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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

Para Pedro do Campo poder povoar esta capitania vendeu toda sua fazenda e ordenou à sua custa uma frota de navios, que fez prestes, na qual se embarcou com sua mulher, Inês Fernandes Pinto e filhos, e muitos moradores, casados, seus parentes e amigos, e outra muita gente, com a qual se partiu do porto de Viana. F com bom tempo foi demandar a terra do Brasil, e foi tomar porto no rio de Porto Seguro onde desembarcou com sua gente, e se fortificou no mesmo lugar, onde agora está a vila cabeça desta capitania, a qual em tempo de Pedro do Campo floresceu, e foi mui povoada de gente; o qual edificou, mais, a vila de Santa Cruz e a de Santo Amaro, de que já falamos; e em seu tempo se ordenaram alguns engenhos de açúcar, no que teve nos primeiros anos muito trabalho com a guerra que lhe fez o gentio tupini-quim, que vivia naquela terra, o qual lha fez tão cruel, que o teve cercado por muitas vezes, e posto em grande aperto, com o que lhe mataram muita gente; mas, como assentaram pazes, ficou o gentio quieto, e daí por diante ajudou aos moradores fazer suas roças e fazendas, a troco do resgate que por isso lhe davam. Por morte de Pedro do Campo ficou esta capitania mal governada com seu filho Fernão do Campo Tourinho, e após ele durou pouco, e se começou logo a desbaratar, a qual herdou uma filha de Pedro do Campo, que se chamou Leonor do Campo, que nunca casou.

Essa Leonor do Campo, com licença del-rei, vendeu esta capitania a d. João de Alencastro, primeiro duque de Aveiro, por cem mil-réis de juro, o qual a favoreceu muito com gente e capitão que a governasse, e com navios que ela todos os anos mandava, e com mercadorias; onde mandou fazer, à sua custa, engenho de açúcar, e provocou a outras pessoas de Lisboa a que fizessem outros engenhos, em cujo tempo os padres da companhia edificaram na vila de Porto Seguro um mosteiro, onde residem sempre dez ou doze religiosos, que governam ainda agora algumas aldeias de tupiniquins cristãos, que estão nesta capitania; na qual houve, em tempo do duque, sete ou oito engenhos de açúcar, onde se lavrava cada ano muito, que se trazia a este reino, e muito pau de tinta, de que na terra há muito. Nesta capitania se não deu nunca gado vacum por respeito de certa erva, que lhe faz câmaras, de que vem a morrer; mas dá-se à outra criação — de éguas, jumentos e cabras — muito bem; e de jumentos há tanta quantidade na terra, que andam bravos pelo mato em bandos, e fazem nojo às novidades; os quais ficaram no campo dos moradores, que desta capitania se passaram para as outras, fugindo dos aimorés, no qual tem feito tamanha destruição, que não tem já mais que um engenho que faça açúcar, por terem mortos todos os escravos dos outros e muitos portugueses, pelo que estão despovados e postos por terra, e a vila de Santo Amaro e a de Santa Cruz quase despovoadas de todo; e a vila de Porto Seguro está mais danificada e falta de moradores, na qual se dão as canas-de-açúcar muito bem; e muitas uvas, figos, romãs, e todas as frutas de espinho, onde a água de flor é finíssima, e se leva à Bahia, a vender por tal. Esta capitania parte com a dos Ilhéus pelo Rio Grande pouco mais ou menos; e pela outra parte com a do Espírito Santo, de Vasco Fernandes Coutinho, para onde imos caminhando.

C A P Í T U L O XXXVII

Em que se declara a terra e costa do Porto Seguro, até o rio das Caravelas.

Da vila de Porto Seguro à ponta Cururumbabo são oito léguas, cuja costa se corre norte-sul; essa ponta é baixa, e de areia, a qual aparece no cabo do arrecife e demora ao noroeste, e está em altura de dezessete graus e um quarto. Este arrecife é perigoso e corre afastado da terra légua e meia. Da ponta de Cururumbabo ao cabo das barreiras brancas são seis léguas, até onde corre este arrecife, que começa da ponta de Cururumbabo, porque até o cabo, destas barreiras brancas, se corre esta costa por aqui, afastado da terra légua e meia. Do cabo das barreiras brancas até ao rio das Caravelas são cinco ou seis léguas, no qual caminho há alguns baixos, que arrebentam em frol, de que se hão de guardar com boa vigia os que por aqui passarem. Defronte de Jucuru está um rodela de baixos, que não arrebentam, que é necessário que sejam bem vigiados; e corre-se a costa de Cururumbabo até o rio das Caravelas, norte-sul, o qual está em dezoito graus.

Tem este rio na boca uma ilha de uma légua, que lhe faz duas barras, a qual está povoada com fazendas, e criações de vacas, que se dão nela muito bem. Por este rio acima entram cara-velões da costa, mas tem na boca da barra muitas cabeças ruins, pelo qual entra a maré três ou quatro léguas, que se navegam com barcos.

(continua...)

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