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#Comédias#Literatura Brasileira

O Que é o Casamento?

Por José de Alencar (1861)

Henrique — Há um ano é esta a primeira vez que nos achamos sós, Bela. O amor de Clarinha curou a minha loucura; e contudo evitei sempre essas ocasiões pelo respeito que lhe tenho. Hoje, porém, é necessário que lhe fale.

Isabel — Estou agora tão agoniada.

Henrique — Por isso mesmo!... Que adivinho o motivo. (Grave) Bela, o que se passou naquela noite... Na noite em que eu cometi a imprudência...

Isabel — Nada, Henrique, nada.

Henrique — Responda-me a verdade.

Isabel — Já lhe disse. Que idéia é essa?.

Henrique — Dá-me sua palavra de que nada se passou com seu marido? (Pausa) Não pode dá-la. Eu suspeito, eu sei tudo, Bela!

Isabel — É impossível! Quem lho diria?

Henrique — Então o segredo existe? Bem vê que não o pode ocultar.

Isabel — Cale-se, Henrique! Podem ouvir-nos! Senti empurrarem aquela porta!

Henrique — Foi engano seu; está fechada. Ontem, Bela, quando me supus traído por Clarinha, tinha uma arma na mão e meu primeiro movimento foi um crime! Meu tio quis chamar-me à razão e eu não o atendi. Enfim, impelido por uma recordação funesta, contou-me ele uma história; a história de um amigo que como eu se julgava desonrado, e como eu ia matar sua mulher, quando o grito de sua filha...

Isabel — Que tem esta história comigo, Henrique?

Henrique — Ele falava de si, Bela!

Isabel — Como!... Pode supor?...

Henrique — Duas vezes traiu-se; a palavra saiu-lhe sem querer. Disfarçou!... Mas ontem eu apenas o ouvia; a minha alma estava absorvida numa só idéia. Depois, esta noite, tudo o que ele me disse me voltou ao espírito, lembrei-me de sua emoção quando me falava... Inda há pouco as palavras lhe ouvi!... Não me resta a menor dúvida.

Isabel — De que, Henrique?

Henrique — Seu marido entrando naquela noite viu-me saltar pela janela. Não me conheceu e tomou-me por outro. Ambos iam morrer. Iaiá os salvou; mas desde então vivem como estranhos, vítimas de meu erro, condenados a um suplício horrível! Aquela febre repentina que nos fez temer por sua vida e que me privou de partir para Montevidéu foi conseqüência dessa emoção violenta! Diga-me! Não é essa a verdade?

Isabel — Não o compreendo, Henrique. Já observou a mínima desinteligência entre mim e meu marido? (Miranda bate na porta envidraçada, ouve-se a voz de IAIÁ) É Iaiá. (Quer abrir, Henrique a retém)

Henrique — Oh! Quantas circunstâncias que passaram desapercebidas, e das quais agora me recordo! Porém é escusado negar! Se não me refere o que se passou, Bela, juro-lhe que vou ter imediatamente com meu tio e confesso-lhe tudo. Dir-lhe-ei a verdade; que eu fui um louco; que tive a infâmia de conceber uma paixão insensata, à qual sua mulher repeliu sempre com indignação! Dir-lhe-ei que naquela noite, resolvido a abandonar tudo, e ir morrer longe daqui para me punir do meu crime, e não ofender, nem por pensamento sua honra e sua felicidade... Que naquela noite tive a audácia de voltar a sua casa e de surpreendê-la para dizer-lhe o último adeus!... Confessarei tudo... Ele não me perdoará, estou certo! Mas, conhecerá a alma nobre de que teve a desgraça de suspeitar!

Isabel — Pois bem. Já que não lhe posso arrancar essa convicção, é necessário que saiba o segredo que eu contava levar comigo. E tudo verdade, Henrique; Augusto me julga culpada. Viu-o naquela noite e tomou-o por outro homem.

Henrique — Quem?... Não me ocultes!

Isabel — 0 Sales!

Henrique — Ah! por isso ele ontem duvidou! E não lhe bastava uma palavra, Bela, para destruir uma suspeita?

Isabel — Essa palavra era o seu nome.

Henrique — Assim, por causa da afeição que ele me tinha, e de que eu era indigno, não lhe importou sacrificar a sua felicidade, a de sua filha e de seu marido!... Sim!

Porque meu tio quer-lhe mais, mil vezes mais do que a mim.

Isabel — Ele me despreza... E tem razão!

Henrique — Ele a ama, com paixão, como nunca a amou. Confessou-me ontem!

Isabel — Será possível, meu Deus! Oh! Não me engane, Henrique!

Henrique — Bela, é necessário que meu tio saiba tudo.

Isabel — Nem uma palavra! Foi uma fatalidade que passou sobre mim; já não há remédio neste mundo.

Henrique— Então, porque eu cometi uma imprudência fugindo pela vergonha de me achar em face de meu tio, sua mulher, um anjo de virtude, há de sofrer semelhante tortura?... E eu a causa dessa desgraça, cuida que consentirei nela? Nunca!

Isabel — Se conhecesse como eu o caráter de seu tio!... Quantas vezes não estive a ponto de cair aos pés de Augusto e confessar-lhe tudo!... Porque, deixe dizer-lhe, Henrique, depois que meu marido me despreza, é que eu senti toda, a força do amor que eu lhe tinha. Esse mesmo desprezo com que ele me esmagava vinha cheio de tanta nobreza, de tanta paixão, que o revelavam a meus olhos bem diferente daquele que eu via através da indiferença e do abandono. Nunca amei meu marido com tanto respeito e admiração, como nesse ano que se acaba de passar!... É verdade!... E quando ele estava possuído da idéia de que eu amava outro homem...

(continua...)

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