Por José de Alencar (1862)
— A quadrilha ainda se demora, bem sabes; mas queres me escapar!
— Que idéia!
— Queres escapar-te, sim. Cuidas que sou desses homens que perseguem os seus amigos de conselhos que nada lhes custam, porque nem sequer dão o exemplo; e com isso julgam-se quites de todos os deveres da amizade! Estás enganado, Paulo. Disse-te uma vez a minha opinião sobre as tuas relações com Lúcia; fiz o que me cumpria: o resto te pertence.
— Estava tão longe de pensar nisso agora! Como tens achado a partida? Há muito tempo não me divirto tanto!... Rostos encantadores, toilettes de gosto, excelente serviço; nada falta!
— Deixa estes elogios aos folhetinistas em cata de novidades. Compreendes que não te chamei para ouvir o teu juízo sobre a reunião do Sr. R...
— E para que me chamaste então?
— Para pedir-te um conselho.
— A mim?
— De que te admiras? Porque não os dou, segue-se que não posso pedi-los? Ao contrário!
— Vejamos que negócio importante é esse que exige o meu voto!
— Julgas que um amigo deva referir ao outro tudo o que se diz a seu respeito? Vamos, a tua opinião franca!
— Julgo que é o maior serviço que possa prestar a amizade.
— Bem. Ouve então o que dizem de ti.
— Para quê? Não dou peso à maledicência, Sá.
— Pode ser que tenhas razão; mas ouve primeiro; depois riremos juntos dessas parvoíces. Há aqui no Rio de Janeiro certa classe de gente que se ocupa mais com a vida dos outros, do que com a sua própria; e em parte dou-lhes razão; de que viveriam eles sem isso, quando têm a alma oca e vazia? Essa gente já sabe quem tu és, que fortuna tens, quanto ganhas, onde moras e como vives.
— É fácil saber; não tenho que ocultar, mercê de Deus.
— Estou convencido que poderias habitar a casa de vidro de Catão; mas infelizmente não a habitas; e portanto o mundo não vê justamente o que a tua modéstia esconde por detrás das paredes, isto é, o lado nobre e honroso da tua vida. O resto está patente.
— Mas ainda uma vez, Sá, o que pretendes com isso? Que me importa o que pensam a meu respeito? Não tenho reputação a perder.
— Mas tens reputação a ganhar. És amante de Lúcia, há um mês; e eu te conheço, sei que estás te sacrificando. Entretanto, como Lúcia não aparece mais no teatro, não roda no carro mais rico, e já não esmaga as outras com o seu luxo; como a Rua do Ouvidor não lhe envia diariamente o vestido de melhor gosto, a jóia mais custosa, e as últimas novidades da moda; sabes o que se pensa e o que se diz? Que estás sacrificando Lúcia... que estás vivendo à sua custa!
O primeiro ímpeto de minha indignação caiu sobre Sá, em quem se encarnava o insulto vago e anônimo; cometia um excesso, se o seu olhar franco e leal não me fizesse entrar em mim.
— Então! Não te ris dessa estúpida calúnia?... Tomas isto ao sério?
— Dize-me o nome de um só dos infames que se ocupam com a minha vida. O teu dever, já que assim o chamaste, o exige, e eu te peço!
— O nome?... É o mundo, a gente, a sociedade! Vai tomar-lhe satisfações.
— Mas tu ouviste de um homem?
— Que ouviu de outro e outro. Procura numa árvore a folha que gerou e nutriu a vespa que te morde?
Sá tinha razão. Senti a impotência do homem contra a calúnia impalpável que esvoaça e zune e ferroa como a vespa, e escapa nas asas à raiva e desespero da vítima É a fábula do leão e do mosquito. Mas o que então se passou em mim lhe parecerá incrível: a minha cólera precisava desabafar-se contra alguém, e na impossibilidade de dar um corpo àquela injúria atroz, levei a ingratidão até encarná-la em Lúcia, causa inocente do que sucedia.
Ela tinha razão quando temia que as nossas relações fossem conhecidas, e quando fazia tudo por escondê-las, como se escondem à sombra as flores delicadas que o vento fresco ou o sol ardente crestam e matam.
Saí bem decidido a pôr um termo à situação vergonhosa e humilhante em que me achava colocado. As palavras de Sá me queimavam os ouvidos. Eu vivendo à custa de Lúcia, eu que esbanjava a minha pequena fortuna por ela! Mas as calúnias tinham razão em um ponto; não exibia a minha amante como um traste de luxo, ou um manequim da moda; roubava o bem que lhes pertencia, visto que não era milionário para ter o direito de possuí-lo exclusivamente.
Não me dei ao trabalho de procurar o meu tílburi e parti a pé; precisava agitar-me.
Um vulto de mulher passou rapidamente. Ao voltar a esquina, encontrei-o parado. Chegou-se a mim e ergueu o véu. Reconheci Lúcia.
— Divertiu-se muito? perguntou-me com interesse.
— Oh, muito; nem fazes idéia!
— Eu vi! disse timidamente.
Não compreendi.
— O que viste?
— Vi-o dançar, passear na sala com as moças; acompanhei-o de longe toda a noite. Estava defronte, escondida por detrás das cortinas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Lucíola. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2047 . Acesso em: 21 jan. 2026.