Por Adolfo Caminha (1896)
O banqueiro, porém, havia-se destacado um pouco e marchava com D. Branca, sem se incomodar, no seu passo lento de garça real. Atrás vinham as outras pessoas. O secretário tinha absoluta confiança no visconde; até aborrecia-o dalgum modo a sisudez, a gravidade patriarcal do celibatário. A Branca ia muito bem na companhia dele, do Santa Quitéria.
Este, enquanto o bacharel discursava e vendo-se longe de ouvidos perigosos, abriu válvulas ao coração, baixinho e disfarçadamente.
— Creio que não a posso esquecer; acordo e deito-me pensando no nosso grande amor... Imagine se estivéssemos sós aqui. — Oh!...
Mas deixe estar que ainda havemos de ser muito felizes... muito felizes.
— Eu bem sei que me ama, bem sei, mas vi-o outro dia interessar-se tanto pela minha amiga Adelaide...
O capitalista sorriu benevolamente, como quem perdoa.
— Sua amiga Adelaide é uma criança... uma menina de ontem... e eu seria incapaz... Oh!... faça-me justiça...
— Eu não estou afirmando...
— Creia que não me preocupo com outra pessoa.
— E que tal a idéia do piquenique? Supus que não viesse...
O banqueiro guardava a atitude respeitosa e fidalga de quando se exibia nos salões. Ia responder, mas ouviu passos na areia. Voltou-se: eram as outras pessoas, o Raul, Evaristo, Adelaide e o secretário, que se aproximavam silenciosamente.
Foi longo o passeio através das árvores, em romaria bucólica e matinal pelas avenidas do jardim. O visconde colhia flores dedicadamente para as senhoras. D. Branca, mesmo na presença do marido, colocou uma na sua botoeira, sempre risonha, sempre afável, multiplicando-se em gentilezas ao Santa Quitéria. Adelaide, entre Evaristo e Furtado não perdia o ar ingênuo e melancólico que tanto preocupava ao Manhães na noite do batizado e que encantava o secretário. Este volvia constantemente os olhos para ela e de vez em quando arriscava um segredinho inofensivo, uma pilheriazinha, elogiando-a, gabando-lhe os olhos, a boca, fazendo alusões amorosas às flores, glorificando o amor livre dos pássaros, lembrando cenas de romances, episódios do campo... Furtado aproveitava os momentos em que o bacharel ia, com o Raul, fazer provisão de flores para enfeitar a mesa do lanche".
Os dois já não sabiam onde colocar flores; levavam grandes buquês feitos à pressa. O secretário achava muita graça naquela amizade do Raul ao Evaristo.
— Se meu marido é uma criança! — ralhava Adelaide.
— Uma criança de vinte e oito anos!... — dizia o secretário.
— Criança, porque não tem juízo, porque não se importa...
— Deixe-o lá, deixe-o lá... É gênio.
— Mas não fica bonito, não é sério.
De novo entravam todos na grande além de palmeiras e de novo chegaram ao caramanchão escolhido para o piquenique.
Ia para as onze horas. O sol inundava a floresta e nenhuma nuvem toldava a maciez límpida do céu. Todos respiraram ao entrar no improvisado restaurante coberto de folhas, rodeado de árvores e onde se gozava uma frescura deleitosa e aromada de selva.
— Uf! — respirou Evaristo sentando-se. — Já é andar. Olhem que demos a volta ao jardim!
— Outra dose de vermute - propôs o secretário.
— Apoiado, apoiado! - murmurou o visconde fazendo-se alegre.
As duas senhoras conversavam endireitando as toilettes, revistando-se uma à outra com risadinhas.
O Antônio pusera "a mesa"; uma toalha muito branca alvejava no pequeno recinto que a luz mal penetrava. Sobre a toalha brilhavam os talheres de metal branco e os copos de cristal muito finos, e as flores que o Raul colhera. Ao aspecto risonho da mesa as fisionomias tomaram uma expressão viva de conforto. — "Era tempo de se ir comendo qualquer coisinha..." — balbuciou Evaristo ao secretário. Este dispunha tudo na melhor ordem, falando ao Antônio, sorrindo ao banqueiro, uma atividade pasmosa de garçon d'hótel.
De dentro da caixa da confeitaria surgiu primeiro um prato com "vol-au-vents e logo seguiu-se o estampido de uma garrafa que se abre.
— Vamos, vamos — comandou Furtado. — Senhor visconde. D. Adelaide... Branca... Evaristo... Vão se sentando...
Riram-se todos à falta de cadeiras. Mas havia no caramanchão, longe da mesa, um banco de pedra, onde se sentaram as duas senhoras. Os homens comiam em pé.
— Aqui há ainda um lugar, senhor visconde - ousou amavelmente a esposa de Furtado conchegando-se à amiga.
— Não, não, minha senhora, obrigadíssimo; eu faço companhia aos do meu sexo...
— Isso, visconde, isso! — aprovou o bacharel. — Um homem é um homem!
Vieram outros pratos, outras iguarias delicadamente feitas no Pascoal, sob encomenda do secretário: uma esplêndida torta de camarões — regada a Sauterne — ostras e uma bela garoupa fria e apetitosa, não falando no hors-d'oeuvre no fiambre, nas azeitonas muito fresquinhas e muito negras que o visconde colhera com a ponta dos dedos, e as frutas ao dessert — pêssegos, uvas e abacaxi frappé.
O almoço correu alegre, muitíssimo alegre, cheio de risos, fermentado pelo
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.