Por José de Alencar (1860)
Carolina – Não lhe disse uma vez!... No meio dessa existência louca não perdi de todo a minha alma. Uma afeição a salvou. Supliquei-lhe um dia que a aceitasse. Depois que a suportasse apenas! Recusou e eu lhe agradeço! Conservei puro e virgem esse amor!... Não me obrigue a fazer dele um dever.
Luís – Pois bem, Carolina, não quer aceitar de mim, aceite de sua mãe.
Carolina – De minha mãe?...
Luís – Não deseja vê-la?
Carolina – Queria pedir-lhe, mas não me animava.
Luís – Adivinhei o seu peso.
Carolina – E me perdoará ela, Luís?
Luís – Já perdoou.
Carolina – Ah!... (Recosta-se extenuada)
CENA XII
(Os mesmos e Helena)
Helena – Demorei-me, porque a botica é longe.
Carolina – Dá-me; tenho uma sede!
Helena – estás com febre! Não tomes em água fria. Vou fazer-lhe um chá. Sim?
Carolina – Como quiseres... A cabeça arde-me!...
Luís – Veja se consegue dormir um pouco.
Carolina – Antes acordada! Se durmo tenho sonhos horríveis! Vejo meu pai como naquela noite! Minha mãe que chora... Dê-me a sua mão, Luís... Deite-a sobre minha cabeça... assim... Talvez me tire este fogo... (Pausa) A vela apagou-se?
Luís – Incomoda-lhe a falta de luz?
Carolina – Tenho medo!... No escuro é que me aparecem as visões...
Luís – Espere um momento.
Carolina – Onde vai? Não me deixe!
Luís – Volto já; vou ver luz. Não quer?
Carolina – Sim!... Sim!...
Luís – Helena!
Helena – Chamou-me?
Luís – Levou a vela?
Helena – Para fazer o remédio.
Luís – Não tem outra?
Helena – Esqueci-me comprar. Mas a venda é aqui junto; vou num momento.
Luís – Deixe estar; irei eu mesmo. Faça o que ela lhe pediu.
Helena (à Carolina) – Não te agonies; já está quase pronto.
CENA XIII
(Carolina e Antônio)
Antônio – Ó de casa! Menina!... Deixaste a porta aberta? Ah! Ah! Ah!
Carolina – Quem anda aí?
Antônio – Sou eu. Onde estás?
Carolina – Mas quem é?
Antônio – Tu não me conheces, mas é o mesmo! Por que estás no escuro?
Carolina – Apagou-se a luz. Que me quer?
Antônio – Nada, menina. Vamos conversar!
Carolina – Deixe-me!... Helena!...
Antônio – Tens as mãos tão frias!...
Carolina – Estou doente!... Sinto arrepios!...
Antônio – Por que não tomas um golezinho? A aguardente aquece.
Carolina – A aguardente?
Antônio – Sim; é o melhor remédio.
Carolina – Dizem que faz aquecer... É verdade?
Antônio – Se é!... Queres?
Carolina – Oh! Se houvesse alguma coisa que me matasse esta sede!...
CENA XIV
(Os mesmos, Luís, Margarida, Araújo, Helena, Ribeiro e uma menina)
Antônio – Há de matar!... Mas por que não te curas?
Carolina – Não vale a pena curar-me!
Antônio – Por que, menina?
Carolina – Já sou um cadáver! Pouco me resta de vida!...
Antônio – São cantigas!...
Carolina – Luís... Luís...
Luís – É tua filha! Antônio!
Carolina – Meu pai!
Margarida – Antônio!...
Antônio – Quem és tu?
Margarida – Não conheces tua mulher?
Antônio – Ah!... Minha mulher e minha filha...
Luís – Cala-te!
Antônio – Não me toques!... (A Ribeiro) Também veio ver? Ria-se... ria-se... Não me roubou minha filha?... Eu queria roubar sua amante!... Ah!... Ah!... Ah!...
EPÍLOGO (Em casa de Luís. Sala simples, mas elegante)
CENA I
(Carolina e Margarida)
Carolina – Luís ainda não voltou, minha mãe?
Margarida – Não! Creio que anda muito ocupado.
Carolina – O que será?
Margarida – Não sei. Não lhe perguntei.
Carolina – Não consentiu que eu lá entrasse um instante.
Margarida – Para não interrompê-lo nos seus estudos.
Carolina – E todos os dias, enquanto ele trabalha, não vou arranjar-lhe os livros, endireitar-lhe os papéis e mudar as flores dos vasos?... Nem por isso o perturbo. Às vezes ele mesmo me chama, e conversamos tanto tempo!... Outras, apenas levanta a cabeça, me vê, sorri e continua a trabalhar.
Margarida – Talvez hoje precisasse estar só... Porém mudaste o teu vestido escuro?... Fizeste bem! Assim ficas mais alegre.
Carolina – Nunca mais poderei ter alegria, minha mãe!... Por meu gosto não mudaria! Mas Luís pediu-me que me vestisse de branco.
Margarida – Ah! Foi ele...
Carolina – De manhã quando nos vimos chegou-se a mim muito sério e disse-me que desejava pedir-me um favor. Cuidei que era outra coisa...Não tive ânimo de recusar-lhe.
Margarida – Já o habituaste a fazer-lhe todas as vontades!...E assim deve ser porque ele te estima como um verdadeiro irmão.
Carolina – Infelizmente não mereço essa estima.
Margarida – Não digas isto, Carolina!
Carolina – De que serve negá-lo? Não é a verdade?
Margarida – Não te importes com o que pensa o mundo; não é para ele que vives, e sim para a tua mãe, para aqueles que te amam. O teu mundo, o nosso, é esta casa...
Carolina – E nesta mesma casa não falta alguém?... O amor de minha mãe não me lembra que eu tenho um pai que não me quer ver, que foge de sua filha como de um objeto repulsivo?...
Margarida – Isto te faz sofrer e a mim também! Mas consola-te. Luís me prometeu que havia de trazê-lo...
Carolina – E poderá cumprir essa promessa?
Margarida – Tenho esperança.
Carolina – Há mais de um ano que esperamos!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.