Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
Um estudante é o Gabrion do inspector de quarteirão; é objecto de todas as considerações do subdelegado de policia que não quer graças com elle : é nas platéas dos theatros uma potencia altamente considerada; é sympathico aos olhos de todas as senhoras ainda moças, e. temido por todas as senhoras já velhas.
Um estudante tem sempre uma declaração de amor á flor dos labios, e um epigramma na ponta da lingua. É franco e leal, mas ao mesmo tempo impertinente e desastrado; é generoso e ousado ; é tão docil que qualquer o domina, e violento e indomavel apenas de leve suspeita a idéa do dominio.
Um estudante é em politica sempre da opposição e em litteratura sempre da escola mais exagerada; em regra quer o que os outros não querem. Ama em primeiro logar a sua independencia, em segundo a originalidade, e em terceiro a todas as senhoras.
Um estudante é o melhor e o mais feliz dos homens; sabe que o é, vive como entende que deve viver, não troca a sua casaca velha pela farda bordada de nenhum ministro, nem a mesa de um collega pelo banquete do mais rico figurão ; tira partido de todas as circumstancias para divertir-se, e nunca se lembra de dar satisfações ao mundo.
Se nem todos os estudantes são assim, não é porque toda regra deva ter excepções, é somente porque ha homens que caminhão em sentido opposto da sua vocação.
Felizmente, o jovem, que é o heróe da historia que vou contar, é um verdadeiro estudante porque estuda, e porque tem todos os defeitos e todas as virtudes da sua classe.
Luciano acaba de ser approvado optime cum laude no quinto anno da escola de Medicina do Rio de Janeiro ; está habituado a esses triumphos academicos ; no imperial collegio de Pedro II onde ganhara o titulo de bacharel, tinha sido quatro vezes apontado como o primeiro entre os seus collegas de aulas, e quatro vezes pela mão do imperador havia sido a sua fronte coroada de louros.
E um bello mancebo de vinte-e dous annos : alto, fronte elevada, onde brilha a intelligencia, pallido, olhos ardentes, imaginação exaltada.
Como o anno de 1860.
Terminados os seus exames, Luciano deixa a cidade do Rio de Janeiro para ir passar três mezes de férias na casa de seu pai, rico fazendeiro do municipio de...
Luciano vai alegre de caminho para a roça ; leva porém algumas saudades e um receio no coração.
Vai alegre porque ama extremosamente a seus pais e arde em desejos de abraçal-os e de viver junto delles algumas semanas; vai alegre, porque deve encontrar-se com os seus amigos da.infancia, respirar doces auras na terra do seu berço, tornar a ver os campos, os bosques, os rios e as fontes que lhe lembrão mil gozos, mil travessuras, mil romancesinhos de criança.
Leva porém no coração saudades da escola e dos collegas, dos theatros e das festas, de algumas moças bonitas, a cada uma das quaes jurara um amor eterno, de uma corista da defunta companhia lyrica italiana com quem cantava duetos, e da confeitaria Carceller, onde todas as tardes costumava ir comer pasteis.
O receio que o acompanha, é mais serio ; desde dous annos seu pai procura convencel-o da conveniencia de um casamento que tem o grande defeito de ser muito prosaico ou poético demais, e Luciano teme com razão que novas instancias o continuem a obrigar a resistir á vontade daquelle a quem deve sempre obedecer.
Mas também é muito exigir !
Eugênio, que assim se chama o pai de Luciano, é intimo amigo de Guilherme, um rico negociante da corte, e possuidor de uma excellente fazenda que confina com a delle ; desde longos annos existe a mais perfeita intimidade entre ambos : tinhão-se casado no mesmo dia e aos pés do mesmo altar; suas esposas se tomarão tão amigas, como sabião selo os maridos, e por fim, tendo o céo dado um filho a Eugênio, e dous annos depois uma filha a Guilherme,os dous felizes pais, e as duas extremosas maiscompromettêrão-se mutuamente a casar Luciano com Dyonisia.
Esses pais amigos resolverão assim do futuro de seus filhos sem calcular com os caprichos de um coração de moça, com os ardores de um coração de mancebo, e com ura ou dous amores possiveis, que poderião fazer Luciano afastar-se de Dyonisia, ou ambos correrem em direccões oppostas.
Circumstancias imprevistas vierão tornar os dous pretendidos noivos quasi que absolutamente estranhos e desconhecidos.
Luciano só se poude lembrar de ter visto Dyonisia duas vezes : no primeira tinha elie cinco annos de idade, e a menina tres, e ficou furioso contra ella, porque fez-lhe em pedaços um lindo carrinho puxado por dous cavallos de chumho.
Na segunda vez, dous annos depois, o encontro não foi mais feliz ; a menina tinha-se tornado admiravelmente traquinas ; e além de perturbar todos os brinquedos do noivo, fazia-lhe caretas quando o percebia desapontado.
Então, aos. sete annos, Luciano á vista de seus pais, e dos pais de Dyonisia, disse a esta em. um momento de briga e de enfado :
— Deixe estar que eu nunca hei de casar-me com você!
E a menina desatou a rir e a saltar, exclamando:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.