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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

Deve existir urna corrente magnética entre os homens, um fluido que serve de veículo ao pensamento recôndito e ainda não divulgado. Não se explicam de outro modo certas revelações de um fato somente conhecido de poucas pessoas e por estas recatado. A emoção, que desperta esse fato n'alma de alguns, repercute n'alma de outros, e produz uma espécie de intuição.

Na casa de D. Clementina sabia-se já que Amélia fora pedida em casamento, embora se ignorasse o nome do pretendente, talvez por não ser conhecido das pessoas presentes. Sales Pereira, a mulher e a filha não tinham dito a menor palavra sobre o objeto da carta de Horácio; mas a impressão produzida por essa carta, a preocupação que deixara nas pessoas da família, as conversas íntimas e recatadas, não escaparam aos escravos.

Daí gerou-se o boato, que já tinha passado à casa de D. Clementina.

— Ah! chegou a Amélia Sales! Sabia que vai casar-se? Já foi pedida, disse uma senhora a Leopoldo.

— Não, senhora, não sabia, respondeu o moço com mágoa, mas sem perturbar-se.

— Com quem? perguntou outra moça.

— Com um moço bonito e rico. Disseram-me o nome, mas já não me lembro.

Nisso Amélia entrou na sala, onde foi muito festejada pelas amigas e conhecidas.

As alusões e gracejos a respeito do segredo incomodaram a moça, embora por outro lado lhe causassem certo desvanecimento.

Pelo meio da noite, Leopoldo aproximou-se de Amélia para lhe pedir uma contradança. Tinham dançado a primeira marca sem trocar palavra; afinal o mancebo rompeu o silêncio:

— É verdade que foi pedida em casamento?

Amélia empalideceu; quis disfarçar iludindo a pergunta, mas encontrou o olhar de Leopoldo, olhar tão doce e sincero, que não se animou a enganá-lo.

— É verdade, murmurou em voz quase imperceptível. Mas ainda não respondi.

— Estimo que seja muito feliz.

— Obrigada.

Amélia ficou surpresa; ela supunha que Leopoldo tinha-lhe ardente paixão, e que portanto sentiria profundo pesar, senão desespero, com a notícia de seu casamento. Em vez disso, o mancebo mostrava uma resignação serena.

Quando comecei a amá-la, D. Amélia, disse Leopoldo depois de alguns instantes, acreditei na felicidade, e esperei alcançá-la neste mundo. Minha alma pressentiu a aproximação da irmã que Deus lhe destinara e cuidou atraí-la e embebê-la em seu seio. Mas essa ilusão se desvaneceu logo. Soube qual era sua posição, e compreendi que a senhora não me podia pertencer. Resignei-me, pois, a amar unicamente sua alma; essa, ninguém me pode roubar, nem mesmo a senhora, porque Deus a fez para mim. Eu estava desde muito preparado para a notícia de seu casamento; ela não me surpreendeu, embora me entristecesse. Até agora adorei sua alma, como se adora a imagem da Virgem no templo; de agora em diante terei de adorar essa alma querida, como se adora uma santa no sepulcro.

Leopoldo falou por algum tempo ainda, e a moça, que a princípio se acanhara com a expansão viva desse amor tão puro, bebia as palavras ardentes do mancebo como fluido que derramava em sua alma suave calor.

Nessa noite, ao recolher-se, ia absorvida neste pensamento:

— Por que julgou ele impossível que eu o amasse? Sem dúvida não o amo; mas talvez... Se eu não conhecesse Horácio... Quem sabe?

Nisto lembrou-se que já se tinham passado dois dias depois do pedido, e portanto faltavam treze para a decisão.

— Se ele não vier antes disso? Se não vier... respondo que não. Está decidido.

CAPÍTULO  XII

Correram os dias sem que Horácio aparecesse em casa do Sales Pereira. Amélia, apesar de seu esforço, não podia conter a impaciência. Ela adivinhava que o leão estava despeitado com a resposta, e queria obrigá-la a conceder-lhe imediatamente o que pedira: a sua mão, e com a mão o pezinho que ele adorava.

Por vezes a moça foi até à porta do gabinete do pai, na intenção de dizer-lhe que escrevesse a Horácio enviando-lhe o consentimento; mas voltava envergonhada de sua fraqueza; enxugava alguma lágrimas que lhe saltavam dos olhos; e fazia novos protestos de não ceder.

Nestas ocasiões ela contemplava a imagem de Horácio com alguma severidade. Lembrava-se da volubilidade com que ele falava-lhe de seu amor; do sorriso sempre faceiro que tinha nos lábios e servia para vestir a palavra alegre ou triste, zombeteira ou comovida, e finalmente da insistência que mostrava em ver-lhe o pé.

Então acudia a Amélia uma circunstância que a princípio lhe escapara: fora sua recusa à impertinência do leão, que o obrigara a pedi-la em casamento no dia seguinte.

— Será apenas um capricho? Não me terá ele verdadeiro amor?... Se não me engano, o que ele ama em mim, não sou eu, mas uma mulher que imaginou; sirvolhe apenas de pretexto, como tantas outras antes de mim.

O resultado destas observações era protestar a moça que daria um não ao pedido de Horácio. Mas quando seu pai lhe perguntava sorrindo:

— Ainda não?

Ela corava, abanava a cabeça e fugia, dizendo consigo que ainda faltavam alguns dias para o prazo marcado.

(continua...)

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