Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— E o coração da mulher, prosseguiu a moça, deve ser tesouro sagrado, que nunca se venda, nem vender-se possa, e que só se troque por outro coração igual a ele. Sr. D. Rui Vaz, eu vos dedico a minha estima; Gil Mendonça, tu és o dono do meu amor.
— E tu, Gil Mendonça, disse o fidalgo, tu que dizes?...
— O que ela disse, respondeu o rústico.
— Pois bem, tornou Rui Vaz; pois bem. Gil Mendonça, eu dou-te metade das minhas riquezas, armar-te-ei cavaleiro, ofereço-te duas das minhas vilas, um dos meus castelos e o mais rico dos meus palácios; mas em troca de tudo isso, tu que és dono dos amor de Arabela, cede-mo.
— Vale mais, Sr. D. Rui Vaz, o coração de Arabela.
— Pois tudo, Gil Mendonça, tudo o que é meu... dou-te, tudo...
— Ainda é pouco.
— Oh!... dize! pois com que se pode comprar esse amor que eu aspiro, e a posse daquela moça?...
O popular sacudiu a cabeça friamente, como quem dizia:
— O amor nem se compra, nem se vende.
— E eles nem pensam no futuro daquela linda moça!... exclamou o fidalgo pegando no chapéu. Gil Mendonça! pobre Gil Mendonça! que darás tu por herança ao filho de Arabela?... oh! pobreza!... sempre pobreza!...
O rosto do plebeu pareceu anuviar-se; passado um momento, ele levantou a cabeça, e disse:
— Nobre Sr. D. Rui Vaz, o filho de Arabela não herdará de mim nem palácios, nem castelos, nem um colar de cavaleiro, porque plebeu nasci, e plebeu morrerei; mas juro, à face de Deus, que dia e noite trabalharei por ele, e para deixar-lhe uma herança que o livre da miséria e do infortúnio.
Depois, voltando-se para sua noiva, disse com voz grave e firme:
— Arabela! a Deus o juro!
No dia seguinte Arabela era à face dos altares a mulher de Gil Mendonça.
Alguns dias depois o nobre e leal cavaleiro Sr. D. Rui Vaz tinha desaparecido das terras de Portugal; era um jovem fidalgo que, aos vinte e cinco anos de idade, aborrecia o mundo...
Ao lado de Arabela, Gil Mendonça, senhor do seu coração, e certo da sua fidelidade, vivia feliz e sossegado; três anos se passaram, em que ele pedia ao céu um filho e, na esperança de vir a tê-lo, trabalhava com ardor indizível para preparar-lhe uma herança.
Ele nunca esquecia o seu juramento.
No fim de três anos Arabela concebeu, e Gil Mendonça, festejando com entusiasmo tal acontecimento, sentiu, todavia, com tristeza que se achava ainda tão pobre como dantes. E ainda trabalhou mais...
No fim de nove meses, Arabela deu à luz uma linda menina, a quem puseram o nome de
Isabel.
No dia que se seguiu ao do batizado, Gil Mendonça falou a sua mulher.
— Arabela, tu tens visto com que ardor eu trabalho e como mal nos paga a fortuna. Todos os dias me parece estar ouvindo as palavras daquele fidalgo que te amou: — que darás tu por herança ao filho de Arabela?... enfim, tu deste-me uma filha, eu lembro-me também, que por Deus te permiti dar-lhe uma herança; vejo que nada faço na minha terra, e vou partir.
— Partir para onde?...
— Vou correr o mundo, Arabela, e conseguirei sem dúvida uma herança para deixarmos a
Isabel.
A despeito das lágrimas e dos conselhos de Arabela, Gil Mendonça fez de sua roupa uma trouxa, tomou um bastão e o chapéu, e, recebendo a bênção de seus pais, beijou sua filha, abraçou ternamente a sua esposa, e partiu.
Gil Mendonça não sabia escrever, e Arabela não esperava notícias dele; contentou-se com chorar as suas saudades, consolando-se com o lindo anjinho que das suas entranhas recebera o nome do céu.
O tempo foi correndo; os dias e semanas foram passando, depois meses e anos, sem que chegasse notícia alguma de Gil Mendonça.
No entanto, ia crescendo Isabel; linda e engraçada como fora Arabela nessa feliz idade, sua mãe espelhava os antigos encantos infantis no rosto, e as suas virtudes no coração de Isabel.
Com toda a sublime ternura do amor maternal, Arabela perdeu primeiro as noites velando junto do berço querido, bebeu depois entusiasmada os sorrisos meigos e inocentes da filha da sua alma, escutou e decorou a sua primeira palavra, ensinou-lhe a repetir o nome de seu pai, dirigiu os seus primeiros passos, e, quando Isabel começou a falar, aprendeu logo de sua mãe a pedir a Deus o regresso de Gil Mendonça.
Ao amanhecer de todos os dias Arabela levava Isabel pela mão à porta da rua e, mostrando-lhe uma estrada, que fronteira ficava, dizia-lhe:
— Foi por ali, Isabel, que por amor do teu futuro partiu teu pai; é por ali que ele deverá voltar; todas as manhãs viremos esperar por ele, todas as tardes também; no entanto, Isabel, continua ser a boa menina, para que ele te ache bonita, e te ame como eu.
E depois Arabela voltava o rosto para esconder as lágrimas de Isabel, que poderia chorar também, e afligir assim o seu coração maternal. Ainda se passou muito tempo sem que murchasse na alma de Arabela a esperança de ver chegar seu marido, e sem que este tornasse. Finalmente chegou o dia do natalício de Isabel.
Tinham-se passado nove anos depois que Gil Mendonça partiu em procura de melhor fortuna.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.