Por José de Alencar (1861)
Clarinha (a Henrique) — Vamos ver Bela; também não a acho boa hoje! Aquele susto...
Henrique (baixo) — E pensas que fosse somente o susto...
Clarinha — Sabes de alguma cousa?
Henrique — Não, não sei nada.
CENA XI
Miranda e Joaquim
Miranda — Compraste os bilhetes para amanhã?
Joaquim — Sim, Senhor. (Entrega)
Miranda — Bem: vai arrumar tudo o que me pertence na mala. Hás de levá-la daqui a pouco à Estação.
Joaquim — Meu Senhor não volta mais a Petrópolis?
Miranda — Não sei... Preciso do que é meu na cidade... Talvez volte; porém mais tarde.
Joaquim — Minha Senhora viu os bilhetes, e disse que não queria ficar aqui.
Miranda — Tua Senhora precisa ficar por causa de sua saúde; os médicos aconselham. Não quero que em casa saibam de minha resolução.
Joaquim — Sim, meu Senhor.
Miranda — Dize a tua Senhora que eu desejo falar-lhe. Dize-lhe baixo que D. Clarinha não ouça. (Miranda fecha uma porta lateral da Esq., escreve o sobrescrito e vai lacrar quando Isabel aparece)
CENA XII
Miranda e Isabel
Isabel — Mandou-me chamar, Senhor?
Miranda — Disse-lhe há pouco que mais tarde lhe comunicaria minha resolução... Já a tomei: é necessário que nos separemos, Senhora.
Isabel — Para que, Senhor?... Essa separação não tardará muito. Eu lhe prometo que breve, mais breve do que pensa, ficará livre de mim.
Miranda — Já confessei que a tenho feito sofrer muito. Perdoe-me esta vez que é a última que lhe falo!... Com a tranqüilidade e o sossego que trará a nossa separação, há de restabelecer-se. O que a estava matando era esse suplício de todas as horas, esse martírio causado pela presença constante de uma pessoa odiada.
Isabel — Causado pelo receio de ofendê-la e só com a minha presença!... Foi um martírio, foi; mas também era a única alegria que Deus me permitia neste mundo, acompanhá-lo, servi-lo e estimá-lo, apesar de seu desprezo. Eu lhe suplico, Senhor! Deixe-me esse martírio até o último sopro de vida. Quero morrer a seu lado, não para amargurá-lo; a agonia será curta; mas, para que possa dizer-lhe a minha última palavra.
Miranda — Não se aflija, Senhora. Esta separação lhe pesa porque receia talvez pela sua reputação. Ela não sofrerá, eu lhe juro.
Isabel — Que vale a minha reputação desde que a perdi para o Senhor?... Eu já não vivo neste mundo; que me importa o que se passa nele?
Miranda — Uma Senhora precisa sempre de sua reputação; quando não seja para si ou para o seu marido, será para sua família, para sua filha. Fique descansada, porém eu preciso fazer uma viagem à Europa; a Senhora não pode naturalmente acompanhar-me por causa de sua filha; fica em sua casa, ou na fazenda com seu pai...
Isabel — Quando parte, Senhor?
Miranda — No próximo paquete.
Isabel — Depois de amanhã?
Miranda — Desejava, mas já não é possível. Será no seguinte.
Isabel — Daqui a um mês!... Antes disso terei eu partido, e para mais longe!... É inútil a sua viagem.
Miranda — Deixe estas idéias tristes! Prometo-lhe que não voltarei!... Um dia chegalhe a notícia de que está livre, viúva; pode ainda ser tão feliz! Neste momento, só lhe peço que me perdoe e me acredite. Aceitando a sua mão, pensei que poderia fazerlhe a sua felicidade!...
CENA XIII
Os mesmos e Siqueira
Siqueira — Que é isto? Continua a cena de ontem? De que estás chorando, Bela?
Miranda — As Senhoras choram por qualquer motivo. Comuniquei-lhe o meu projeto de ir à Europa...
Siqueira — Ah! Mas é cousa nova!
Miranda — Resolvi agora na cidade. A minha saúde, a minha carreira mesmo, exigem esta viagem.
Siqueira — Acho-a fora de propósito. É mau tempo, deve deixar para maio.
Miranda — E a Câmara?... Por esse tempo pretendo estar de volta. Quero aproveitar o intervalo da sessão: será uma viagem precipitada, e muito incômoda para Bela.
Siqueira (a Isabel) — Então já está chorando de saudades?... É uma ausência de sete meses apenas.
Isabel — De sete meses!... E que fosse, para quem nunca se separou, mais do que alguns dias!...
Miranda — Convém habituarmo-nos; ninguém sabe quando chega o momento da separação eterna.
Siqueira — Deixemos isso; a viagem não é agora.
Isabel — É no próximo vapor.
Siqueira — Havemos de ver.
Miranda — Em todo caso é cedo para afligir-se, não é verdade, meu sogro?
Siqueira — Decerto. (A Isabel) Não te agonies; no fim das contas isso não passa de projeto.
Miranda (saindo) — Já volto.
Isabel — Peça-lhe que não faça esta viagem; mas como cousa sua!... Augusto lhe quer bem: há de atendê-lo.
Siqueira — Eu te prometo falar com ele. Fique descansada.
Isabel — Mas não lhe fale hoje, não; depois outro qualquer dia. Oh! Eu sinto que essa viagem me mataria.
Henrique (entrando) — Senhor Siqueira, preciso falar a Bela. Me dê licença.
Siqueira — Outro!... Veja se também a faz chorar como seu tio.
CENA XIV
Isabel e Henrique
Henrique — Chorava?... E foi ele que a fez chorar? Já sei o que isto quer dizer.
Isabel — É um capricho meu, uma sem-razão.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Que é o Casamento?. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16678 . Acesso em: 27 jan. 2026.