Por Bernardo Guimarães (1872)
Os sofrimentos da alma se faziam sentir de um modo assustador na organização física de Paulina. O verme peçonhento tinha pousado no âmago da tenra e mimosa flor do deserto e, devorando-lhe a seiva da vida, deixava nele o gérmen da morte. Já ninguém a via como outrora esbelta e ágil como a ema percorrer as campinas em busca de flores e frutas, nem ir sentar-se corada e risonha à sombra do laranjal, ou na relva da fonte a coser e a cantar entre as escravas. Quando saía do seu quarto, onde passava os dias a coser ou a ler maquinalmente, viam-na pálida e vacilante arrastar-se a passos lentos ao longo dos corredores, descer ao curral, procurar a sombra da gameleira, sentar-se sobre a mesa do mesmo carro onde ouvira da boca de Eduardo a fatal revelação, que a tornara infeliz para sempre, e ali com as mãos agarradas a um dos fueiros e a face encostada a elas, os olhos fixos ao longe pela estrada que se perdia serpeando pelas colinas, ficar horas e horas entregue a um torpor melancólico, que a tornava como estátua.
O pai notava com a mais viva inquietação e ansiedade o rápido definhar de sua filha, e desesperava-se vendo que todos os cuidados e desvelos, todos os meios de que lançava mão, não conseguiam atalhar os progressos do mal, que ameaçava roubar-lhe sua única e querida filha.
– Que tens, Paulina, que cada vez te vejo mais pálida e abatida, dizia-lhe o pai já talvez pela centésima vez. Tu sofres alguma coisa que não me queres dizer. É preciso que te distraias, que recobres as tuas cores, a tua antiga alegria, que voltes ao que dantes eras, se não queres que eu morra de desgosto.
– Ah! meu pai, eu mesmo não sei o que sofro; não tenho indisposição, nem dor alguma; entretanto acho-me mal. O que sei dizer é que desde o dia em que estive a ponto de cair nas garras daquela onça, já não sou a mesma, e creio que nunca mais o serei. De que serviu aquele moço ter-me livrado das garras do animal, o choque que senti, arruinou-me a saúde.
– Assim devia ser, minha filha; compreendo muito bem, que à vista daquele animal feroz, aqueles gritos e alaridos... aquele moço aparecendo de improviso como caído do céu para salvar-te, e depois lavado em sangue e quase morto... tudo isso não podia deixar de causar um grande abalo nos nervos e alterar a saúde de uma fraca criança, como tu és. Mas tudo isso já se passou há tanto tempo... já lá vai quase um ano; e em vez de melhorar, te vejo sempre a pior, a pior... oh!... minha filha!... quererás me deixar sozinho neste mundo?...
– Oh? meu pai! não pense nisso. Deus é grande; isto há de passar, creia-me; são ainda efeitos do abalo que senti.
– Há de passar, há de passar, sempre estás a falar assim e cada vez estás a pior. Olha, minha filha, talvez te seja útil mudar de ares, ver novas terras, distrair-te por esse mundo. Já te tenho dito muitas vezes, o mal que te consome não é mais que pura nervosia; o que te convém é distração e não é no deserto desta fazenda que te hás de distrair. Vamo-nos embora; venderei fazenda, escravos, gado, tudo e iremos para Vila Rica, para S.
Paulo, para o Rio de Janeiro, para onde quiseres...
– Para quê, meu pai? o mal não está nesta terra, nem nestes ares, nem em nada do que me cerca; o mal está dentro de mim mesma, e me acompanhará por toda parte. Sossegue, meu pai; se Deus for servido, aqui mesmo melhorarei e ficarei boa.
– Deus assim o permita, minha filha! mas por quem és, não vás encerrar-te no quarto, nem lá ficar estatelada embaixo da gameleira, como costumas; não fazes idéia de quanto isso me aflige. Vai antes passear pelo quintal, tratar das tuas flores, dos teus passarinhos... senão fico pensando, que queres morrer mesmo, e me deixar sozinho neste mundo.
Joaquim Ribeiro já tinha suspeitado ou antes estava certo da causa dos sofrimentos de sua filha. Era para ele fora de dúvida que não era senão o moço que a tinha salvado da onça, que inspirando-lhe uma paixão cega e fatal, tendo-a livrado de uma morte desastrosa, a ia levando a outra morte mais lenta e talvez mais cruel. Sabia também que Eduardo estava ajustado para casar-se e talvez já estivesse casado com uma rica e formosa moça de seu país, e portanto por esse lado impossível lhe era tentar o mais poderoso senão o único remédio para o mal de sua filha. Todavia respeitando o melindre de Paulina, nunca ousou interrogá-la diretamente sobre tal assunto, porque entendia talvez com razão, que tocar em uma ferida, para a qual não podia dar remédio algum, só serviria para agravá-la. Propunha passeios e distrações a sua filha, mas ela quase sempre se recusava, e quando por condescender com seu pai os aceitava, voltava ainda mais triste e abatida que nunca.
Depois de envidar sem resultado algum todos os expedientes e recursos de que podia lançar mão, o velho depois de muito pensar e dar tratos à imaginação, capacitou-se de que o único meio que lhe restava a tentar para arrancar sua filha daquele estado de melancolia e prostração, que a ia arrastando ao túmulo, era o casamento.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.