Por Adolfo Caminha (1895)
Enchia-se ódio contra os superiores: — Uma cáfila! Todos a mesma cousa; faziam do pobre marinheiro um burro... Ninguém os entendia. — Revoltava-se principalmente contra o Quartel-General que o mandara passar da corveta para o couraçado. Não lhe custava nada ir ao ministro, contar uma história muito grande e pedir, inda que fosse de joelhos, outro embarque. Se duvidasse muito, baixava ao hospital, desertava, ia-se embora pelo mundo com o pequeno. Estavam enganadinhos! Bom-Crioulo tinha sangue nas guelras e era homem para viver só num deserto...: “—... que os pariu!...”
Logo no primeiro dia teve o desgosto de ficar à bordo: seu nome fora recomendado ao imediato em bilhete especial: —“Muita cautela com o Amaro (BomCrioulo). É uma praça irrepreensível quando não bebe, mas em chupando seu copito, guarda debaixo! faz um salseiro dos diabos”. Houve logo prevenção entre os oficiais.
— Era bom não o deixar ir à terra muitas vezes. Um homem daquele até metia medo!
E ficou assentado que ele só teria licença um vez por mês. Passou o primeiro dia, o segundo, o terceiro. O quarto era um sábado.
— Seu imediato, eu precisava ir à terra, implorou o negro perfilado, a mão em pala no boné.
— Ainda não, resmungou o oficial, sem prestar-lhe atenção. Quando chegar sua vez eu direi.
— Mas seu imediato...
— Já lhe disse, não me amole!
Bom-Crioulo retirou-se calado, o olhar no convés, mordiscando o beiço. Ia cheio de uma cólera muda. jurando vingança talvez... — Ah! era assim? calculava ele depois, na proa. Havia de mostrar...
E no dia seguinte pela manhã ofereceu-se ao guardião para remar no escaler que ia às compras. Embarcou, sem dar à perceber cálculo algum, e lá foi remando na voga, o boné carregado pra frente, muito sério, teso na sua bancada.
O domingo amanhecia esplêndido e preguiçoso numa soberba ostentação de azul, fresco e transparente. As montanhas da baía, o Pão d’Açúcar, os Órgãos, e, lá longe, o Corcovado, sem um floco de nuvem no topo, desenhava-se na eternal limpidez do ar calmo, davam à vista uma doce impressão de aquarela.
Bela manhã para um bródio sobre a água. O vulto de um paquete alemão ia saindo barra fora, impassível e misterioso... O mastro do Castelo fazia sinais. Os navios de guerra pareciam dormitar ainda silencioso e imóveis. Era quase dia...
— Leva! manobrou o patrão do escaler. Tinham chegado ao cais. Os marinheiros, todos a um tempo, suspenderam os remos, arriando-os logo, com um movimento igual, dentro da embarcação.
Daí ao mercado era perto. Começaram a atracar os escaleres doutros navios. Pouco a pouco ia clareando... A praça, entretanto, permanecia quase deserta ainda; um ou outro galego, homem de ganho, vagava em torno dos quiosques.
Bom-Crioulo desembarcou, a pretexto de “fazer uma necessidade”, prometendo voltar logo.
— Era um pulo...
Enfiou pelo jardim que decorava o largo, e, uma vez fora da vista dos companheiros, estugou o passo em direção à Rua da Misericórdia, resmungando insultos que ninguém ouvia. A porta do sobradinho estava fechada. Bateu. D. Carolina ressonava. Tornou a bater, impaciente, dando fortes punhadas na porta.
O caixeiro da padaria defronte, veio espiar quem é que batia com todo aquele desespero.
— Quem havia de ser? Um negro!...
Afinal vieram abrir: um senhor de longas barbas, obeso, em suspensórios, com cara de réu, e que se afastou para deixar passar o marinheiro.
— Bom dia!
— Bom dia! correspondeu o barbaças.
— Quem é? perguntou lá de cima a voz abafada da portuguesa.
— Sou eu, D. Carolina; desculpe a maçada.
— Ah! é o Bom-Crioulo? Que maçada o quê! Por aqui tão cedo? Ninguém o vê mais!... A chave está no prego!... — Obrigado...
E com pouco Bom-Crioulo escancarava a janelinha do quarto, recebendo em cheio, no rosto, a frescura matinal: — Agora queria ver se o arrancavam dali. Uma ova! Estava em sua casa, muito bem escondido. Não era nenhum burro de carga!...
Veio-lhe à mente o grumete: — Aleixo ainda se lembraria dele? Sim, porque neste mundo a gente vive enganada... Quanto mais se estima uma pessoa, mais essa pessoa trata com desprezo. E afinal, ele, Bom-Crioulo , não caíra do céu...
Abriu as gavetinhas da mesa, revistou móveis, remexeu papéis, como quem procura um objeto, examinou a cama, farejando, tateando... O vidro de óleo não estava na cantoneira e tinha sofrido uma limpa; a garrafa d’água Florida, que ele deixara pelo gargalo, quando muito podia ter seis dedos...; a latinha de graxa imobilizava-se no chão, de borco, ao pé do lavatório de ferro; o assoalho era uma imundície de pontas de cigarro e cuspo.
— Eu faço idéia! ... murmurou Bom-Crioulo interpretando aquela desordem habitual. Eu faço idéia!...
Nesse instante o carrilhão de S. José começou a bimbalhar os “Sinos de Corneville”, enchendo o espaço de uma alacridade sonora e festiva que multiplicavase em notas de uma limpidez offenbachiana, como se fosse um maravilhoso instrumento de cristal suspenso nos ares... Instintivamente o marinheiro cantarolou o velho trecho da opereta:
Dlingo, dlingo, dlingo,
Dlingo, dlingo, dlão!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.