Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Quem não gostar de um passeio assim dado, não passeie comigo.
E não zombem do povo, não. Não se riam da inocente credulidade do povo.
Há credulidades de sábios doutores que não ficam aquém da credulidade do povo.
Eu podia apresentar um milhão de exemplos. Contentar-me-ei, porém, com um só que vem a propósito, pois que se refere à igreja dos carmelitas.
Pergunto: havia doutores e homens notavelmente ilustrados na ordem carmelitana?
Respondo: havia incontestavelmente.
Pois agora, escutem.
Segundo informa nos seus Anais do Rio de Janeiro, Baltasar da Silva Lisboa, depois de concluída a igreja dos carmelitas, foi enriquecido o seu altar-mor com algumas relíquias que constaram, além do Santo Lenho, de três cabelos de Nossa Senhora e da touca de Santana.
A religião católica, única verdadeira e santa, a religião puríssima de Jesus Cristo, devia, porventura, receber a imposição de semelhantes puerilidades, o nome sagrado da Virgem Imaculada, desse divino símbolo do mais angélico amor, devia ser assim profanado?
Donde nasceram tais profanações, senão da credulidade?
E se não foi a credulidade que as determinou, ai meu Deus! – a conseqüência seria mil vezes pior.
Basta.
A minha excursão pelos domínios do passado chegou ao seu termo.
Voltarei em breve a continuar o estudo do palácio imperial, considerando-o em uma época muito mais recente.
V
Na manhã do dia 26 de abril de 1821, quando o príncipe regente do Brasil acabava de receber as últimas despedidas de seu augusto pai, e a nau D. João VI, abrindo suas brancas asas, começava a cortar as águas do plácido janeiro para levar a Lisboa a família real, dois velhos criados do rei conversavam, olhando para a cidade que também deixavam.
– Pobre cidade: – dizia um deles. – Como vai ficar agora,achando-se privada do rei e da corte?
– E o palácio! – acrescentava o outro. – Que salas desertas.Que tristezas e que saudades!
– E o futuro ainda pior há de ser para ele, porque, por ora,ainda lhe resta o príncipe D. Pedro com um arremedo da corte do rei; mas, em breve, também o príncipe tornará à mãe pátria que não pode querer que o herdeiro do trono ande aqui exaltando as cabeças dos brasileiros. E em tal caso, a que ficará reduzido o tal palácio?
– A casa dos vice-reis como dantes – tornou o outro.
– O que já não é pouco – observou o primeiro criado quefalara.
– Não pensa o rei assim – disse, sorrindo, um terceiro criadoque se aproximara.
Os dois voltaram-se e tomaram diante daquele que viera intrometer-se em sua conversação uma atitude respeitosa, pois que tinham reconhecido um dos cortesãos mais queridos e da maior privança do Sr. D. João VI.
– Como pensa então Sua Majestade? – perguntou um dosdois criados, já de antemão resolvido a aplaudir o juízo do soberano.
– Ainda há pouco o rei, abraçando ternamente o príncipe,despediu-se dele, dizendo-lhe algumas palavras em que lhe deixou uma profecia e um conselho; e nem uma nem outro podem alentar muito as esperanças dos portugueses.
– Mas o rei é o melhor dos portugueses.
E nem por isso o seu patriotismo o torna cego ao futuro, em cujo livro sabe ler como um profundo político.
Os dois cortesãos curvaram-se em sinal de aprovação.
O outro continuou.
– O rei disse ao príncipe estas palavras, que eu recolhi e decorei: “Pedro, o Brasil brevemente se separará de Portugal. Se assim for, põe a coroa sobre a tua cabeça, antes que algum aventureiro lance mão dela.”
Os corações dos dois velhos criados do rei revoltaram-se contra o conselho, e ainda mais contra a profecia; mas seus lábios de cortesãos tiveram sempre um sorriso para acolher as palavras do soberano. O contágio do liberalismo português ainda não tinha podido romper o cordão sanitário da corte.
Enfim, era preciso dizer alguma coisa que servisse para melhor esconder o descontentamento íntimo.
– E... visto isso... o palácio...
– O palácio continuará a ser palácio real, e não será impossível que se torne imperial.
A conversação parou aí; estava tomando um caráter tão triste para aqueles fiéis cortesãos e leais portugueses, que em verdade não podia continuar.
Em 1822, um ano e cinco meses depois, a profecia do rei achava-se realizada e o seu conselho nobremente seguido.
O Brasil era um império independente e livre.
A nova organização política do país deu imediatamente lugar a uma modificação no palácio, que passara a ser imperial; porque, havendo necessidade de se preparar um edifício em que celebrasse as suas sessões a Constituinte brasileira, escolheu-se para esse fim a antiga casa da câmara municipal e cadeia, e conseqüentemente destruiu-se o passadiço que desde 1808 a ligara ao palácio.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.