Por Aluísio Azevedo (1880)
— É o misterioso habitante da choupana, calculou o professor, e não se enganara.
Este homem, digamo-lo de passagem, era um antigo pescador, conhecido em Lipari pelo cognome de — Sombra da Noite. Tinham-no por milagreiro e na ilha atribuíam-lhe toda a casta de feitiçarias e malefícios, que soe imaginar a ignorância do povo. Em bom tempo fora companheiro de trabalho e amigo de Maffei, a quem, por amizade e talvez mais acertadamente por interesse, arranjara os meios de transportar-se em segredo para Nápoles, na mesma noite do incêndio da casinha branca. Esta boa ação rendeu-lhe em recompensa o direito de ocupar enquanto vivesse o terreno de Maffei em Lipari e tirar dele, como das oliveiras, o partido que bem lhe aprouvesse.
Rosalina, se bem que por esse tempo tomasse Miguel por morto, levava o coração ainda morno do amor de seu companheiro de infância; como uma parede que durante o dia recebesse o sol forte e abrasador, e à noite, apesar da ausência daquele, conserva uma certa dose de calor, que pouco a pouco vai morrendo, assim se esqueceu, ela de que podia arriscar o pai e para logo encarregou Sombra da Noite de se instruir sobre o resultado de um cadáver que necessariamente havia de ter aparecido na costa pelo dia seguinte à sua viagem.
Sombra da Noite não se deslembrou da incumbência, porém o cadáver não apareceu. No fim de um ano de pesquisas, foi a Nápoles e tagarelou um pouco com a mãe Ângela; de volta à ilha o pescador, ligando o sentido das palavras desta com o da recomendação de Rosalina, concluiu por descobrir que se tratava do cadáver de Miguel, a quem conhecera vagamente.
— Disto me pode vir algum resultado vantajoso, dizia ele consigo e procurava um meio de falar a Miguel; a ocasião porém não se oferecia. Vendo-o agora, Sombra da Noite sentiu um estremecimento e tratou de aproveitar o lance. — Nada de precipitações, com os diabos! E parece que bispo enfim o meu cadáver.
Pensando assim, Sombra da Noite aproximava-se silenciosamente do grupo, que o observava também em silêncio. Chegou às ruínas, trepou-se com agilidade de moços pelos barrancos e, equilibrando-se, alcançou finalmente a extremidade oposta, onde estava Miguel, a fitá-lo com suma curiosidade.
Sombra da Noite abeirou-se dele e cortejou-o, descobrindo-se humildemente.
Era o tipo perfeito de lazarone - macilento e esfarrapado, sujo e feio, falando um dialeto extravagante; grande chapéu de abas largas sobre a nuca e cachimbo queimado no canto da boca.
Os pequenos estavam horrorizados.
— Boa noite, disse Miguel.
— deus Nosso Senhor lhes dê a mesma, meu senhor e meus ricos meninos, respondeu Sombra da Noite, mastigando compassadamente estas palavras e estendendo a mão para acariciar a menor das crianças.
Jeovanito fugiu com a cabeça, olhando de esguelha e procurou refugiar-se nas pernas do mestre.
— Então? disse este. Fala, Jeovanito! não vês que te fazem festa?...
Boa noite, meu velho, disse Jeovanito mais tranqüilo.
— Este é seu filhinho? perguntou o pescador, passando a mão grosseira pela cabeça loura do pequenito.
— Não senhor. São todos meus discípulos.
— Ah! estão de passeio?
— É verdade, disse Miguel, e levantou-se, segurando as mãos das duas crianças menores. — Íamos já, quando o senhor chegou.
— É pena, com os diabos! disse Sombra da Noite, porque eu desejava falarlhe sobre alguém que morou neste lugar.
Miguel sentiu-se fulminado - era a primeira vez, desde que se separara de Rosalina, que alguém lhe falava nela, e voltando rapidamente para o pescador:
— De Rosalina?! Oh! diga, diga depressa! Como estão eles? São felizes? Ricos?
— Riquíssimos e muito felizes, digo-lhe mais - em breve serão nobres!...
— Nobres?!...
— Pois então!? A excelentíssima senhora dona Rosalina vai casar-se com um fidalgo de muito boa linhagem e de muito bom dinheiro!
— O senhor está gracejando! Não pode ser! Disse Miguel fingindo tranqüilidade.
— Gracejando? berrou o homem. Pela Madona o juro eu! e beijou a palma da mão.
Miguel sentia-se horrivelmente oprimido — tinha vontade de continuar o interrogatório, mas ao mesmo tempo temia ouvir alguma verdade inédita que o esmagasse de todo; temia uma explosão de dor; atacara-lhe logo uma sensação nervosa e frenética; latejavam-lhe as frontes, como contundidas por este dilema de ferro — calar-se, nada ouvir sobre Rosalina e sofrer — ou ouvir muito, saber tudo e sofrer mais. O coração saltava-lhe dentro como uma rã no charco; acometiam-lhe desejos extravagantes e inexplicáveis. Sentia-se com o apetite de ser um homem mau, desregado e inútil; tinha como um prazer de ouvir dizer mal de Rosalina e ao mesmo tempo ardia por esbofetear aquela sombra impertinente que tinha defronte de si, o pescador; porém, aquele homem era o primeiro que, no seu exílio, lhe falara sobre Rosalina; então, tinha vontade de abraçá-lo.
Estava triste, mas estava alegre; desejava cantar, mas soluçando; desejava abraçar Sombra da Noite, mas estrangulando-o.
Temos, às vezes, dessa contradições no nosso espírito, que, expostas assim, parecem disparatadas e absurdas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.