Por Adolfo Caminha (1893)
S. Exª. tomou assento entre o professor e o diretor. José Pereira e o Zuza sentaram-se nas extremidades da mesa.
As alunas tinham-se formalizado, muito respeitosas, imóveis quase, de livro aberto, com medo à chamada. Houve um silêncio.
— Pode continuar, disse o presidente para o Berredo. E este, inalterável:
— V. Exª. não deseja argumentar?...
— Não, não. Obrigado... — Neste caso...
E para as discípulas:
— Diga-me a Sra. D. Sofia de Oliveira, quantos são os pólos da terra? Veja como responde, é uma pequena recordação. Não se acanhe. Quantos são os pólos da Terra?
O Berredo lembrou-se de fazer uma ligeira recapitulação para dar idéia do adiantamento de suas alunas.
Sofia de Oliveira era uma pequerrucha de olhos acesos, morena, verdadeiro tipo de cearense: queixo fino, em ângulo agudo, fronte estreita, olhos negros e inteligentes.
— Quantos são os pólos da Terra? fez ela olhando para o teto como procurando a resposta, embatucada. — Os pólos?... Os pólos são quatro.
Risos.
— Quatro? Pelo amor de Deus! Tenha a bondade de nomeá-los. — Norte, sul, leste e oeste.
Nova hilaridade.
— Está acanhada, desculpou o Berredo voltando-se para o presidente. Até é uma das minhas melhores alunas. — Não confunda, tornou para a normalista. Olhe que são pólos e não pontos cardeais...
Outro disparate:
— Há uma infinidade de pólos...
— Ora!... Adiante, D. Maria do Carmo.
Maria estremeceu, embatucando também, sem dizer palavra, sufocada. A presença do Zuza anestesiava-a, incomodava-lhe atrozmente. Sob a pressão do olhar magnético do estudante, que a fixava, sua fisionomia transformou-se.
— Então, D. Maria?... Também está acanhada? — Passe adiante, pediu o Zuza compadecido.
Duas lágrimas rorejaram nas faces da normalista caindo com um sonzinho seco sobre a carteira. Estava numa de suas crises nervosas. Outras duas lágrimas acompanharam as primeiras, vieram outras, outras, e Maria, cobrindo o rosto com o seu lencinho de rendas, desatou a chorar escandalosamente.
— Sente-se incomodada? tornou o Berredo. D. Maria! Olhe... Tenha a bondade de levantar a cabeça...
— Está nervosa, disse o presidente com o seu belo ar de cético elegante. — Pudores de donzela, murmurou o diretor. Isto acontece...
O Berredo passou a mão no bigode, desapontado, e encontrando o olhar faiscante de Lídia:
— A senhora... Quantos são os pólos da Terra?
— Dois: o pólo norte e o pólo sul.
— Perfeitissimamente! confirmou o professor batendo com o pé no estrado e esfregando as mãos satisfeito. — Dois, minhas senhoras, disse mostrando dois dedos abertos, em ângulos; dois! O pólo norte, que é o extremo norte da linha imaginária que passa pelo centro da Terra, e o pólo sul, isto é, a outra extremidade diametralmente oposta; eis aqui está! Está ouvindo, D. Sofia? Está ouvindo D. Maria do Carmo? São dois os pólos da Terra!
— Estou satisfeito, disse o presidente erguendo-se.
Arrastar de cadeiras e pés, zunzum de vozes, e S. Exª. grave, correto e calmo, retirou-se com o seu estado-maior.
O Zuza ferrou em Maria do Carmo um olhar tão demorado e comovido que chegava a meter pena. Os seus óculos de ouro, muito límpidos e translúcidos, tinham um brilho de cristal puro. Trazia na botoeira do redingote claro (o Zuza gostava de roupas claras) uma flor microscópica. Alguém murmurou ao vê-lo passar:
— Sempre correto!
Maria deixou-se ficar sucumbida, de cabeça baixa, mordiscando a ponta do lenço, com uma lágrima retardada a tremeluzir-lhe na asa do nariz, desesperada, revoltada contra si mesma que não soubera responder uma coisa tão simples... Que vergonha, que humilhação! pensava.
Não saber quantos pólos tem a Terra! E quem havia de responder? A Lídia, logo a Lídia! O Zuza agora ficaria fazendo um juízo muito triste a seu respeito e não a procuraria mais... Ah! era muito tola, decididamente! E jurava consigo “não ter mais vergonha de homem algum”.
Pediu licença ao professor e retirou-se antes de findar-se a aula para evitar os gracejos das colegas, voltando à casa sem a Lídia, sozinha, acaçapada, inconsolável.
Uma vez no seu discreto quartinho, bateu a porta com força, despiu-se às carreiras, desabotoando os colchetes com espalhafato, aos empuxões, impaciente, até ficar em camisa, e atirou-se à rede soltando um grande suspiro. Esteve muito tempo a pensar no acadêmico, na “figura triste” que fizera na aula, em mil outras coisas por associação de idéias, com o olhar, sem ver, numa velha oleografia do “Cristo abrindo e mostrando o coração à humanidade”, que estava na parede.
Era uma desgraçada, suspirava tomada de desânimo. Todas tinham seus namorados, viviam felizes, com o futuro mais ou menos garantido, amando, gozando; todas tinham seu dia de felicidade, e ela?
Era como uma gata borralheira, sem pai nem mãe, obrigada a suportar os desaforos de um padrinho muito grosseiro que até a proibia de casar. Nem amigas tinha. A Lídia, essa parecia-lhe uma desleal, fingida, hipócrita; não viram como ela tinha dado o quinau na aula? Uma ingrata... Sim, está visto que havia de ter um fim muito triste...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.