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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Coisas deste mundo! Uns trinta anos antes dessa época brilhante e gloriosa, tinham estado presos na cadeia, que era naquele mesmo edifício, alguns dos comprometidos na famosa conjuração de Tiradentes, os criminosos de lesa-majestade que haviam tramado em Minas Gerais o primeiro movimento revolucionário, que devia realizar a independência pelo menos de uma parte do Brasil; e passados trinta anos, em 1822, duas das vítimas, dois dos condenados, o padre Manuel Rodrigues da Costa e José de Resende Costa Filho, vinham entrar nesse mesmo edifício para tomar parte nos trabalhos da assembléia constituinte do Brasil independente, como deputados pela província de Minas Gerais!

A cadeia velha transformara-se em templo das leis; as vítimas e os condenados de 1792 eram triunfadores e heróis em 1823.

Eu faço idéia da impressão que sentiriam e das recordações que teriam o padre Rodrigues da Costa e José de Resende ao verem-se pela primeira vez, em 1823, debaixo daquele mesmo teto que tão lúgubre lhes parecera em 1792.

Não quero, porém, perder de vista o assunto que ainda neste passeio me deve ocupar.

Pelo andar do tempo, continuou o palácio imperial a receber outras modificações.

No reinado do primeiro imperador, levantou-se o segundo andar da face principal com três janelas guarnecidas por uma varanda de ferro.

No atual reinado do Sr. D. Pedro II, e por ordem de Sua Majestade, foram reformados os dois corpos laterais da fachada principal, sendo cada um deles coroado com um ático, parecendo por isso haver dois terraços em lugar de telhados.

No interior do palácio, limitar-me-ei apenas a lembrar as alterações que o pensamento que dominou em épocas diversas imprimiu plasticamente na sala das audiências do governador e dos vice-reis, e do trono do rei e do imperador.

O conde de Bobadela mandou representar no teto daquela sala o gênio da América, e José de Oliveira, pintor fluminense, mostrou o gênio aspirando lume ao entrar no templo da humanidade, na grande aliança que caminhava com o sol, do oriente para o ocidente.

Por ordem do rei, simbolizou Manuel da Costa o reino unido, sustentando o escudo glorioso de Portugal.

O primeiro imperador encarregou a Francisco Pedro de substituir aquele símbolo, que ali se tornara anacrônico, pelas armas do novo império diamantino.

Logo depois da declaração da sua maioridade, o Sr. D. Pedro II mandou pelo Sr. Manuel de Araújo Porto Alegre executar no paço as obras que ainda há pouco referi, e então aquela sala cresceu de pavimento e altura, e no seu teto fulgurou o Anjo Custódio, protetor do império, rodeado das províncias e do Brasil genuflexo, que recebe da sua mão celeste o influxo da proteção divina.

A descrição do palácio imperial deve parar aqui. Convenho em que, ao ler-se a epígrafe deste e dos precedentes capítulos, esperariam muitos que eu tivesse de falar de salas suntuosas, de brilhantes e admiráveis trabalhos de arte, e de todas essas riquezas que deslumbram os olhos daqueles que visitam os palácios reais e imperiais do velho mundo. Mas, que hei de fazer? O nosso palácio imperial é uma casa pobre que faz honra à modéstia do imperador, e que, entretanto, assinala também ou a pobreza, ou a incúria inexplicável do Estado.

Mas por que dei por finda a descrição, não se segue que eu deva recolher-me tão cedo deste passeio, que apenas acabo de começar. Aproveitaremos o tempo que nos sobra, conversando um pouco sobre coisas que dizem respeito ao mesmo palácio.

Conversemos.

À primeira vista, surpreende a qualquer o fato de haver o rei deixado passar treze anos sem cuidar de fazer construir para si um verdadeiro palácio em lugar dessa casa dos governadores em que se hospedara a família real portuguesa; e ainda mais admira que a nação se tenha descuidado de oferecer ao seu imperador um palácio digno dela e dele, achando-se constituída há perto de meio século.

Ora, ao que parece, o rei não tinha muita vontade de voltar para Portugal e, portanto, não se explica, por uma idéia de residência passageira o fato de ter-se ele contentado com esse palácio provisório.

Quanto aos imperadores, a explicação seria ainda mais difícil para o Estado, que deve dar um palácio ao seu chefe.

Mas o motivo de ambos esses descuidos é, no entanto, porventura, bem simples.

O príncipe regente, depois rei do Reino-Unido, por muito pouco tempo residiu ordinariamente no palácio de que tenho tratado.

No mesmo ano da chegada da família real portuguesa ao Brasil, Elias Antônio Lopes, notável negociante da praça do Rio de Janeiro, ofereceu ao príncipe regente uma casa e chácara que possuía em S. Cristóvão. A oferta foi aceita, as armas reais foram colocadas sobre a porta principal da casa e a família real passou a residir quase sempre nessa chácara, que ficou sendo chamada, como ainda hoje se chama, Quinta da Boavista.

(continua...)

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