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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- Não, tornou-lhe a moça no mesmo tom. Ficou-me por uma ninharia. 

- Ah! Estimo muito. Que preço? 

- Quer saber o preço? 

- Estou curioso.

- Foi o seu. 

O Moreira mordeu os beiços e riu-se. Apesar de tudo não perdera a derradeira esperança. O projetado casamento podia desfazer-se por qualquer motivo, e não era difícil que a moça de um momento para outro se arrependesse da escolha com a mesma volubilidade com que a tinha feito de repente e por um capricho. 

Assim pensava o malogrado pretendente; enquanto que todos os indícios pareciam revelar da parte de Aurélia a firme intenção de persistir na mesma resolução, que ela não tomara, senão depois de muito refletida. 

Desde que anunciou-se o casamento, começou a moça a aparecer mais raramente na sociedade, até que de todo retirou-se; limitando-se ao pequeno círculo que freqüentava a sua casa, e no qual ela por assim dizer espanejava sua lama de um certo entorpecimento que lhe deixavam as ternas confidências e devaneios namorados do noivo. 

Seixas pelas palavras que Aurélia havia proferido tão d'alma, na ocasião de dar-lhe a mão de esposa, julgara compreender o segredo das estranhezas e oscilações do caráter da moça. 

...Ela duvida que eu a ame, pensou consigo. Suspeita que tenho a mira em sua riqueza. É preciso que a convença da sinceridade de minha afeição. Se ela soubesse! Um desgraçado pode sacrificar sua liberdade; mas a alma não se vende! 

Imbuído dessa idéia; não é de se estranhar que Seixas tivesse em suas expansões uma exuberância que descaía em exageração. Muitas vezes fatigada, senão opressa, dessas demonstrações apaixonadas, Aurélia que debalde tentara adormecer com elas as desconfianças de sua alma, exclamava entre fagueira e irônica: 

- Ah! Deixe-me respirar! Nunca fui amada, nem pensei que seria com tamanha paixão. Careço de habituar-me aos poucos. 

A residência de Laranjeiras fora recentemente preparada com luxo correspondente às avultadas posses da herdeira, e já na previsão do próximo consórcio. Poucos eram os preparativos a fazer, para a celebração do casamento, e esses, apressou-os o dinheiro, que é o primeiro e mais eloqüente dos improvisadores. 

Tratou-se de marcar o dia. O Lemos pôs em discussão a questão dos padrinhos. Já ele tinha cogitado sobre o assunto, e segundo a moda da nossa sociedade julgava indispensável pelo menos uma baronesa para a madrinha e dois figurões, coisa entre senador e ministro, para padrinhos. 

Não tinha ele amizade com gente dessa plaina, mas entendia que um simples conhecimento de chapéu, e até mesmo uma carta de recomendação eram títulos suficientes para solicitar semelhantes favores, com que a vaidade dos grandes se lisonjeia e a presunção dos pequenos se exalta. 

Grande foi portanto o embaraço de Lemos quando Aurélia declarou que um dos seus padrinhos deveria ser o Dr. Torquato Ribeiro. 

- Que lembrança! Disse Fernando involuntariamente. 

- Desagrada-lhe? 

Na fisionomia da moça perpassou um súbito lampejo. Podia-se tomar esse brilho pela chispa do solitário de seu anel que a luz feria, quando a mão corrigia um crespo do cabelo desprendido do toucado. 

- Podia escolher outra pessoa, Aurélia. 

- Não é seu amigo? Ah! Cuidava!... 

- Não tem posição. 

- De certo! Acudiu Lemos. A posição é essencial. 

Um simples bacharel não correspondia por modo algum à noção aristocrática que o velho tinha do paraninfo de uma herdeira milionária. Além de que transtornava-lhe o plano, pois os altos personagens convidados declinariam infalivelmente de ombrear com um rapazola que nem comendador era. 

Aurélia porém não cedeu. 

No dia seguinte assinou-se a escritura nupcial de separação de bens que assegurava a Seixas um dote de cem mil cruzeiros. 

A moça que sempre esquivara-se à mínima interferência em assuntos pecuniários, deixando esse cuidado ao tutor e conservando-se de todo estranha a semelhantes arranjos, ainda desta vez soube evitar qualquer inteligência com seu noivo acerca de interesses materiais. 

Lemos levou Seixas ao cartório do Fialho, dizendo-lhe que era isso uma exigência do juiz de órfãos, no que não faltou à verdade, embora fosse antes a vontade da herdeira quem determinara essa condição, que facilmente se ilude no foro. 

Só mais tarde assinou Aurélia para o que levou-lhe o tabelião o livro à casa. Nenhuma palavra porém trocou-se entre ela e o noivo a tal respeito. 

 

XII 

 

Reunira-se na casa das Laranjeiras, a convite de Aurélia, uma sociedade escolhida e não muito numerosa para assistir ao casamento. 

A moça não aceitou a idéia de dar um baile por esse motivo; mas entendeu que devia cercar o ato da solenidade precisa, para tornar bem notória a espontaneidade de sua escolha e o prazer que sentia com esse enlace. 

Não faltaram amigos conhecidos, que sugerissem a Aurélia a lembrança de fazer o casamento à moda européia, com o romantismo da viagem logo depois da cerimônia, a lua de mel campestre, e o baile de estrondo na volta à corte. 

(continua...)

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