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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Mme. Brizard, quando chegava a este ponto do romance, abaixava os olhos, levando lentamente o leque à boca para disfarçar um suspiro.

“Enviuvou aos vinte anos; o russo não lhe deixara filhos;— voltou à família. Aí lhe apareceu então Mr. Brizard, homem de talento, político e escritor, grande republicano. A subida de Luís Felipe ao trono atirou com ele ao Brasil, onde se fez hoteleiro.

Tiveram aqui três filhos: duas mulheres e um homem. Este era o último e muito se distanciava das irmãs em idade; quando lhe faltou o pai tinha apenas sete anos.

A filha mais velha representava a glória da família: unira-se a um ministro plenipotenciário; a outra, coitada, não casou mal, porém com a morte do marido, e de um filhinho que lhe ficara, tornou-se muito nervosa, histérica, e até, meio pateta; agora vivia e mais o irmão em companhia da mãe”

* * *

Nessas condições, a proposta de João Coqueiro pareceu vantajosa a Mme. Brizard. — Ele que trouxesse a irmã a bela Amelita, e tudo se arranjaria prelo melhor.

Juntaram-se Mme. Brizard revelou pronto interesse pelos dois hóspedes, principalmente pelo “Coqueirinho” como lhe chamavam em família. Fazia-se mito carinhosa com ele, queria ser a sua “segunda mãe”, apreciava-lhe o talento, e andava a mostrar os versos do rapaz a todas as pessoas que apareciam à noite, para as torradas.

Reuniam-se em volta da mesa de jantar; iam buscar o loto e jogavam. Coqueiro lia a um canto, ou ficava no quarto, a cachimbar soturnamente, olhando o fumo e cismando na vida.

Mme. Brizard fazia perfeitamente as honras da casa; dava-se por mulher de muito espírito e de uma educação peregrina. Se havia então alguém que a visitasse pela primeira vez — a coisa ia mais longe. Desenfiava os seus melhores ditos, contava como por incidente, as suas anedotas de mais efeito, falava gravemente de sua filha casada com o ministro e exibia todos os seus conhecimentos literários.

Que os tina, inegavelmente. Lamartine lá estava no quarto dela ,sobre o velador, encadernado com esmero. Mas não desdenhava os poetas brasileiros e lia Camões. Uma sua amiga, muito chegada, dizia que lhe ouvira páginas inéditas de um livro sobre o Brasil, — livro para fazer “sensação”!

Mme. Brizard confirmava este boato, sorrindo com modéstia.

João Coqueiro, esse, não sorria,. Ao contrário, parecia cada vez mais triste; passava tempos sem aparecer a ninguém, depois que largava o trabalho. Por mais de uma vez houver que lhe visse lágrimas nos olhos.

A francesa, que se achava então no seu período mais agudo de

sentimentalismo, respeitava muito as melancolias do pobre moço, falava a respeito dele com a voz baixa, cheia de um acatamento religioso. Só lhe passava pelo quarto na pontinha dos pés, e, quando o triste hóspede saía para o emprego, ela corria a lhe arrumar a mesa, com desvelo, ordenando os livros, reunindo os papéis esparsos, lendo, sobre a pasta, os versos começados na véspera.

Uma tarde, acharam-se os dois um defronte do outro, assentados sozinhos na varanda da sala de jantar, que dava para um lugar plantado de bananeiras. O sol descia lentamente no horizonte por uma escadaria de fogo; as cigarras estridulavam no fundo da chácara; a noite ia emanando.

Coqueiro olhava à toa para isso, absorto e mudo; depois suspirou e escondeu o rosto nas mãos. Mme. Brizard passou-lhe um braço no ombro.

— Coqueirinho! que é isso?...

Queria saber o motivos daquelas tristezas. Começou a interrogá-lo, com a voz untuosa, cheia de amor.

Ele então falou abertamente de suas aspirações, de seus estudos interrompidos, de sua incompatibilidade com o emprego que exercia.

— Sou muito caipora! Exclamava. — Sou muito caipora!

E chorava.

Mme. Brizard procurou consolá-lo, falou do futuro, lembrou a idade de coqueiro e aconselhou-o a que não desanimasse.

Foi daí que lhes veio a idéia de casamento.

Mme. Brizard era muito mais velha do que ele, mas, talvez, por isso mesmo, fosse a esposa que melhor lhe convinha.

(continua...)

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