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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

- Entretanto, disse Elias chegando-se a uma janela, noto que a povoação apesar disso não deixa de ir crescendo. Estou vendo muitas casas novas, que não deixei quando daqui saí, e tudo vai a melhor.

- O lugar vai em aumento não há dúvida; mas isso não pode ir longe.

- A propósito. De quem é aquela casinha, que lá está no alto daquele lançante? como está bem situada! . . . dali deve-se gozar a vista de toda a povoação.

- Oh! aquela é de uma das principais vítimas da exploração destas lavras. É do Major ; não o conhece? . . .

-muito! Muito! . . . mas que me diz? pois o Major também se arruinou? !

A conversação caía enfim casualmente no ponto a que queria leva-la Elias, que ardia por ter novas do Major e de sua filha, os quais já sabia que se achavam na Bagagem. Pode-se pois facilmente imaginar com que avidez curiosa, com que mal disfarçada sofreguidão dirigiu ao negociante a última pergunta.

- Consta, respondeu este com toda fleuma, que todos os seus bens estão empenhados e que, se forem liquidar os seus negócios, não lhe ficará um real, e a propósito, por falarmos no Major, perguntava o senhor há pouco por novidades. Pois saiba que a mais importante que temos, e que agora anda por aí pela boca de todos, é o casamento de sua filha. . .

- De Lúcia? . . . atalhou vivamente o moço.

- Pois de quem mais há de ser? . . . então conhece- a?

Elias não respondeu; sentia como uma espécie de vertigem, que o atordoava, como se um raio tivesse estalado junto dele. Agarrou-se ao peitoril da janela para não cair. Assim esteve por alguns instantes, depois dos quais continuou forcejando debalde para dar à sua voz o tom da mais completa indiferença.

- Conheço- a muito; é uma linda menina; mas. . . diziam-me que era muito esquiva; admira-me que se resolvesse a casar-se, e quem sabe. . .

- Quem sabe o quê?

- Quem sabe se não vai de muito boa vontade? . . .

- E por quê não? o noivo é um guapo mocetão, de bonita figura e fino trato, e, o que mais é, muito rico. Ela, como

Vcmê. Bem sabe, é a moça mais linda destes arredores; digo-lhe com veras que nunca vi casamento mais bem ajustado. O Major está um pouco arruinado, é verdade; mas o genro é riquíssimo, e, ao que dizem por aí, vai escorar o sogro, o que não lhe custará pouco. Com aquele casamento a felicidade entrou-lhe pela casa dentro.

- Entrou? ! . . . pois já? exclamou o moço com visível perturbação.

- Ou vai entrar, é o mesmo, pois o negócio é decidido, e está por poucos dias. É mais um par de rolinhas amorosas, como dizia um amigo meu meio metido a poeta, que veio fazer seu ninho aqui nas matas da Bagagem.

Elias não teve ânimo de dizer mais nem uma palavra; o coração lhe batia desencontrado; tinha as faces secas e a língua se lhe pegava ao céu- da- boca. Trêmulo e coberto de horrível amarelidão, mal se podia suster agarrado ao peitoril da janela.

Posto que já o sol tivesse entrado, e já fosse escasseando a luz do dia, o negociante não deixou de perceber a extrema perturbação e o transtorno das feições do rapaz. . .

- O que tem, meu amigo? . . . ainda agora parecia vender saúde, e agora o vejo tão pálido e desfigurado? está sofrendo decerto algum incômodo?

- Nada. . . quase nada. São acessos de intermitentes, que apanhei no Rio S. Francisco, e que às vezes ainda se repetem; mas passam logo.

- Ah! . . . ninguém lá vai que as não apanhe. Deite-se neste canapé, enquanto vou lhe mandar trazer um copo de vinho quente com açúcar; dizem que é bom. Depois, se quiser, chamarei médico. . .

- Aceito o vinho; mas não será preciso tomar maior incômodo; isto passa logo.

(continua...)

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