Por Bernardo Guimarães (1883)
Por fim um homem algum tanto edoso, que alli estava na roda, porém com a cabeça mais calma e fresca do que seus companheiros, observando a anciosa inquietação em que se achava a creoula, para saber ao certo a sorte da velha, compadeceo-se della, e chamando-a de parte assegurou-lhe que aquelle ranchinho era de facto a actual morada de Nha-Tuca, que ainda era viva, mas que ha muitos dias se achava ás portas da morte. Contou-lhe mais em poucas palavras que essa mulher tinha perdido tudo quando possuia c cahido na mais profunda miseria, vendo morrerem uma por uma em pouco tempo de molestias ruins o contagiosas todas as suas escravas, que constituião seu principal cabedal ; que tambem de certo tempo em diante fôra dimiuuiDdq rapidamcntc toda a freguezia de seu negocio, até que por fim para cumulo de males pegou-lhe fogo na casa, que ardeo toda em uma noite, mal podendo escapar os moradores, e que Nha-Tuca, vendo-sc reduzida á ultima poDreza, se havia refugiado naquelle ranchinho que por compaixão lhe ha• vião cedido, e onde vivia das mingoadas esmoIas, que bem pouca gente lhe dava; que dois dias antes morrera de repente a unica escrava que lhe restava, que lhe fazia companhia e esmolava para ambas, si bem que em estado quasi tão lastimoso como a senhora. O povo attribuia todas essas desgraças a castigo pelas maldades que essa mulher tinha praticado, e que por muito tempo andárão encobertas. Por isso todos fugião della, e a deixavão abando nada naquelle miseravel ranchinho, onde se achava morrendo á mingoa.
Lucinda não quiz ouvir mais nada, si bem que o velho se mostrasse disposto a narrar-lhe por miudo todas as horriveis façanhas daquella execravel mulher. Pedio desculpa allegando que era captiva e morava longe, despedio-se, e si depressa tinha vindo, mais depressa voltou para a cidade, onde chegou pela volta do meio dia. A noticia de que Nha-Tuca estava viva, mas ás portas da morte, dava-lhe azas, e a robusta creoula, a despeito de sua edade e corpulencia, em menos de meia hora venceo a distancia de mais de meia legoa, que a separava da cidade.
Conrado, com o espirito desasocegado e entregue a crucis tribulações, achava-se em caso pensando no modo por que havia de passar as longas horas que ainda tinhão de decorrer até o prazo em que Lucinda promettera voltar com a resposta tão impacientemente esperada, quando inesperadamente a creoula, que o creado da porta tinha ordem de deixar entrar a qualquer hora que apparecesse, se lhe apresenta arquejante de cansaço e coberta de suor.
O que é isto, Lucinda? — perguntou o moço sobresaltado. — Que novidade temos?... vens tão cansada e tão antes da hora marcada!...
— Socega seu coração, Nhó Conrado. — respondeo Lucinda a offegar. — O negocio não vae mal por ora. .. Vim depressa e antes da hora, por que assim era preciso. A mulher ainda vive...
— Vive' louvado seja Deos ! — exclamou Conrado levantando as mãos ao céo; — tudo está remediado. Rozaura, minha filha, vaes ser livre e restituida aos braços de teu pae!...
— Vive, sim senhor; mas está mal, quasi a morrer. Deixemos de mais conversa. NhÔ Conrado é preciso ir lá já e já, quanto antes; a cada momento ella póde expirar.
— Tens razão, Lucinda; tens razão; vou já. Conrado chamou immediatamente o seu pagem, e deo-lhe ordem para que sellasse depressa o seu melhor cavallo. Einquanto isto se fazia, Lucinda dava a Conrado as indicações necessarias, para que acertasse com o logar em que se achava situado o rancho de NhaTuca.
Lueinda retirou-se para a casa, e Conrado partio a galope para as bandas da freguezia de Nossa Senhora do O.
CAPITULO XI
Nha-Tuca e sua choupana.
Ainda alguns caipiras ociosos e folgazões se achavão reunidos junto á porta da taverna do francez, uns conversando, outros cochilando, outros cantando e tocando viola sentados no patamar, quando virão despontar na volta da estrada pelo lado da cidade um cavalleiro, que vinha a grande galope, e que em poucos instantes veio esbarrar diante delles o seu lindo e garboso cavallo alazão, todo arquejante e coberto de espuma. Era um mancebo de trinta e tantos annos; de porte esbelto, de physionomia nobre e sympathica, e que trajava com primoroso esmero e elegancia.
Pódem fazer-me o favor de mostrar—me onde mora por aqui uma pobre velha, que se acha muito mal, chamada Nha-Tuca? perguntou o cavalleiro, depois de ter saudado
cortezmente a comitiva.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.