Por Aluísio Azevedo (1895)
Mas como se poderá explicar essa minha estranha predileção por um homem, que não era meu parente, nem meu companheiro de infância, e quando não havia entre nós de parte a parte o menor impulso de sexo?...
É preciso notar que eu fora sempre considerada, pelas pessoas que me conheciam, como um caráter seco e orgulhoso. E, com efeito, não gostei nunca de revelar, a quem quer que fosse, meus pensamentos e meus íntimos conceitos, nem mesmo a meu marido, com o qual guardei em todos os tempos uma reserva, que ele aliás, coitado! jamais tivera para comigo. Posso até dizer que com Virgílio fui, no último quartel de nossa vida de casados, mais fechada e retraída do que com qualquer outro. No entanto, era bastante demorar-me alguns momentos sozinha perto de César, fitá-lo e descansar por algum tempo o olhar no seu olhar sereno, franco e bondoso, para logo me acudir à boca tudo o que meu coração, tão avaramente, trazia escondido e fechado para os demais homens.
Às vezes, espantava-me eu própria com semelhante fato e, depois de lhe revelar os meus mais íntimos segredos, perguntava a mim mesma — como e por que exercia aquele homem tão grande e decisiva influência sobre meu espírito? Fazia então vivos protestos de mudar de norma de conduta daí em diante. Afinal não havia justificativa para uma distinção tão acentuada! Chegava a parecer-me desonestidade! Mas, na primeira ocasião, em que de novo a sós nos encontrávamos, quando dava por mim, já o meu coração se tinha aberto por si mesmo, e despejava-se até ao fundo em palavras de amor.
Donde vinha toda essa confiança de minha parte? donde procedia esse poderoso e casto sentimento que a César me ligava tanto, e que em nada me parecia com o amor que eu mantive por meu marido, nem com o que eu sentia por meus filhos? Não atinava então com a verdadeira causa do fenômeno e moralmente supunha-me deveras culpada. Só muito mais tarde, continuando a estudar, no meu próprio coração, o coração humano, pude compreender, quando afinal o conheci de todo, que não se tratava com aquele fato de um caso meu particular, mas de uma lei comum para a minha espécie. Essa conclusão assustou-me profundamente e veio abalar todas as minhas idéias aparelhadas a respeito da felicidade conjugal, e, se ela já não chegasse muito e muito tarde, ter-me-ia feito sem dúvida reformar o programa de vida, que eu com tanto empenho e tanto cuidado traçara para minha filha.
Do resultado dessas minhas observações, vim a perceber que, sendo a procriação um instinto, e sendo o amor um sentimento, o grande mal, ou o grande erro, do matrimônio vulgar, consistia no disparate de querer harmonizar e unir, para os mesmos fins, essas duas coisas distintas — sensualidade e amizade — tão contrárias entre si, e tão antipáticas e até perfeitamente incompatíveis.
Compreendi que a mulher — para procriar, precisa de um homem, de um varão, escolhido pelos seus sentidos; e — para amar, precisa de um amigo, de um irmão, eleito pela sua alma e pela sua inteligência. O associado do seu corpo, em caso nenhum, pode ser o associado do seu espírito, ou vice-versa.
Os irracionais também são, como nós, suscetíveis de simpatia e apego de amizade, mas nunca põem esse sentimento, que neles aliás não é tão elevado e tão perfeito como no homem, ao serviço da sua sensualidade e do seu destino procriador.
Compreendi que...
Mas não precipitemos os fatos da minha exposição. Vamos por ordem.
Como ia dizendo: Logo que me senti fraca para realizar sozinha o programa da felicidade de minha filha, recorri naturalmente à única pessoa com quem eu podia contar, o Dr. César. Escrevi-lhe, pedindo-lhe uma conferência em minha casa. Ele veio no mesmo dia.
Foi uma longa prática. Referi-lhe detalhadamente as minhas apreensões a respeito do futuro de Palmira; expus o que nesse tempo constituía o meu cabedal de observações concernentes ao casamento, e disse-lhe afinal qual era o meu plano resolvido. César ouviu-me, durante todo o tempo, em silêncio, com os olhos baixos, sem desviar um só instante a sua tenção do que eu expunha. Compreendi, pela concentração do seu rosto, que as minhas idéias e o meu projeto o interessavam e surpreendiam extremamente.
Quando acabei, ele tomou-me as mãos entre as suas, com um gesto carinhoso que lhe era habitual a sós comigo; meneou a cabeça e disse-me sorrindo que — em primeiro lugar, me fazia os seus cumprimentos pela lucidez de coração e de inteligência que eu acabava de patentear; depois, já em ar sério, falou da minha ilimitada dedicação materna, e declarou, ao terminar, sorrindo de novo, que, posto não acreditasse na eficácia do meu plano, pois que em absoluto não acreditava na felicidade, punha-se desde logo à minha disposição e pronto a entrar em campanha, na qualidade de meu ajudante-de-ordens.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.