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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

— Amo! disse ela escondendo o rosto no seio do pai.

O negociante beijou-a na fronte com ternura e carinho.

— Ah! minha sonsa, não queria confessar o que tinha aqui dentro deste coraçãozinho! E eu que pensava que ele só queria bem a mim?

— Oh! papai!

— Bem, bem, não tenho ciúmes! Vai consolar tua mãe, que eu vou responder ao homem mais feliz deste Rio de Janeiro.

O negociante voltou ao gabinete, e Amélia dirigiu-se ao interior. Sua mãe estava no quarto, com os olhos ainda úmidos de lágrimas. Quem não conhece essas lágrimas abençoadas, que a mãe derrama pelos filhos, e que são bálsamos para as aflições e orvalhos para as flores da ventura?

D. Leonor beijou a filha e estreitou-a ao seio como receosa de que lha arrancassem dos braços. Seu coração ora alegrava-se com a felicidade próxima da moça, ora se entristecia com a lembrança da separação.

De repente Amélia sobressaltou-se com uma idéia que lhe acudiu; e deixando a mãe, correu ao gabinete do negociante.

Achou-o sentado à escrivaninha, passando por cima da carta que terminara, um rolete de mata-borrão.

O pai sorriu vendo entrar a filha.

— Curiosa!

— Já acabou? disse a moça recostando-se com gentileza à poltrona.

— Vê se está de teu gosto, disse o Sales cingindo-lhe a cintura com o braço.

Amélia leu a carta rapidamente; ela já sabia de antemão que faltava alguma coisa.

— Então, que tal? perguntou o negociante com certo desvanecimento.

— Está muito boa, papai. Só acho uma coisa.

— O quê?

O negociante sofreu uma decepção. Pensava ter feito uma obra-prima com aquela carta, escrita em seu mais belo estilo comercial, mas recheada de alguns rasgos sentimentais.

— Não acha, papai, que ele ficará todo cheio de si, obtendo logo, assim com tanta facilidade, o que deseja? A carta é de hoje; responder no mesmo dia... mostra muita vontade demais.

— Que mal há nisso? Para que deixá-lo na dúvida, quando podes torná-lo feliz desde já?

— Papai pensa que ele duvida?

— Ah! Já sabe então! Muito bem!

—  Eu não lhe disse nada, papai.

—  Então como sabe ele? Adivinhou?

— Não adivinhou nada. Papai bem sabe como são esses senhores da moda; cuidam que todas as moças andam morrendo por eles, e que a dificuldade está somente em escolher. Como eu não quero que o Sr. Horácio me julgue uma de suas conquistas, estou resolvida, papai, a pensar bem durante quinze dias, antes de dar a resposta.

— Portanto esta carta não serve, disse o Sales com um suspiro.

— Há de servir, mas daqui a quinze dias. Agora papai deve dizer unicamente, que tendo-me consultado, eu pedi algum tempo para dar a resposta.

— O negociante escreveu, e Amélia esperou até que partiu a carta, confiada a um criado.

Momentos depois, Sales saía para a cidade, e Amélia entrava em sua alcova, descantando trechos de árias e romances. Não se podia dizer que estivesse alegre, apesar do tom garrido com que modulava, e do fresco riso que trinava em seus lábios.

O que ela sentia era um alvoroço íntimo, uma sôfrega agitação, estado indefinível d'alma prurida por mil desejos e contida por mil receios.

Vejamos se é possível descobrir o que passava ali, dentro daquele seio mimoso.

Desvanecida a primeira comoção produzida pela carta de Horácio, Amélia recordara-se do que tinha ocorrido na véspera, e sobretudo das palavras proferidas pelo moço. Sua vaidade revoltou-se como era natural.

— Hei de mostrar-lhe que não basta querer, para ser meu marido; e que não basta ser meu marido para ver...

Foi então que se dirigiu ao gabinete do pai e adiou a resposta definitiva. Voltando, sentiu lá num cantinho do coração uns receios que estavam nascendo. Não fosse Horácio zangar-se com a demoras e retirar o pedido? Quinze dias talvez fossem demais.

Eis qual era o estado de animo de Amélia: orgulho de ver subjugado a seus pés o rei da moda; prazer de o ter cativo de uma palavra sua durante muitos dias; arrependimento do que fizera; susto do que podia acontecer; gozo da ventura que sorria; tais foram os sentimentos desencontrados que vibraram na alma da moça.

Nessa tarde Amélia preparou-se com maior esmero do que se fosse a um baile. Seu adorno simples, um modesto vestido branco com fitas azuis, tomou-lhe mais tempo, do que não levaria a compor um traje suntuoso.

Ela esperava Horácio.

Toda a noite passou, indo do sofá à janela, e da janela ao consolo, onde estava a pêndula de alabastro.

As horas se escoaram, sem que o tílburi do moço parasse à porta do negociante.

No dia seguinte, Amélia perguntou ao criado se a carta fora entregue a Horácio

— Entreguei em mão, quando entrava no tílburi.

—  E que disse ele?

—  Nada; leu e riu-se.

— Ah! ele riu-se, murmurou Amélia consigo. Pois eu lhe mostrarei.

Desde então, empenhada sua vaidade, os sustos se desvaneceram. Estava decidida a não ceder. Horácio depois de vencido tentava ainda resistir-lhe? Pois havia de subjugá-lo completamente.

À noite foi à casa de D. Clementina, onde estava reunida a roda do costume. Leopoldo ali se achava também e cumprimentou-a com um modo triste e resignado.

(continua...)

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