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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Que importavam as demonstrações de amizade de Anacleto, as atenções e cuidados de Mariana e a doçura angélica de Celina?... que importava a atmosfera pura e leve que no “Céu cor-de-rosa” ele respira, se dentro de seu coração lhe estava pesando a profunda convicção da miséria do pobre?... portanto, ele se deixava ficar escondido em um canto da sala... do seu lugar... no lugar que geralmente na casa daquele que muito mais tem, se deixa ficar o que muito menos tem.

Mas aí mesmo, aí nesse retiro vinha esmagá-lo o peso do seu infortúnio. Daí ele via Celina cercada e lisonjeada por mancebos que podiam sorrir para ela, ouvia lhe dizerem baixinho o elogio de sua beleza, e depois irem cantar com ela duetos apaixonados; mancebos enfim, que podiam merecê-la; e ele via esses sorrisos, ouvia o murmúrio dessas palavras ditas de súbito... e não podia fazer outro tanto, porque, quem sabe se por única resposta a seus cumprimentos, Celina lhe perguntaria: – Quem és tu?...

E suponhamos que, graças à sua virtude e urbanidade, nada lhe dissesse Celina, não poderia essa menina perguntar dentro de si mesma: – Quem é ele?...

E não basta simples suposição para fechar a boca do homem pobre e desconhecido, que tem no coração um pouco desse orgulho sagrado que todo o homem de honra se ufana de ter?...

Portanto, os serões do “Céu cor-de-rosa” não ofereciam a Cândido o encanto imenso que em outras circunstâncias lhe ofereceriam. A razão disso estava nele mesmo.

Mas, enfim, um pouco à força dos convites de Anacleto, e das instigações da velha Irias, e um pouco à força dos convites e das instigações de seu próprio coração, Cândido era um dos mais assíduos freqüentadores do “Céu cor-de-rosa”.

CAPÍTULO IX

UM SERÃO DO “CÉU COR-DE-ROSA”

A NOITE estava bela, a lua clara e brilhante e brisas suaves e frescas faziam esquecer a calma abrasadora de um dos primeiros dias de dezembro, que acabara de passar.

Um grupo de curiosos e amadores tinha-se formado defronte das janelas do “Céu cor-de-rosa” e aplaudia os cantos agradáveis que ali eram entoados.

Um velho guarda-portão estava sentado à porta do alpendre da casa feliz.

Jacó e Helena observavam de suas janelas o que se passava e o que se dizia.

Dentro do “Céu cor-de-rosa” reinava a felicidade e borbulhava o prazer. Cerca de trinta pessoas entre senhoras e homens, gozavam o serão daquela noite.

Mariana estava radiante porque defronte dela, e com os olhos embebidos em seu rosto, Henrique parecia crer-se ditoso.

Salustiano não se mostrava ressentido disso, e fazia a corte exclusivamente à “Bela Órfã”.

Cândido, um pouco afastado das senhoras, não parecia alegre nem triste; ia, a pesar seu, bebendo a largos tragos o terrível veneno d’alma que se bebe pelos olhos e se concentra no coração. Sem o sentir, ele ficava às vezes em êxtase, contemplando Celina do mesmo modo que pelo pensamento se prendia à vida dela inseparáve1, como a sombra de seu corpo. Longe da “Bela Órfã”, receando aproximar-se, esquecia-se de si próprio em aéreas meditações; ou outras vezes despertava cruelmente sacudido pela mão espinhosa do ciúme, que lhe mostrava um jovem conversando a sós com Celina, ou sorrindo para ela.

Os sinos tocaram nove horas.

– Oh! bem, disse Mariana. Há uma hora que cantamos; deixemos descansar aqueles que nos ouviram, conversemos também.

– A comandante das moças deu a voz de – liberdade! – ao seu batalhão, disse um homem de meia-idade, que se supunha muito espirituoso.

– Então hoje não se dança aqui, d. Celina? murmurou ao ouvido da “Bela Órfã” uma interessante mocinha.

– Eu sei, d. Felícia! se você quer dançar, eu vou dizer a minha tia.

– Deus me livre!

– Mas por quê?...

– Porque aqueles senhores haviam de pensar que eu morro por dançar.

– Que tem isso? pensavam a verdade.

– Sim... sim... porém pensariam também que eu gosto de dançar por causa deles... para conversar... para ouvi-los dizer muitas coisas...

– E não é por isso?... perguntou Celina sorrindo.

– Qual?...

– Então por que é, d. Felícia?...

– Ora, é porque a gente sempre gosta de se mostrar.

– Bravo, d. Felícia, exclamou outra moça, que se sentava perto de Celina.

– Ah! você estava ouvindo, D. Mariquinhas?... pois olhe, é muito mal feito vir escutar o que se está falando em segredo...

– Obrigado pela repreensão, minha senhora, disse um mancebo que delas se aproximava nesse momento; eu a recebo, porque, na verdade, a mereço.

– Oh! não; não era a V. Sa. que eu me estava dirigindo.

– É o mesmo; talhou uma carapuça que me serve às mil maravilhas.

– Pois então sirva-se, disse Mariquinhas.

– Eu confesso que morro por saber um segredo de moça... há sempre tanta graça nos inocentes mistérios de um coração que tem só dezesseis anos!

– Ah! tornou Mariquinhas, e se o senhor soubesse então dos mistérios de um coração como o de d. Felícia, que tem só dezessete anos e meio!

– E desgraçadamente, nem ao menos nutro a esperança de poder sabê-lo um dia!

– E que mistério... era um desejo imenso de...

– D. Mariquinhas! exclamou Felícia.

(continua...)

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