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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

— É verdade, meus senhores : na ultima partido do Club Fuminense autorisei a cada um dos senhores em particular para vir hoje a esta hora que eu marquei, pedir-me em casamento a meu pai; arrependi-me porém de tel-o feito, e isso por uma razão muito simples. Os senhores fazião-me a corte desde algum tempo, e bem que eu nunca houvesse dado a qualquer dos tres direito algum sobre meu coração, vi de subito e com sorpreza que todos me voltarão o resto, e que se declaravão amantes apaixonados de minha tia, e pretendentes á sua mão ; outra vez, de subito, os senhores voltarão a curvar-se a meus pés, e fallárão-me todos em casamento ; semelhantes mudanças tão completas e tão rápidas devem ter uma explicação, e sem que os senhores m'a dêem, não receberão da minha bocca resposta alguma.

Os tres calculistas ficarão olhando-se mutuamente e corridos do papel que estavão representando.

— Tenhão a bondade de fallar, tornou Clemência.

Antônio, Ambrosio e Claudiamo explicarão o seu procedimento pelo poder dos encantos e da formosura de Clemência.

— Dizem a verdade?... perguntou ella.

Os tres calculistas jurarão com enthusiasmo que a paixão que sentião era profunda e invencivel.

— E insistem nas suas pretenções? Elles insistirão mais do que nunca.

Clemência voltou-se então para Violante e disse:

— Minha tia, vou pedir-lhe perdão de um abuso que commetti, e provar-lhe que convém muito ler os jornaes.

— Que queres dizer ?...

— Quero dizer que ha dous dias appareceu nos diversos jornaes diarios da capital a noticia que vou repetir palavra por palavra : eil-a :

« Ainda ha almas bemfazejas e parentes verdadeiramente dedicados. Uma nobre senhora de idade de 61 annos, que possuia uma fortuna de trezentos contos de réis, e tinha uma sobrinha moça, bella, porém pobre, vendo-se ultimamente instada por tres pretendentes á sua mão, e resolvendo-se a tomar um d’elles para marido, determinou antes de casar-se fazer, e de facto fez, doação de duzentos contos de reis á sua virtuosa e linda sobrinha, que ficou por esse modo ainda mais rica do que a tia. Esta boa e nobre parente é digna de todos os elogios. » — Que significa então isto ?...

— Ah ! minha tia, quer dizer que eu forjei uma noticia falsa; vossa mercê não me fez doação de um só vintém ; mas hoje isso me importa pouco, porque estes senhores amão-me apaixonada e desinteressadamente, e portanto...

— Como está corrompida a imprensa do paiz!... exclamou Ambrosio, eu vou chamar á responsabilidade todos esses indignos jornaes!...

E sahio desesperado da sala.

— Perdão, minha senhora, murmurou Antônio gaguejando; mas quem improvisa noticias destas, nunca poderá fazer a felicidade de um marido!

E tomando o chapéo, seguio a Ambrosiu.

— Oh! ainda bem que me resta o Sr.

Claudiano! disse Clemência rindo muito.

— Minha senhora, respondeu este, eu sou um companheiro fiel daquelles dous illustres cavalleiros, e visto que elles sahirão, está visto que não posso ficar...

Vendo retirar-se o ultimo dos tres calculistas, as duas senhoras começarão a rir com a melhor vontade.

Emfim Clemência poude conter-se, e perguntou :

— Então qual de nós duas vai para o convento, minha tia?...

— Nenhuma, porque ambas perdemos.

— Diga antes que ambas ganhamos.

— Concordo; mas a minha opinião ficou sempre victoriosa. Hoje em dia não se ama no Rio de Janeiro : já não ha mais casamentos por amor, ha somente casamentos por dinheiro.

— Não, minha tia : em todos os tempos houve sempre homens nobres e generosos, e homens indignos e vilmente interesseiros, e o que toda a senhora deve pedir ao céo é que lhe depare por marido um dos primeiros, e que a livre e guarde dos segundos.

UMA PAIXÃO ROMANTICA

I.

Um estudante é um homem excepcional que não se parece senão com outro estudante. O seu viver, o seu pensar, o seu proceder tem pontos de notavel dissemelhança do viver, do pensar e do proceder dos outros homens.

Um estudante reputa-se membre de uma republica independente, na qual o chefe do Estado é o director da escola, e são ministros os lentes e professores, e não reconhece mais autoridade legal abaixo do bedel.

Um estudante é o mais altivo dos aristocratas : para elle são nobres os seus mestres, nobres os outros estudantes; e todo o resto da humanidade vale tão pouco a seus olhos que designa com o nome bicho tanto ao mendigo como ao millionario, tanto ao plebeu como ao mais graduado dos titulares.

Um estudante é poeta, ainda que não faça versos; não é pobre nem mesmo quando não tem um real de seu, e não é bastante rico, embora tenha uma mezada sufficiente para sustentar quatro ou seis estudantes ; nunca lhe falta e nunca lhe sobra o dinheiro.

Um estudante ri de tudo, e de tudo zomba : tem um coração tão grande que lhe chega para guardar dez amores a um tempo; tem uma imaginação tão feliz que engendra dez romances em uma noite, e uma esperança tão lisonjeira, tão bella e tão fallaz que não enxerga no futuro senão felicidade e gloria.

(continua...)

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