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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

O espertalhão do padrezinho, pensava Fidêncio com uma admiração involuntária, soubera tornar-se o objeto exclusivo da atenção e curiosidade de toda a população de Silves e dos arredores. A fama chegara a Serpa, fora a Maués, voltara pelo Amazonas acima até à cidade de Manaus. Nunca naquela redondeza se vira um vigário assim tão compenetrado dos seus deveres, tão sério, afável e pontual. Diante dele os homens modificavam a sua linguagem habitual, falavam em coisas sérias, em pontos de doutrina cristã, cheios de respeito. O ardor maçônico esmorecia, apesar dos esforços em contrário tentados por Francisco Fidêncio Nunes. As qualidades morais que o pároco afetava provocaram uma reação favorável no espírito daquele povo indiferente em matéria religiosa. O professor Aníbal Americano Selvagem Brasileiro, concertando os óculos de tartaruga e cuspindo longe, falara em fundar um jornal que defendesse os interesses da Igreja e doutrinasse os tapuios dos sítios do Urubus e adjacências. Devia chamar-se a Aurora cristã e publicar-se de quinze em quinze dias, com dois mil-réis de assinatura trimensal. A dificuldade estava em arranjar a tipografia, custava um dinheirão, era preciso abrir uma subscrição popular, ninguém que se sentisse com crenças religiosas seria capaz de negar o seu óbolo, e podiam pedir o auxílio da Caixa Pia e da Câmara Municipal, concorrendo esta com cinqüenta mil-réis por ano para a publicação das atas. O João Carlos lembrara, por economia, o jornal manuscrito, mas o professor Aníbal repelira energicamente a idéia como atrasada e trabalhosa. Queria ler-se em letra de forma! Afinal quando se fizera a subscrição para a compra da tipografia dificilmente arranjaram-se quarenta mil-réis. O vigário, consultado, desanimou o Aníbal, mostrando-se infenso ao projeto, já pela falta de competência dele vigário para dirigir uma imprensa católica, já porque não queria alimentar ódios e dissensões na sua paróquia. Aníbal Brasileiro retirara-se enfiado. Deixara de ir à missa e viera dizer ao Chico Fidêncio que a lembrança que tivera não passara duma pilhéria, dum meio de experimentar o ardor religioso daqueles beócios que andavam todos os dias a falar em catolicismo. Mas Fidêncio bem o conhecia, para cá vinha de carrinho o tal Sr. Aníbal!

Este último ato de padre Antônio de Morais agradara muito ao Chico Fidêncio. Padre Antônio mostrava ser homem de juizo.

O malogro da tentativa do professor Aníbal não destruíra os resultados das palavras e ações do novo vigário de Silves. A missa de todas as manhãs era bastante concorrida, à ladainha da noite ninguém faltava, o Nosso-pai nunca saía sem numeroso acompanhamento. As crianças corriam a instruir-se na doutrina do catecismo do bispado, as devotas confessavam-se, os casamentos amiudavam-se, fazendo diminuir as mancebias... Tudo se encaminhava para a reforma que padre Antônio pretendia fazer para glória de Deus e desempenho do honroso encargo que lhe fora confiado por S. Ex.a Rev.ma.

Em tais condições, com um padre como aquele, que se dava ao luxo de ser impecável, que faria, que escreveria Fidêncio, como comporia o seu belo folheto de cento e vinte páginas, com capa verde e frontispício pomposo? Um mês era decorrido, um longo mês de observação, de análise, de estudo, e os seus ataques contra o padreco catita e apelintrado não tinham ainda podido ir além da batina nova, do penteado, dos punhos engomados e dos olhos baixos de padre Antônio de Morais. Era pouco para um folheto de cento e vinte páginas!

Um relógio da vizinhança bateu duas pancadas argentinas. Francisco Fidêncio arremessou contra a parede o folheto que não lia e que esparralhou pelo chão as folhas soltas.

A chuva cessara, mas o ar estava ainda muito carregado de vapores aquosos. Uma réstia de sol, muito tênue, penetrava, avivando num ponto o encarnado da opa do Santíssimo. As tamanquinhas da Maria Miquelina faziam-se ouvir no corredor.

— Quando vuncê quisé jantar, seu Chico, a janta está quase pronta.

— Maria Miquelina, disse Fidêncio, muito sério. O tal padrezinho ou é um santo ou um refinadíssimo hipócrita.

A caseira contestou:

— Ara, seu Chico...

— Pelo sim, pelo não, exclamou Fidêncio erguendo-se, numa resolução assentada. Pelo sim, pelo não, vou passar-lhe uma descalçadeira.

CAPÍTULO IV

Urubus, todo vestido de preto, como o Neves, mas de roupa menos fina e mais velha.

O noivo era um rapaz esperto, direito, bem apessoado, largo peito coberto pela farda de botões dourados, mão grande e calosa, empunhando os copos da bonita espada prateada. Muito moço, vinte e dois anos, quando muito, e já era tenente da guarda nacional. Há dessas felicidades inexplicáveis! pensava Macário, olhando, como toda a gente, para o brilhante Cazuza Bernardino...

Uns passos ouviram-se de leve na sacristia. Era o vigário silencioso e triste na sua batina negra.

— Está tudo pronto? perguntou S. Rev.ma. E com a resposta afirmativa do Macário, encaminhou-se para o fundo da sacristia e começou a vestir a alva.

(continua...)

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