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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

À exceção da cozinha, cada aposento tinha uma rede de algodão muito alva. No dormitório a rede faz as vezes de cama; na varanda faz as vezes de sofá, e é o lugar de honra que o sertanejo, fiel às tradições hospitaleiras do índio seu antepassado, oferece ao hóspede que Deus lhe envia. 

O primeiro cuidado de Justa foi correr ao quarto e tirar da sua mala de couro uma rede também de algodão, porém de ramagens encarnadas, com dois palmos de renda na franja matizada. Imediatamente substituiu a outra por esta, que ela ainda não achava bem chibante para sua filha querida. 

— Agora pode sentar-se, meu bem, disse a sertaneja abrindo as dobras. 

D. Flor encostou-se à aba da rede, e fincando no chão a ponta do borzeguim, começou a embalar-se, enquanto a ama ia buscar tudo que tinha de melhor em casa para oferecer-lhe: 

— Prove dêste queijo que está tão fresquinho! É o primeiro dêste ano. Agora com as chuvas as cabrinhas sempre deram para um coalho. 

Depois do queijo fresco, que ainda estava no chincho, vieram os balaios de biscoito, as rosquinhas de carimã, flores de alfenim, em suma toda a provisão de gulosinas que a sertaneja havia feito à espera de sua filha de criação. 

D. Flor beliscou em tudo como uma rôla para dar à sua mamãe, de cada coisa que provava, um novo prazer. 

— Agora basta, mamãe Justa; não faça de sua filha uma gulosa que é muito feio. 

— Iche!… respondeu a sertaneja com o seu muchocho especial. Em D. Flor tudo é bonito. 

— Está me deitando a perder. 

— Torno a dizer! O que nos outros é feio e não se atura, se meu querubim fizesse, todos haviam de ficar encantados. 

— E se eu não lhe quisesse mais bem? Era bonito, diga, mamãe Justa? 

— Isto não pode, ainda que queira! disse a sertaneja sorrindo. 

Justa arrastara um estradinho coberto de couro e sentara-se defronte da donzela para conversar. Enquanto falava, levada pelo hábito de sua vida laboriosa, tirara um fuso da cintura, e por distração mais do que para aproveitar o tempo, começara a fiar as pastas de algodão que estavam dentro de uma cabaça suspensa à parede. 

D. Flor abandonou a rede, e tirando das mãos de mamãe o fuso, acomodou-se mui sem cerimônia no colo da sertaneja, que já não cuidava em outra coisa senão em ninar o seu querubim. 

— Espere, mamãe; deixe-me ver seu rosário, disse D. Flor, desatando o pequeno ramal de contas pretas que a sertaneja trazia ao pescoço. 

Deitando-o no regaço de seu roupão, tirou do bolso um pequeno embrulho de tafetá, atado com um torçal de prata. Havia dentro um grande rosário, todo êle de contas de ouro, com os padrenossos de coral e as coroas de marfim. A cruz era de azeviche com o Cristo de Jaspe. 

A donzela cingiu o pescoço de sua mamãe com cinco ou seis voltas do rosário e deixou-lhe afinal pender sôbre o peito a cruz, que teve o cuidado de colocar de chapa, mostrando a imagem do Redentor. 

— Aquí tem! É um rosário completo com duas coroas e mais um  mistério. Assim não carece de passar duas vezes, quando rezar sua novena. 

Justa não dava sinal de si. Ficara maravilhada com a riqueza e formosura daquele mimo e estava em êxtase, imóvel como uma estátua, receosa de que o seu menor gesto maculasse aquele primor. 

Acabando de arranjar o rosário, afastou-se D. Flor para observar o efeito: 

— Está uma dona, mamãe! 

Foi então que Justa despertando correu à menina, e como costumava em seus momentos de efusão, suspendeu-a nos braços, tomando-a ao colo da mesma forma que fizera quando a trazia aos peitos, e afogando-a de beijos e carícias. 

No dia seguinte ao da chegada, quando se arrumou a bagagem, tinha-se feito uma distribuição geral de presentes pela gente da fazenda. Cada uma das pessoas que ficaram havia recebido uma peça de vestuário, um traste de uso, ou qualquer outra lembrança. Os homens o receberam da mão do capitão-mór; as mulheres da mão de D. Genoveva; as moças e meninas da mão de D. Flor. 

Mas a donzela, além daqueles presentes, tinha três especiais, que havia reservado para mais tarde: um era o de Alina, sua companheira de infância, outro era o da sua mãe Justa. Faltava-lhe dar o terceiro. 

 

XI – Comadre 

 

Flor voltara a embalar-se na rede, e Justa fazia outra vez corrupiar o fuso às castanholas de seus dedos ágeis. 

A donzela correu com os olhos toda a casa, como se esperasse a presença de mais alguém; foi ao terreiro da casinha e frustrada em sua esperança, dirigiu-se à ama com uma carinhosa exprobração: 

— Que é feito de Arnaldo, mamãe Justa? Há três dias que chegámos e ainda ninguém o viu. 

— Arnaldo? Minha filha não sabe? É verdade que eu nem me lembrei de contar-lhe. 

— O que? perguntou a moça inquieta. Que lhe aconteceu. 

— Nada de mal. Foi que, no mesmo dia da saída do senhor capitão-mór, êle veio despedirse de mim, que também ia fazer uma viagem. 

— Aonde? 

(continua...)

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