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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Tomada a resolução, ela espreitou o ensejo de levá-la a efeito, de modo que poupasse a suscetibilidade de Hermano. Quando estava só, fortalecia-se no seu intento; mas quando chegava o noivo e ela o via tão feliz e tão regenerado por seu amor, não tinha ânimo de precipitá-lo daquele fagueiro transporte, que também a arrebatava.

Uma vez o amante exprobrou-lhe a esquivança que ela mostrava acerca desses projetos de futuro, os quais não passam muitas vezes de fantasias, mas são para os noivos como uma antecipação da felicidade conjugal.

— Quer saber a razão? disse Amália.

— Não é preciso que o diga. Se me amasse como eu a amo, acharia o mesmo prazer nestas futilidades.

A moça respondeu-lhe com uma expressão grave e um olhar repassado de tristeza:

— Se não o amasse, como o amo, acharia decerto prazer em falar nessas esperanças e promessas de uma ventura que é o meu sonho. Mas ao contrário, elas me entristecem.

— Por que, Amália? perguntou ele surpreso e inquieto.

— Tenho um pressentimento.

— Não diga isto!

— Não serei sua mulher, Hermano.

O amante adivinhou a razão dessa dúvida que afligia o espírito da moça; e respondeu-lhe com uma queixa:

— Mostrei-lhe acaso, Amália, o menor indício de arrependimento e hesitação para que retire o consentimento que me deu?

— Não o retiro; dei-lhe a minha mão; ela pertence-lhe.

— Mas então quem se oporá à nossa felicidade?

— Não sei; mas tenho medo que ela não se realize.

— Faltam tão poucos dias!

— Até à hora, ninguém sabe o que pode acontecer.

Hermano esforçou-se por dissuadir Amália daquela idéia, e com tanta efusão falou-lhe de seu amor, que ela deixou-se convencer, e crer enfim na possibilidade de ser feliz.

Se a moça cogitasse em um meio de fascinar o seu amante, de o prender ainda mais a si, não poderia escolher melhor do que este receio sincero por ela manifestado. Desde aquele diálogo Hermano redobrou de extremos; e se já havia resumido sua existência em Amália, não viveu mais senão das horas que passava junto dela.

Ao chegar interrogava ansiosamente o semblante da moça receoso de ler nele a sua condenação. Depois de retirar-se, inventava pretextos para voltar uma e mais vezes, como para certificar-se de que nenhum acidente ameaçava de novo a sua felicidade.

Esse tempo foi para ele um contínuo sobressalto; e para Amália o mavioso enlevo de sentir-se

amada com todas as emoções e todas as energias dessa alma opulenta. As dúvidas e receios de seu espírito dissiparam-se completamente. Tinha agora a confiança de seu poder, e a convicção de que Hermano lhe pertencia, e a ela unicamente.

E não advertiu que essa impulsão era talvez o efeito de um anelo estremecido pelo temor, e ao qual talvez sucedesse uma reação violenta.

No dia marcado celebrou-se o casamento. Não era um sábado, dia tão impropriamente consagrado pelo uso para esse ato solene. É com efeito difícil atinar com relação que possa haver entre a véspera do repouso e o instante em que principia para o homem a grave responsabilidade de família. Saturno devorando os filhos é um mau signo para a fecundidade do matrimônio.

Amália estava deslumbrante com seu traje de noiva. Os esplendores de sua beleza ardente tomavam através dos cândidos véus uns tons suavíssimos.

Hermano era o mesmo cavalheiro fino e elegante, que seus amigos tinham conhecido dez anos antes. Se a flor da primeira mocidade passara, a fisionomia, como o porte, ganhara em distinção e naturalidade.

O Sr. Veiga festejou o casamento da filha com um baile suntuoso. Às duas horas começou uma dessas intermináveis quadrilhas que servem de remate ordinário a semelhantes reuniões dançantes.

A alegria era geral; e os noivos foram dos que mais se divertiram. Ambos eles renasciam para a vida brilhante dos salões da qual se tinham por algum tempo afastado; ela durante a sua tristeza, ele durante a sua viuvez.

Já o nascente bruxuleava, quando o baile formou-se em procissão para acompanhar os noivos à casa.

Capítulo 15

Voltando de reconduzir os seus hóspedes, Hermano aproximou-se do sofá onde Amália sentara-se.

— Estou caindo de sono, disse a moça conchegando-se com um gesto gracioso na longa capa de casimira que lhe cobria as espáduas, e as vestes de noiva.

— Por que não se recolhe? perguntou o marido.

Ela hesitou um instante; mas afinal, erguendo-se com um faceiro assomo para romper o casto enleio, dirigiu-se ao toucador e ali achou sua criada.

Às pressas açodadamente, como costumava quando recolhia-se tarde e fatigada dos divertimentos, trocou as sedas e atavios por um alvo e fresco roupão de cambraia com fitas escarlates, delicioso traje no qual ela parecia vestida de sua candidez e de seu pudor.

Sentou-se então no divã.

Estava tão fatigada! Tinha dançado como uma menina de colégio que vai ao seu primeiro baile. Não sentia o cansaço do corpo somente; o espírito também havia sofrido as emoções daquela noite e dos dias anteriores. Era feliz, tão feliz, que sua alma carecia de repouso.

(continua...)

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