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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Vê, reflete, minha doce amiga, minha estremecida companheira! Disse­te francamente os motivos por que não consinto que realizes os teus planos de vingança; confessei­te tudo, e peço­te agora com amor, com humilhação, que sacrifique ao bem de minha família alguma cousa da tua suposta ventura... Só no caso de não atenderes às súplicas de teu mal­aventurado amante, é que o irmão de Virgínia defenderá do teu punhal o marido de sua irmã!

— Não será preciso, respondeu Violante, afastando­se. Uma vez que Paulo Mostella é necessário à felicidade de teu pai, ele viverá. Minha mão jamais se levantará para o ferir. Podes ficar tranqüilo...

— Obrigado! obrigado! exclamou Gaspar, atirando­se aos pés da oriental. Bem sabia eu que em teu coração não tinha morrido ainda a idéia do bem e da justiça; obrigado! obrigado, minha amiga!

— Não me agradeças cousa alguma. Eu cumpro um destino...

E mudando de tom:

— Desce, vai à rua e dize ao homem que lá está à minha espera, que já não preciso dele. Dá­lhe dinheiro e ordena­lhe que nunca mais me apareça.

Gaspar desceu a escada a três e três degraus.

Ao voltar ao quarto de Violante, soltou um grito; a bela mulher estava estendida no tapete, aos pés do leito, e seu colo nadava em sangue.

Apunhalara­se.

— Perdoa­me! disse ela, ofegante, ao ver entrar Gaspar. Eu sou uma desgraçada! Reconheço que é mau tudo o que cometi, mas não estava em mim poder evitá­lo... Não sei odiar de outro modo. Meu ódio só se pode esvair em sangue... Estou agora mais aliviada... parece­me ver correr do próprio peito a cólera vermelha e ardente, que dentro dele se tinha acumulado... Ai! quanto me desafronta o sangue que derramo! Sinto­me melhor... mais propensa à piedade... Vou compreendendo toda a razão das tuas palavras, meu bom companheiro... Cerraram­se­me os olhos, desfaleço, como se adormecesse no elevamento de um amor ideal... Já vejo assomar além, por entre as névoas que me ensombram, o vulto singelo e casto de teu pai... Ele sorri para mim... envolve­me toda no seu olhar compassivo e doce... Não me despertes...

E a oriental deixou pender a cabeça, e desfaleceu. Gaspar correu aos aparelhos cirúrgicos e apressouse a tomar­lhe a ferida. Mas a mão tremia­lhe, o coração saltava­lhe dentro com força, e as lágrimas corriam­lhe dos olhos em borbotão. Contudo, o médico operava, e Violante vivia.

No dia seguinte, ela abriu os olhos e recuperou a fala.

Suas primeiras palavras foram para pedir água. Gaspar negou­lha. A infeliz tinha a voz muito fraca, palidez mortal, e uma profunda melancolia espalhada por todo o semblante.

Gaspar estava ajoelhado à cabeceira da cama em que a depusera. O outro médico já se tinha retirado.

Os dois amantes ficaram longo tempo a se olharem com a mesma tristeza. Ela passou­lhe depois a mão pelos cabelos e chamou a cabeça dele para seu colo. Gaspar não podia articular uma palavra; as lágrimas corriam­lhe apressadas e quentes pela barba.

— Como tu és bom, meu amigo! como tu merecias ser feliz...

— Não estejas a falar, que isto te faz mal... observou Gaspar, no fim de alguns instantes. Vê se sossegas. Eu fico aqui, ao pé de ti...

— Sim, sim; mas preciso muito que me faças um grande favor; manda chamar um padre. Eu quero casar­me contigo antes de morrer.

— Tu não morrerás!...

— Sim, mas manda chamá­lo...

O padre veio e cumpriu­se a cerimônia. Depois Violante exigiu que se lavrasse um documento assinado por ela, declarando o modo pelo qual morria.

Ficou tudo feito. Era ela a que parecia menos aflita.

— Bem, disse quando viu que já não precisava dos estranhos, deixe­me agora com meu marido...

Ficaram a sós os dois.

— Vem cá, balbuciou ela, tomando as mãos de Gaspar, vem dar­me o teu primeiro beijo... Chega­te mais para mim!... Afaga­me! dize­me as ternuras que reservavas para a nossa noite de núpcias, falame do nosso pobre amor! Tu choras, meu amigo!... Então sempre é verdade que me amavas muito!... Sim! bem sei que era!... E teu amor foi sempre puro e consolador como uma boa ação. Não me repreendas; deixa­me conversar contigo!... Coloca teu braço debaixo da minha cabeça.... Assim! Mas a ferida começa a doer­me muito! Se me desse um pouco d’água! Tenho uma sede horrível! Ai quanto custa morrer!...

— Não te aflijas, Violante! Não fales em morrer! Havemos ambos de gozar ainda do nosso amor em plena exuberância da vida!

(continua...)

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