Por José de Alencar (1864)
—É outra ilusão sua! O amor tem a crença ingênua da eternidade; quem o sente acredita sinceramente que ele não se extinguirá nunca. Eu não tive a felicidade de lhe inspirar essa fé sublime ; portanto que esperança posso ter? O melhor talvez fosse retirar-me, porque à força de querer violentar seu coração, Emília, talvez acabe odiando-me!...
—Odiando-o?... exclamou Emília assustada. Como lhe veio semelhante pensamento? —Não me disse já, uma vez? —Cale-se! atalhou ela com inexplicável pavor.
Emília ficou algum tempo muda e pálida, absorta na estranha emoção.
—Augusto!... disse-me ela afinal, e com terna melancolia. Não tem razão. Quem me fez acreditar no amor? Quem me deu a fé e a esperança nele?... Lembre-me! Antes de conhecê-lo, eu duvidava.
Essa palavra e um sorriso bastaram para serenar minha alma.
XIV
HAVIA grande reunião em Matacavalos.
Tinha visto Emília de relance. Ela sofria já a ebriedade das luzes, da música e dos perfumes, que a dominava sempre em pleno salão. Nesses momentos havia em toda a sua pessoa, na atitude e nos movimentos, anelos impetuosos. Parecia provocar as emoções.
Seus lábios aspiravam então com avidez o ambiente do baile.
Mas seu pudor suscetível não a abandonava nunca. Ela atravessava a multidão agitada, como a borboleta que enreda o vôo por entre as ramagens do rosal, sem ferir nos espinhos a ponta das asas sutis.
O que a protegia na confusão, não era tanto o rápido olhar, como um sétimo sentido, que só ela possuía: uma espécie de previsão dos objetos que se aproximavam.
Contudo, eu sofria muito vendo Emília assim esquecida de mim e engolfada nos prazeres que outros partilhavam. Essas horas do baile eram meu lento suplicio. Algumas vezes, bem como nessa noite, eu evocava debalde as recordações dos dias passados, debalde me acusava de egoísta; o ciúme afinal me vencia.
Foi já, quando o coração me desfalecia, que ela pela primeira vez veio onde eu estava.
Notei sua grande palidez. O seio arfava precipitadamente. A fadiga ou a emoção lhe havia umedecido a fronte. Seus olhos tinham um bilho vítreo que incomodava.
—O baile já a fatigou?... Muito depressa!... disse-lhe com o riso amargo.
—Quase não dancei!... Mas não sei o que sinto!... Não me acha muito pálida? —Há de ser o calor!... Esta sala é muito abafada! —O calor? Se eu tenho frio... frio n'alma!... É a febre que vem!... murmurou com um riso singular.
Nessa ocasião o Dr. Chaves aproximou-se para oferecer-lhe o braço.
Hás de te lembrar dele, Paulo. É um brilhante talento de orador, que se revelou de repente na câmara por alguns triunfos bem notáveis. Moço ainda, elegante, com uma fisionomia expressiva e o reflexo de suas glórias politicas, ele triunfava no salão, como na tribuna.
Antes de aceitar-lhe o braço, Emília me disse a meia voz, com um tom suplicante:
—Não fique tão longe de mim!... Eu lhe peço! Segui-a por algum tempo; mas quando a vi suspensa à palavra sedutora de seu par, embalando-se docemente à música das frases talvez apaixonadas que ele lhe dirigia, tive a coragem de arrancar-me a esse martírio. Refugiei-me no jardim.
Havia ali encostados à varanda, e nos intervalos das sacadas, uns bancos de pedra cobertos por dosséis de uma trepadeira qualquer.
Nos dias de baile, D. Matilde fazia iluminar essa arcaria de verdura, que dava à casa um aspecto campestre.
Fumava sentado num desses bancos. De repente ouço a voz de Emília. Ela se recostara à, janela próxima, e continuava com seu par uma conversa animada. A folhagem espessa me escondia aos olhos de ambos; porém eu os via perfeitamente no quadro iluminado da janela.
—Tudo isto, doutor, não é mais do que um desses bonitos discursos, de que o senhor tem o talento admirável...
—Então não me acredita? disse o Dr. Chaves.
—Não posso!... Em uma vida como a sua, tão cheia de glórias e ambições, o que resta para o amor?... As horas perdidas do baile!... Confesse!...
—Mas a senhora não sabe então, D. Emília, que estes curtos instantes em que a vejo, são os únicos que vivo? O resto, o tempo que sobra à minha tão rápida felicidade, trabalho com entusiasmo, é verdade! Mas por quê? Porque trabalhar, para mim, é amar ainda, e elevar-me do pó, a fim de poder erguer os olhos para o céu sem ofendê-lo! Eu não era ambicioso, não! Foi o amor que me deu esta sede de poder. Os meus mais belos triunfos, acredite-me, senhora, não os sinto quando os alcanço, mas quando venho depôlos submisso a seus pés. A minha glória é essa unicamente, fazer de quanto o mundo respeita e acata a humildade de meu amor!...
Emília escutava enlevada. As vezes o orgulho vibrava sua fronte nobre com um gesto divino. Oh! que tirânica beleza é a dessa mulher, que até mesmo quando eu a desprezo, me força a admirá-la! Quando a voz que a raptava emudeceu, ela ficou suspensa um instante. Depois fitou os olhos no Chaves.
—E se eu exigisse, o senhor teria a coragem de sacrificar tudo a um capricho meu? —Ordene! —Não tenho esse direito; respondeu sorrindo. Se o tivesse...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Diva. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1839 . Acesso em: 15 jan. 2026.