Por Aluísio Azevedo (1884)
A dehesa era enorme, estendia-se até muito longe; nessa ocasião, por felicidade, os touros achavam-se entretidos para o lado contrário ao do carro, e o estalajadeiro não precisou puxar muito pelos cavalos, porque estes fariscando logo o risco que corriam, abriram a rinchar e, mau grado da fadiga, desembestaram para as bandas do campo.
Ma]ditos rinchos! Um touro acabava de despertar ao seu fragor e, encapotando a cabeça nas pernas dianteiras, corria assanhado na direção do carro.
O federal chicoteou os cavalos com toda a força e o pobre coche rodou por entre o mato como uma bala perdida.
— Anda! Anda! berrava o Borges de pé, a tocarolar as costas do cocheiro. — Olha que o diabo do bicho aí vem!
Com efeito, o touro perseguia-os na distância de uns cinqüenta passos.
— Preparem as armas! bramiu Filomena. Aqui o recurso que há é lutar.
Mal terminava essa frase, quando se sentiu decair com o marido para a direita; uma das rodas do carro estava por terra, em pedaços.
— Jesus! fez ela, agarrando-se à portinhola.
— Já aí vem o conocedor e já ouço o chocalho do cabestro. Estamos salvos!
De fato, três homens a cavalo e seguidos de um boi velho e manso, vinham com os seus cajados em punho à pista da rês que se desgarrara da dehesa. O touro logo que ouviu o chocalho, parou, sorveu o ar por alguns segundos e foi humildemente emparelhar-se ao cabestro.
— Diabos te consumam! rosnou o federal, considerando o estado de seu pobre carro e de seus pobres animais. Como hei de agora arranjar-me para a volta?!...
Felizmente já não estavam muito longe da estação de Lora, e o Borges, se não quisesse tomar aí o caminho de ferro, podia ficar em algum hotel, onde com facilidade arranjaria meios de condução para o lugar que melhor entendesse.
Mas Filomena declarou logo que não se sentia disposta, por coisa alguma, a passar a sua lua de mel enterrada num quarto de hospedaria. Não foi para isso que viera à Espanha! Queria um sítio pitoresco, ignorado, poético, silencioso... O marido que tivesse paciência; ela, porém, não descansaria antes de encontrar um lugarzinho nessas condições.
— Pois tranqüiliza-te, que, custe o que custar, havemos de descobri-lo, respondeu o Borges. Já agora, com mais um empurrão leva-se a caixa ao porão!
Durante esse diálogo, o estalajadeiro carregou pelo melhor os seus animais com a bagagem dos fugitivos. E os três, seguidos das cavalgaduras, puseram-se corajosamente a caminho, dispostos a não acampar, sem terem descoberto o tal sítio indispensável para os amores de Filomena.
CAPÍTULO VII
ENFIM
Foram dar com os ossos a Cordova, num destroço de castelo árabe, construído à margem de um braço do Guadalquivir, ainda nos tempos do domínio muçulmano, e em cujas ruínas se aboletavam agora os pescadores do lugar e um ou outro gitano, que a fome e a fadiga trouxessem de rastros até aí.
Filomena ficou arrebatada; confessou que o lugar não podia ser melhor para uma lua de mel e resolveu instalar-se nas ruínas.
— Que?! exclamou o Borges, assustando-se. Ficar aqui?! Ficar neste covil de vagabundos?!.. — Ora, qual! A mulher com certeza estava gracejando!
— Não! disse ela, sem se alterar, não gracejo, nem admito que te queiras fazer insensível a estas magnificências do belo! Olha! Contempla estas abóbadas lascadas, tudo isto é maravilhoso! Onde mas tu descobrir um lugar mais propício aos nossos amores?...
Borges ainda tentou despersuadi-la de semelhante idéia. Opôs-lhe os mais sensatos argumentos, apresentou-lhe com todo o peso de seu bom senso os inconvenientes que os esperavam — o sol, a chuva, os mosquitos, os insetos venenosos, talvez a morte nas mãos daqueles bárbaros! Filomena que pensasse um instante, que refletisse um momento, antes de dar aquele passo! porém, nada obteve — a mulher não cedia uma polegada; e o infeliz, disfarçando o seu desgosto e auxiliado pelo cantonalista, procurou entrar em bom acordo com os pescadores.
Tudo arranjado pelo melhor que foi possível, o estalajadeiro descansou um pouco, depois embolsou a recompensa de seus trabalhos e a indenização de seus prejuízos, abraçou o suposto correligionário, jurou ainda uma vez que estaria sempre disposto a derramar a última gota de sangue pela pátria, e afinal retirou-se.
O Borges então cuidou de resignar-se às circunstâncias. Aquele capricho da mulher não poderia deitar muito longe! ... Que a deixassem lá com as suas ruínas, o primeiro pé d'água que caísse havia de ensiná-la!...
Contudo, aí ficaram três semanas, expostos ao sol e ao sereno, quase ao relento, alimentando-se sabe Deus como, e dormindo sob as velhas abóbadas lascadas e cheias de verdura. Felizmente tinham consigo alguma roupa, uma boa mala e ainda bastante dinheiro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.