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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Ele, que nas salas, ao ouvir falar da quebra do banco tal, da falência deste ou daquele negociante, do bom ou mau êxito de tais e de tais empresas, sacudia sempre os ombros com desdém e dizia entre dentes que tudo isso eram Tagatelas! Bagatelas!"; ouvia, entretanto, com muito interesse as frioleiras que à noite, ao despi-lo para a cama, lhe contava em camaradagem o seu Talha-certo. E, quando mais frívolo era o assunto, tanto mais ele o esmiuçava, o esmerilhava, interrompendo-o com perguntas curiosas, e fazendo exclamações de surpresa, e obrigando o criado a repetir o fato com mais minudência e convicção.

Depois atirava-se à cama e, todo retraído nos lençóis e abraçado aos travesseiros, deixando só de fora o seu carão afogueado, provocava Talha-certo a novos esclarecimentos, e saboreava as palavras do criado com um gosto pueril de criança mexeriqueira.

O Talha-certo, que já lhe conhecia as manhas, dava-lhe a lambiscar somente coisinhas lisonjeiras e, com muita adulação, arranjava sempre meios de incensar o vaidoso. Ora lhe contava o que a seu respeito lobrigara de tal dama; ora referia um fato ridículo de algum sujeito, que pretendesse competir em fortuna com o Portela; ora, finalmente, tirava ele mesmo do turíbulo e passava a defumar o patrão por conta própria.

E estes pequeninos encômios, obscuros e sem garantia, punham no maleducado coração do comendador um prazer delicioso.

— Então o tal sujeito gostava de me ouvir falar, hein, Talha-certo?...

— O quê?! ficou abismado! disse que vossemecê falava que nem um padre!...

— Deixa-os lá! Ainda não ouviram nada!...

— Não! Mas olhe que vossemecê tem um modo às vezes de dizer as coisas, que faz a gente ficar mesmo pasmado!

— Achas, Talha-certo?...

— Não sou eu só quem acha, são todos! — Coisas!

No dia seguinte, Portela envergava a sobrecasaca, metia-se no chapéu alto de castor, enfiava as luvas, tomava a bengala de castão de ouro e, quando ganhava a rua com o seu passo arrogante, a sua grande figura aprumada e sobranceira, ninguém seria capaz de adivinhar que ia ali a mesma tola criatura, que adormecera na véspera a babar-se com os gabos de um criado inepto.

Também era só o Talha-certo quem desfrutava as privanças do comendador e quem lhe devassava tais fraquezas de intimidade; para os mais era Portela o mesmo personagem cioso da sua "alta estimação" e da sua "irrecusável valia".

E quem precisasse obter qualquer coisa das mãos dele, nunca a alcançaria senão por intermédio do seu privado. Mas, em compensação, com esse tudo se obtinha, desde uma simples carta de fiança até ao melhor empenho para qualquer ministro.

Foi em uma daquelas conversas pueris que o comendador veio a saber que Pedro Ruivo estava no Rio de Janeiro.

— Pedro Ruivo?! exclamou Portela, saltando da cama e desfazendo o semblante piegas, com que costumava ouvir as confidências do criado. Pedro Ruivo?! Não estás enganado, Talha-certo?

— Não estou, não senhor. Era ele em pessoa; apenas tinha as barbas mais crescidas e a cabeça mais calva. Quando o vi, reconheci-o logo, por aquele sestro antigo de sacudir a cabeça para a esquerda...

— Ora esta! rosnou o comendador.

— Quando digo que vossemecê me devia ter deixado aviar com uma boa navalhada aquela peste!... Escusava agora de o ter de novo pela proa, porque o demônio é muito capaz de lembrara-se ainda do passado e...

— Tens razão! interrompeu o Portela, muito preocupado; precisamos desembaraçar-nos de semelhante homem! Só a idéia de que o posso encontrar na rua e sofrer dele qualquer desfeita, faz-me perder a cabeça!... Olha cá!

E chegando-se mais para o criado, passou-lhe o braço no ombro e perguntou-lhe brandamente, quase com ternura:

— Tu és capaz de desempenhar uma comissãozinha de que te quero encarregar?...

— Sempre fui. Adiante!

— Trata-se de despachar o Ruivo, mas de modo que ninguém venha a suspeitar de ti, e muito menos de mim...

— Já se vê!...

— Mas onde o terás a jeito?!

— Isso indaga-se! Sei que ele é empregado dos armazéns de rapé de Paulo Cordeiro.

— Mas como se arranjará o negócio?... compreendes que estas coisas não se podem fazer no ar...

— Deixe tudo por minha conta!

— Que tencionas fazer?...

— Não se importe com isso! Amanhã mesmo falo ao Tubarão.

— Mau! Já queres tu meter mais um na história!... O melhor seria fazeres tudo por ti...

— Mas eu posso lá deixar de falar ao Tubarão?!... Vossemecê bem sabe que nada fazemos sem combinarmos primeiro os dois. Foi o nosso trato! Nada! juramos sobre as Horas Marianas! Quando ele tem qualquer coisa, diz-me logo, e quando eu tenho, também lhe digo! Não! não sou homem de tratar uma coisa e fazer outra! O trato é trato!

— É o diabo! É mais um que fica sabendo da coisa!...

— Quem?! o Tubarão?! Ora, senhor! Então vossemecê não sabe o que está ali! Aquilo é fazenda muito boa! Não! por esse lado não tenha receios! O Tubarão é coisa séria: dali não sai um pio quando é preciso guardar segredo!

— Vê lá o que vais fazer!...

— Deixe tudo por minha conta, já lhe disse! Descanse que tudo se fará, com a ajuda de Deus!

(continua...)

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