Por Adolfo Caminha (1894)
Uma das coisas mais curiosas de Nova Iorque são os trens elevados (elevated railroad), a complicada rede de linhas férreas que rodeia a cidade passando em muitos pontos por cima da casaria, atravessando ruas inteiras sobre grandes colunas resistentes de ferro. Partem todas da Battrey Square, ponto mais meridional da ilha de Manhattan (onde fica a cidade) e vão terminar na sua extremidade setentrional, em Harlem River. Segundo o relatório apresentado pela New York Elevated, o número de viajantes transportados em 1878 por essa linha foi de 107.079.625. (Sempre a estatística como base fundamental do progresso entre os americanos!) A linha inteira, que tem seguramente trinta milhas, estava concluída até Harlem. Os moradores das margens dessas estradas de ferro aéreas queixavam-se continuamente da vizinhança.
Pudera! Ruído, fumo e fagulhas a toda hora sobre a cabeça, não são coisas que agradem a ninguém. A pobre gente fica em risco de perder o juízo, pois não!
Felizmente, o que aliás é muito admirável, os desastres reproduzem-se raríssimas vezes. É que o serviço faz-se com inexcedível perfeição e as posturas municipais verificam-se inexoravelmente.
As estações são numeradas, como as ruas: Primeira Estação, Segunda Estação, etc.
Os passageiros desembarcam em plataformas de ferro gradeadas, que comunicam com as estações.
O espírito inventivo dos americanos revela-se a cada passo nas grandes cidades dos Estados Unidos. Em todos os estabelecimentos, em todos os ramos da atividade pública se encontra uma aplicação nova de mecânica industrial, um artifício de utilidade prática, econômico e curioso, uma invenção engenhosa...
Aproveitar o tempo e economizar os dólares — tal é o princípio fundamental da sabedoria ianque.
Um domingo em Coney Island: nada mais pitoresco e hilariante, nada mais sugestivo.
Coney Island aos domingos é para os americanos o que o Bois é para os franceses e Hyde Park é para os ingleses — um interessantíssimo microcosmo de incrível bizarraria, cheio do vago rumor de uma multidão que passeia, que canta, que ri e que bebe ao ar livre, num pêle-mêle vertiginoso, com as suas toilettes claras, com o seu belo ar despretensioso, com os seus gestos largos de quem respira uma atmosfera leve e pura.
Essa pequena ilha constitui a principal diversão domingueira dos habitantes de Nova Iorque.
Famílias inteiras, burgueses de todas as castas, cocotes, afluem para ali nesses dias. Pela manhã, cedo, largam da Falton Station grandes barcas embandeiradas conduzindo músicas, cheias de passageiros. Muita gente prefere ir por terra, em trens que partem de Brooklin.
Não há lugar para todos nos hotéis. Improvisam-se piqueniques defronte do mar, na beira da praia, formam-se pagodeiras, e muitas pessoas há que não se lembram de comer — preferem a cerveja, o bock, a qualquer espécie de alimento sólido.
Vimos dois grandes hotéis — o Great Hotel e o Gigantic Elephant.
Aquele é um magnífico estabelecimento, todo construído de madeira de lei sobre enorme plataforma que se move em trilhos próprios. Novo gênero de hotéis até então desconhecido para nós. Num dado momento podem ser conduzidos, como qualquer tramway, dum lugar para outro.
O Gigantic Elephant (the monarch ol the architectural world, como lá dizem...) mede 175 pés ingleses de altura, é dividido em 31 compartimentos, ventilados por 63 janelas, e iluminado, à noite, por 25 focos de luz elétrica. Figura um elefante colossal, de madeira, em pé, no meio de um jardim. Em cima, no dorso do monstro, existe um terraço donde se descortina uma esplêndida paisagem rasa e calma.
Quer num, quer noutro, o promeneur encontra abundante variedade de petiscos e bebidas.
As crianças, com especialidade, fazem de Coney Island um céu aberto. Elas, sim, não perdem os cavalinhos que andam à roda ao som de um clássico realejo seboso, os passeios aéreos, na ponte-russa, nas barquinhas, nos trens elevados...
Por toda a parte música, realejos, pregoeiros de coisas maravilhosas, gritos, gargalhadas.
Tiram-se retratos instantâneos, apostam-se corridas, sobem-se elevadores de duzentos metros acima do solo, pesca-se, alugam-se cavalos de passeio... Enfim, Coney Island é uma miniatura da vida tumultuosa das grandes cidades.
O pobre-diabo que não for esperto e econômico arrisca-se a voltar com as algibeiras cheias de vento...
À noite enchem-se novamente os trens e as barcas. Em uns e outros a algazarra torna-se insuportável. Canta-se a Marselhesa em vozes detestáveis, gritase, bate-se com a ponteira da bengala no chão, assovia-se, imitam-se animais de toda a espécie... Uma loucura!
Entretanto, abençoado país! em todas essas pagoderias não se distingue sequer um boné policial. Não há conflitos, nem desastres.
Tudo corre na maior harmonia, sem intervenção da guarda cívica. Os policemen podem cochilar à vontade: a população americana é naturalmente pacata e respeitadora da ordem.
Coney Island é o complemento necessário e indispensável de Nova Iorque.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. No país dos ianques. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=20929 . Acesso em: 27 mar. 2026.