Por Aluísio Azevedo (1884)
Entretanto, o estalajadeiro, mal teve conhecimento das intenções do seu ilustre protegido, tratou de dar as providências para o rapto.
Chegado o momento, armou os seus homens: vestiu-se de cocheiro (profissão que exercera por muito tempo), muniu-se de um par de tiros, preparou a bagagem do raptor pela maneira que mais convinha à conjuntura, isto é, reduzindo-a o melhor que pôde, e meteu-a dentro de um coche apropriado, do qual tomaria a boléia; e, depois de erguer com os outros vários brindes ao Cantonalismo, à Espanha, à Liberdade; e depois de embolsados os protestos de gratidão que o Borges lhes apresentava na forma de moedinhas de ouro, puseram-se todos a caminho da casa do oficial, dispostos a derramar a última gota de sangue em prol da gloriosa empresa que cometiam.
E quem os visse, tão formidáveis nos seus capotes de conspiradores, os colones convictamente puxados sobre a orelha, os gestos ameaçadores e trágicos, não seria capaz de supor que se tratava de raptar uma donzela, mais que ninguém senhora de seu nariz.
Filomena, ébria de prazer com a idéia de ser furtada, palpitante de comoção, fez a trouxa em segredo e retirou-se ao quarto, pretextando incômodos para dissimular os seus projetos de fuga.
À meia-noite, chegava o terrível grupo dos conspiradores, acompanhando o coche que devia conduzir o precioso fruto daquela empresa delicadíssima. Borges separou-se de seus companheiros, mudo e sombrio. E, com o passo firme, a mão armada, penetrou resolutamente no jardim da casa em que estava a mulher. Não foi difícil, porque, felizmente, o portão achava-se apenas encostado.
Ao chegar debaixo de certa janela tirou da algibeira um pequeno assobio de metal e apitou devagarinho. A janela abriu-se logo e, ao doce clarão da lua, apareceu o vulto romântico de Filomena, toda de branco, os cabelos soltos, os braços nus.
— Vamos com isto! segredou-lhe o Borges, levando as mãos à boca em forma de porta-voz.
— Trouxeste a escada?... perguntou Filomena no mesmo tom.
— Trouxe. Arreia o barbante.
— Aí vai.
— Pronto, disse o Borges, depois de amarrar a escada no cordão.
Filomena daí a pouco lançava-se nos braços do marido, a exclamar: — Fujamos, meu amor! Fujamos!
— Não grites! ralhou o sedutor. Olha que te podem ouvir!
E, com efeito, alguém abria já uma janela.
— Estamos perdidos! bradou a fugitiva.
O Borges, porém, havia já alcançado a rua com a mulher nos braços, quando o sujeito da janela berrou com uma voz de trovão:
— Ó da guarda! Ó da guarda!
Ouviu-se um estardalhaço de portas que se abrem precipitadamente fechaduras que rangem e vozes que se altercam.
Mas Filomena, trêmula e sobressaltada, achava-se já dentro do carro, ao lado do raptor, e os cavalos galopavam fustigados a valer pelo estalajadeiro.
Enquanto fugiam, os cinco cantonalistas, no meio de grande algazarra, de gritos e de apitos, simulavam uma alteração na rua, atraindo sobre si os serenos, que acudiam de vários quarteirões.
O carro, entretanto, voava pelas ruas de Triana, para os lados de Lora-delrio. A cidade desaparecia atrás deles, vertiginosamente. Mal avistavam já o cume quadrado da Giralda, que o luar fazia sobressair no horizonte.
No fim de três horas de carreira, penetravam no campo.
— Estamos salvos! exclamou Filomena. No campo não seremos alcançados!
— Ao contrário, respondeu o estalajadeiro, o campo e menos favorável à fuga, porque temos de evitar os guardias civiles, muito mais perigosos que os serenos.
Não tardou a surgir ao longe o primeiro par de tais guardias.
— Quem vai lá?! gritou um deles.
O estalajadeiro em resposta fustigou melhor os cavalos e precipitou-se em direção contrária ao lugar donde vinha aquela voz.
— Alto! gritou o guarda campestre.
Novas e mais fortes chicotadas.
— Faça alto! gritou o outro guarda engatilhando a sua espingarda.
O estalajadeiro, que conhecia muito bem as prerrogativas da sentinela do campo na Espanha, apertou o galope de seus animais e vergou-se todo para a frente, sobre as coxas.
Uma bala veio cravar-se na traseira do carro. Em seguida outro tiro, depois outro; mas as bestas não afrouxaram e o carrinho sumiu-se por entre as sombras de um olival que nascia a algumas braças daí.
— Ânimo! gritou o intrépido cocheiro aos fugitivos. Dentro em pouco estaremos livres de perigo; trata-se apenas de ganhar a outra margem do rio!
E fustigou as bestas com energia.
Mas no fim de meia hora de galope cerrado, o estalajadeiro soltou um grito, que aterrou os companheiros. Na sua precipitação, invadira, sem dar por isso, as terras de um tal marquês de Saltilio, e agora, auxiliado pela aurora, que ia repontando, via-se no meio de uma vasta dehesa, cujos touros gozavam da fama dos mais perigosos de toda aquela redondeza.
— Ira de Dios! bradou ele, enquanto o Borges e Filomena, estarrecidos de medo, espiavam pelas portinholas.
— Que é?! perguntaram.
— É que podemos ser assaltados pelos touros! explicou o cantonalista, tratando de fugir ao perigo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.