Por Aluísio Azevedo (1881)
O Freitas era um homem desquitado da mulher “que se atirara aos cães”, explicava friamente, muito teso, magro, alto, com o pescocinho comprido no seu grande colarinho em pé. Não relaxava as calças brancas, e gabava do segredo de conservá-las limpas e engomadas durante uma semana; trazia sempre, apesar do calor da província, o colarinho duro e o peito da camisa irrepreensível; gravata preta - invariavelmente. Tratava uma enorme unha no dedo mínimo, com a qual costumava pentear o bigode, feito de longos fios, tingidos e lisos, que lhe velavam a boca. Jamais consentira que barbeiro algum lhe encostasse a mão no rosto”; fazia ele mesmo a sua barba, um dia sim, outro não. Escondia a calva com as compridíssimas farripas do cabelo, muito espichadas, como que grudadas a goma-arábica sobre o crânio. Dispunha de uma memória prodigiosa, gabada por toda a cidade; fazia-se grande conhecedor da história antiga; quando falava escolhia termos, procurava fazer estilo, e, sempre que se referia ao Imperador dizia gravemente: “O nosso defensor perpétuo!” Afiançavam que era habilidoso, em tempo fizera, com muita paciência, uma árvore genealógica de sua família e mandara-a litografar no Rio de Janeiro. Este trabalho foi muito apreciado e comentado na província.
Era empregado público havia vinte e cinco anos e só faltara à repartição três vezes - por uma queda, um antraz, e no dia do seu malfadado casamento; contava isto a todos, com glória. Quando temia constipar-se, aspirava cautelosamente o fartum do conhaque. “Isto e o bastante para me fazer ficar tonto!...” afirmava com uma repugnância virtuosa. Tinha honor às cartas e sabia tocar clarinete, mas nunca tocava, porque o médico lhe dissera ''não achar prudente”. Fumara em tempo, mas o médico dissera do charuto o mesmo que do clarinete. - Nunca mais fumou. Não dançava, para não suar; falava com raiva das mulheres e, nem caindo de fome, seria capaz de comer à noite. “Além do chá, nada! nada!” protestava com firmeza; estivesse onde estivesse, havia de retirar-se impreterivelmente à meia-noite. Usava sapatos rasos, de polimento, e nunca se esquecia do chapéu-de-sol.
Jamais arredara o pé da ilha de São Luís do Maranhão, tal era o medo que tinha do mar.
— Nem para ir a Alcântara! jurava ele, conversando essa noite em casa do Manuel. Daqui — para o Gavião! Nada, meu caro senhor quero morrer na minha caminha, sossegado, bem com Deus!
— Com toda a comodidade, observou Raimundo, a rir.
Era devoto: todos os anos carregava na procissão o andor do milagroso Senhor Bom Jesus dos Passos. E muito arranjadinho: “Em casa dele havia de tudo, como na botica.” Diziam os seus íntimos. “Só falta dinheiro...” completava o Freitas em ar discreto de pilhéria. No mais: — sempre o mesmo homem; nunca fora de estroinices; mesmo em rapaz, era já consigo; não gostava de dever nada a ninguém; colecionava selos velhos; dava homeopatia de graça aos amigos, e tinha a fama do maior maçante do Maranhão.
A tal “sua querida Lindoca” era uma menina de dezesseis anos, pequenina, extremamente gorda, quase redonda, bonitinha de feições, curta de idéias, bom coração e temperamento honesto. A Etelvina dissera uma vez que ela estava engordando até nos miolos.
Lindoca Freitas não escondia o seu desejo de casar e amava extremosamente o pai, a quem só tratava por “Nhozinho”.
— Tenho um desgosto desta gordura!... Lamentava-se ela às camaradas, que lhe elogiavam a exuberância adiposa. Se eu soubesse de um remédio para emagrecer... tomava!
As amigas procuravam consolá-la: “Dá-me gordura que te darei formosura! -
Gordura é saúde!”
Mas a repolhuda moça não se conformava com aquela desgraça. Vivia triste. As banhas cresciam-lhe cada vez mais; estava vermelho; cansava por cinco passos. Era um desgosto sério! Recorria ao vinagre; dava-se a longos exercícios pela varanda; mas qual! - as enxúndias aumentavam sempre. Lindoca estava cada vez mais redonda, mais boleada; a casa estremecia cada vez mais com o seu peso; os olhos desapareciam-lhe na abundância das bochechas; o seu nariz parecia um lombinho; as suas costas uma almofada. Bufava.
Dias, o piedoso, o doce Luís Dias, também comparecera aquela noite à sala do patrão. Lá estava, metido a um canto, roendo ferozmente as unhas, o olhar imóvel sobre Ana Rosa, que, ao piano, dispunha-se a tocar alguma coisa e experimentava as teclas.
Em uma das janelas da frente, encostados contra a sacada, Manuel e o cônego Diogo ouviam de Raimundo a descrição em voz baixa de um passeio de Paris à Suíça. No resto da sala coma o sussurro das senhoras, que conversavam.
— Então! Estamos passando o Boqueirão? exclamou o Freitas, erguendo-se do sofá, a sacudir as calças, para evitar as joelheiras. E, voltando-se para uma das sobrinhas de D. Maria do Carmo: - Diga alguma coisa, D. Etelvina!...
Etelvina ergueu os olhos para o teto e soltou um suspiro.
— Por quem suspiras? perguntou-lhe. em misterioso falsete, a velha Amância que lhe ficava ao lado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.