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#Contos#Literatura Brasileira

O Esqueleto

Por Aluísio Azevedo (1890)

Foi, nesse momento, um espetáculo diabolicamente nunca visto e nunca sonhado até então.

Por entre os lençóis e a capa, no belo contraste do preto e branco, debatiam-se os dous. D. Bias a contorcer-se todo, a querer desvencilhar-se desse novo companheiro de dormida, animava-o, fazia-o viver, emprestava-lhe movimento.

- Por Dios! choramingava o espanhol, por Dios! Não me faça nada! Deixe-me em paz, tenha pena de mim!

E fazia-se súplice, e queria erguer-se para ficar de joelhos, para pedir piedade, para comprometer-se a tudo quanto o fantasma quisesse, para tornar-se submisso e escravo, enfim, com tanto que o deixasse viver.

E com os movimentos que tentava, o esqueleto movia-se também, recolhia o braço num amplexo que horripilava o outro, intrometia a perna entre as do fidalgo das Espanhas, ligava-selhe enfim numa bela conjunção amorosa.

D. Bias soluçava. A voz desaparecia-lhe até.

Foi preciso que o príncipe, já farto do espetáculo, interviesse e separasse os dous.

- Caramba! fez d. Bias. Eu tinha medo porque era um esqueleto e não havia contra quem lutar!

E mais calmo depois, achou uma boa compensação no convite para a ceia de d. Pedro que este tinha mandado trazer para o quarto.

Não comia entretanto com toda a sua habitual voracidade. O esqueleto, que ficara sobre o leito, incomodava-o.

Levantou-se, e escondeu-o dentro de um armário.

- Se o esquecem agora, e se o descobrem daqui a cem anos... lembrou o príncipe.

D. Bias mastigou barulhentamente um grande naco de carne; e depois, olhando muito sério para o armário, disse:

- Caramba! que boa peça vou eu pregar às gerações futuras!

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