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#Romances#Literatura Brasileira

Diva

Por José de Alencar (1864)

—Mas por que não há de escrever ainda? Se não quer ser poeta, seja escritor. Não tem ambições? Não ama a glória? —Amo; a glória da minha profissão, a única a que devo e posso hoje aspirar. É uma glória obscura e desconhecida, bem sei. Nossos triunfos, não os obtemos na praça ou no teatro, diante da multidão que aplaude; mas lá, no recôndito de uma casa, no aposento silencioso, onde geme a criatura. Só Deus os contempla, só ele os recompensa. O mundo e aqueles mesmos a quem salvamos, nos pagam, mas nem nos agradecem às vezes. Foi a natureza, dizem eles, Mas os reveses, esses pesam sobre nós. É uma glória amarga, Emília, a que me coube em partilha. 

—Quem lhe impede de aspirar a outras? —A minha consciência. Quando me dediquei à medicina não busquei só um meio de vida, votei-me a um sacerdócio. Sinto que a minha aptidão é essa; fugir a ela fora mentir à, minha missão neste mundo. 

—Tem razão! A verdadeira glória deve de ser essa; fazer o bem. 

Eu é que sou uma louca! Mas já gostava da medicina; agora vou gostar ainda mais. 

E para confirmar seu dito, Emília começou a examinar os instrumentos e livros com uma travessura infantil, roçando por eles de leve a ponta dos dedos, como se os acariciasse. O acaso deparou-lhe um atlas de anatomia; pousando então a ponta da unha rosada sobre o título, voltou-se para mim sorrindo: 

—Quero ver o coração! Onde está? E afastou-se enquanto eu folheava o atlas para mostrar-lhe a estampa que ela pedira. Esteve a olhar muito tempo; afinal murmurou: 

—Quando eu morrer, Augusto, há, de examinar o meu... Para ver se é diferente! —Que idéia!... Deixe isso, Mila! retorqui fechando os livros e instrumentos nos armários. Sinto não ter em minha casa objetos mais alegres para distraí-la. A minha profissão é triste, já lhe disse, bem triste! Vive das misérias do próximo. Suas alegrias são sempre travadas de dores!... Afinal nos habituamos. Mas enquanto não chega essa indiferença, que dúvidas! E quando chega, que aridez! Por isso, Emília, eu sinto a necessidade de um santo amor, que me proteja contra a descrença, e me preserve a alma desse terrível contágio do materialismo. 

Emília me ouvira comovida. Ergueu-me a fronte, para que eu recebesse o meigo sorriso, cheio de ternura, que ela me queria embeber n'alma. 

—O que lhe disse eu naquela noite?... Espere! Talvez não espere muito tempo! Envolvendo-se na sua capa, fugiu por entre as árvores. 

Depois dessas mútuas expansões e das nossas entrevistas solitá,rias, depois sobretudo da promessa que ela me fizera partindo, parecia natural que eu fosse crescendo na afeição de Emília; porém esta moça era cada vez mais incompreensível. Os dias que seguiram tratou-me com bastante frieza: e uma tarde com desdém até. 

Achei-a lendo uma folha de pequeno papel bordado que me pareceu carta: pensei que fosse da prima. Ela nem ergueu os olhos para cumprimentar-me; e respondeu com uma simples inclinação da fronte. Senteime; dirigi-lhe por vezes a palavra sem obter mais resposta que um sim ou não; afinal conhecendo que ela estava preocupada, esperei calado pelo seu bel-prazer. 

Emília leu e releu, talvez já esquecida da minha presença; dobrando o papel, que meteu no bolso, começou a passear pela sala, visivelmente distraída. Por momentos soltava débeis modulações de alguma ária; depois fugia-lhe pelos lábios um sorriso misterioso, desses que se sorriem sem consciência, verdadeiras esfinges d'alma. Não me pude mais conter: 

—Adeus, D. Emília. Vejo que minha presença começa a incomodá-la: é tempo de torná,-la mais rara e menos importuna. 

—Ah! já cansou de esperar? respondeu com um ligeiro riso de mofa. 

—Já perdi a esperança, confesso-lhe. Já; porque enfim compreendo o que se passa em seu espírito. —Queria que me dissesse isso! Ficaria sabendo. 

—Dir-lhe-ei; por que não? A senhora é de uma bondade extrema e cuida que eu tenho direito à sua gratidão. Conheceu que eu a amava, que esse amor era minha felicidade e minha vida. Pareceu-lhe que recusar-me em troca sua afeição, era o mesmo que recusá-la a um pai, a um irmão. Quis amar-me, porque é boa; fez todo o possível para isso, mas debalde... O amor nasce de si mesmo, de repente, sem que o suspeitem. Se ele viesse quando o chamamos e desaparecesse à, vontade, não era o que é, uma fatalidade. Iludiu-se, D. Emília. O homem a quem há de amar, a senhora não o conhece, nem o viu talvez. Quando aparecer, não lhe dará tempo de interrogar-se. Seu coração palpitará por si mesmo, e a senhora sentirá que ama, sem saber como, nem quando, começou a amar! —Talvez isso seja verdade para outras; para mim asseguro-lhe que não. O amor, como eu sonho e espero, há de ser a minha vida inteira; portanto pareceme que tenho o direito e até o dever de conhecê-lo antes de entregar-me a ele sem reserva e para todo o sempre. 

(continua...)

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