Por Domingos Olímpio (1903)
— Vi, mas foi você, de queixos cerrados e olhos esbugalhados, sem responder às minhas perguntas... Que rapariga medrosa!... Credo!... Nem que lhe houvesse aparecido alguma visagem!...
— Pois vi mesmo... Estou bem certa... Dê-me uma pinga d'água... que tenho uma coisa... aqui... na boca do estômago. Um entalo...
— Tome um golinho deste copo...
— Deste, não!... – atalhou vivamente Teresinha, com um gesto de repugnância – Não quero, está enfeitiçada... Ai... que tenho as pernas bambas, sem ossos...
— É o que eu digo. Tudo isso é medo... Bem se vê que você nunca assistiu a respônsio. Daí, bem pode ser que o glorioso Senhor Santo Antônio tivesse feito o milagre...
— Fez... fez... Eu vi tudo, muita coisa; mas não lembro bem... Espere... Era uma porção de gente maluca; era... Oh! tenho a cabeça a andar à roda e besoiros nos ouvidos...
Rosa Veado apagou as velas, guardou-as com o santo e conduziu Teresinha, que mal podia caminhar, vacilante, trêmula, para fora do quarto. À impressão violenta da claridade e do ar livre, ela esfregou, de novo, os olhos, e espreguiçou-se fatigada, em contorções felinas...
— Quando estiver com o juízo assentado – ponderou a feiticeira - há de recordar tudo... Agora é esperar com fé, e verá como a coisa se descobre, quando menos pensar. Quando pilhar uma ocasião, farei a adivinhação da urupema, que nunca falhou... Deixe por minha conta... Já sei que, nessa história, anda metida alguma mulher...
Confusa, envergonhada, todos os seus membros desmantelados, Teresinha partiu perseguida pelos olhares matreiros do mulherio da vizinhança, mal podendo arrastar as pernas trôpegas e doloridas, com as articulações a estalarem de perras e as virilhas traspassadas por alfinetadas pungentes.
Quando se viu longe da casa da Rosa, murmurou, irada e suspeitosa:
Aquela bruxa me botou quebranto...
CAPÍTULO Xi
Contra a expectativa de Luzia, Teresinha regressou desanimada e lânguida, sem a natural vivacidade e rapidez de movimentos, que lhe assinalavam a índole instável, a indiferença, quase inconsciente, da torpeza a que a fatalidade a arrastara. Tinha amortecidos e sombrios os olhos faceiros, e a comissura dos lábios, sempre arqueada pelo hábito do sorriso desdenhoso e irônico, se dilatava, desgraciosa, em torvo traço de sofrimento.
— Então?... – inquiriu Luzia, com ânsia.
— Quase morro... – respondeu ela, comprimindo os quadris magoados – Nunca mais... me meto em outra... Credo!... Quem de uma escapa...
— Que houve?... Que te aconteceu?...
— Um horror!...
— E o respônsio?...
— A Rosa rezou...
— O ladrão não é Alexandre...
— Não sei...
— Fala, mulher, pelo amor de Deus. É preciso que a gente esteja a te espremer...
— Ainda tenho a cabeça meia atordoada e as pernas lassas... Sinto ainda uma dor aqui nas cadeiras...
Teresinha gemia as palavras e contorcia-se em requebros lascivos e dolentes. Depois, fixando, com esforço, as idéias, que lhe giravam dispersas no cérebro, como reminiscências de fatos remotos, fez a narrativa dos episódios da bruxaria, com minúcias exageradas, tocadas do forte colorido de fetichismo e alucinação.
— Quando vi, minha negra, as horrendas figuras crescerem dançarem como demônios do inferno, são os ladrões – disse comigo – mas não lhes pude divisar bem as feições, tantas e tão feias era as caretas que me faziam. Parecia um bando de papangus.
— E não os reconheceu?...
— Qual!... Aquilo foi, por força, arte do cão... Que horror!.. Disse-me a Rosa que esperasse com fé... Vamos ver...
— Descansa... É possível que, depois de assentares o juízo, te lembres melhor...
— Ninguém me tira da cabeça que aquela esconjurada, meu Deus perdoaime, botou-me coisa ruim no corpo...
— Não pensa nisso, criatura... Você está nervosa.
— Isto é doença de moça rica...
— Doença não quer saber de branco nem de preto, não respeita fortuna nem pobreza... Venha cá – acrescentou, empolgante, com o olhar áspero e desconfiado – Você viu alguma coisa, mas não que ser franca...
Teresinha fez com a cabeça um gesto negativo, e sentou-se acabrunhada. Luzia continuava a contemplá-la ansiosa. Seus olhos reluzentes de aflição, exprimiam a esperança no milagre e a revelação anelada para restaurar a honra de Alexandre, e restituí-lo à liberdade...
Quanto tempo teria ainda de esperar? Quantos dias e quantas noites seria ainda o mísero obrigado a passar entre aquelas quatro paredes infectas?... E se não fosse possível salvá-lo; se a justiça descobrisse provas contra ele; se, na verdade, fosse o culpado de tão feio crime?!...
Tais dúvidas empanavam, como nuvens fugaces, o atribulado espírito de Luzia.
Alexandre teria energia para suportar a prisão, o vilipêndio da pena infamante; ela, porém, não se podia conformar com a idéia de reconhecê-lo criminoso, acusado de ladrão e maculado para sempre. Preferiria vê-lo morto, estirado no chão, fulminado por um corisco.
— Ninguém me tira da cabeça – acentuou Teresinha, emergindo da prostração que a subjugara – que aquilo é obra de soldado...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.