ela respondeu que "sim", mas vacilando.

- Com o Almeida...Outro sim dúbio.

- Há muito tempo?

- Há algum já...

- Era viúva antes disso?

- Sim, senhor.

- E não tem filhos?

- Não, felizmente.

- Felizmente, por que?

- Ora! os filhos fazem a gente velha...

E assim palavrearam durante uma boa hora, sem que o rapaz conseguisse precisar o seu juízo sobre aquela mulher, da qual nem mesmo a idade podia determinar.

Um homem mais velho que Teobaldo notaria entretanto que Ernestina era bem servida de formas, que tinha bons dentes, cabelos magníficos e um par de olhos bem guarnecidos e banhados de uma certa umidade voluptuosa.

Mas o filho do barão estava na idade em que os homens ainda não sabem apreciar as mulheres e aceitam-nas indeterminadamente, como simples recreio dos seus sentidos. Orçava ele então pelos dezoito anos e, mais formoso do que nunca, desenvolviam-se-lhe as feições, sem detrimento da primitiva frescura. Tinha ainda alguma coisa da graciosa candura da criança e já, nos traços enérgicos de sua fisionomia e nos movimentos donairosos de seu corpo, pressentiam-se as manifestações de uma forte e precoce virilidade. Tez aveludada e pura, sorriso crespo e frio, olhar indiferente e terno a um tempo, dir-se-ia que ele, naquele todo de jovem príncipe aborrecido, realizava com a sua graciosa e pálida figura o tipo ideal do romantismo da época.

Entrando em casa uma ocasião às duas horas da tarde, disse-lhe o Coruja que D. Ernestina o mandara procurar havia pouco e que lhe pedia o obséquio de ir ter com ela, logo que chegasse.

(continua...)

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