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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Ela, porém, recusou todos esses alvitres; resolveu casar-se ao costume da terra, à noite, em oratório particular, na presença de algumas senhoras e cavalheiros, que lhe fariam, a ela órfã e só no mundo, as vezes da família que ela não tinha. 

Celebrara-se a cerimônia às oito horas. Lemos conseguira um barão para servir de contrapeso ao Ribeiro e um monsenhor para oficiar. 

Quanto à madrinha, Aurélia escolhera D. Margarida Ferreira, respeitável senhora, que lhe mostrara desinteressada amizade, desde a primeira vez que a encontrou na sociedade. 

No momento de ajoelhar aos pés do celebrante e de pronunciar o voto perpétuo que a ligava ao destino do homem por ela escolhido, Aurélia com o decoro que revestia seus menores gestos e movimentos, curvara a fronte, envolvendo-se pudicamente nas sombras diáfanas dos cândidos véus de noiva. 

Mau grado seu, porém, o contentamento que lhe enchia o coração e estava a borbotar nos olhos cintilantes e nos lábios aljofrados de sorrisos, erigia-lhe aquela fronte gentil, cingida nesse instante por uma auréola de júbilo. 

No altivo realce da cabeça e no enlevo das feições cuja formosura se toucava de lumes esplêndidos, estava-se debuxando a soberba expressão do triunfo, que exalta a mulher quando consegue realizar um desejo férvido e longamente ansiado. 

Os convidados, que antes lhe admiravam a graça peregrina, essa noite a achavam deslumbrante, e compreendiam que o amor tinha colorido com as tintas de sua palheta inimitável, a já tão feiticeira beleza, envolvendo-a de irresistível fascinação. 

- Como ela é feliz! Diziam os homens. 

- E tem razão! Acrescentavam as senhoras volvendo os olhos ao noivo. 

Também a fisionomia de Seixas se iluminava com o sorriso da felicidade. O orgulho de ser o escolhido daquela encantadora mulher ainda mais lhe ornava o aspecto já de si nobre e gentil. 

Efetivamente, no marido de Aurélia podia-se apreciar essa fina flor da suprema distinção, que não se anda assoalhando nos gesto pretensiosos e nos ademanes artísticos; mas reverte do íntimo com uma fragrância que a modéstia busca recatar, e não obstante exala-se dos seios d'alma. 

Depois da cerimônia começaram os parabéns que é de estilo dirigir aos noivos e a seus parentes. 

Só então reparou-se na presença de uma senhora de idade, que ali estava desde o princípio da noite. Era D. Camila, mãe de Seixas, que saíra de sua obscuridade para assistir ao casamento do seu Fernando, e sentindo-se deslocada no meio daquela sociedade, retirou-se com as filhas logo depois de concluído o ato. 

Para animar a reunião as moças improvisaram quadrilhas, no intervalo das quais um insigne pianista que fora mestre de Aurélia, executava os melhores trechos de óperas então em voga. 

Por volta das dez horas despediram-se as famílias convidadas. 

Encaminhou-se então Lemos com Seixas para aquela parte da casa onde ficavam os aposentos, que Aurélia destinara a seu marido, os quais estavam preparados com muito luxo, e sobretudo com uma novidade de muito gosto. 

- Meu amigo, o senhor está casado, pelo que já lhe dei meus parabéns! Falta-me porém cumprir um dever, que me cabe como tutor que fui de sua mulher, e a quem nesta noite ainda faço as vezes de pai. 

- Também eu esperava este momento para agradecer-lhe os cuidados e desvelos que dispensou a Aurélia, e assegurar-lhe minha sincera amizade. 

- Não fiz mais do que pagar uma dívida à minha boa irmã. Estimo esta pequena como se fosse minha filha; vi-a nascer. 

Tirando do bolso uma argola de chaves, o velho passou a abrir os diversos móveis de erable, que ia deixando às escâncaras. Enquanto expedia-se nessa tarefa, ia falando: 

- Vou ter a satisfação de o instalar em seus novos aposentos. Aqui está seu gabinete de trabalho; ali é o toucador; deste lado do jardim fica um quarto de banho, e uma saleta de fumar com entrada independente para receber seus amigos. Tudo isto é um brinco. 

- Bem reconheço a mão de Aurélia; estou sentindo em todos estes objetos o aroma que exala de sua beleza, disse Seixas inebriado de felicidade. 

- Foi ela, sim senhor, que se incumbiu disso; mas ainda não viu tudo. Olhe o enxoval. 

Lesmo mostrou então as gavetas e prateleiras dos guarda-roupas e cômodas atopetados das várias peças de vestuário, feito de superior fazenda e com maior apuro. Nada faltava do que pode desejar um homem habituado a todas a comodidades da moda. 

No toucador, se o tabuleiro de mármore ostentava toda a casta de perfumarias, as gavetas tinham cópias de jóias próprias de um cavalheiro elegante. Algumas havia de grande preço, como o anel de rubi, e uma abotoadura completa de brilhantes. 

- Tudo isto lhe pertence, disse o velho terminando o inventário. É coisa lá da pequena; não entrou em nosso ajuste. 

(continua...)

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