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#Crônicas#Literatura Brasileira

No País dos Ianques

Por Adolfo Caminha (1894)

Um dos meus divertimentos prediletos era contemplar Nova Iorque do alto. Muitas vezes punha-me lá de cima da ponte de Brooklin, braços cruzados, num êxtase de fetiche, a olhar para um e outro lado, acompanhando com a vista a vela das embarcações que singravam no rio, pequeninas, microscópicas.

E punha-me, nessa embriaguez do grandioso, a pensar no progresso dos Estados Unidos, desse país modelo, onde tudo move-se por meio de eletricidade e vapor, onde tudo é feito às carreiras, num abrir e fechar de olhos, sem a menor perda de tempo; vinham-me à imaginação escandecida as descobertas de Franklin, de Fulton e de Edison, as maravilhosas experiências sobre o telégrafo, sobre o telefone e sobre o fonógrafo, e eu repetia com os meus botões, mergulhando o olhar na distância, abarcando a cidade inteira: — Grande país! Grande povo, gente feliz, que sabe compreender a vida e amar a pátria!

Como era pequeno o meu país, com toda a grandeza de suas montanhas e de seus rios, diante do colosso americano do norte!

Caía-me na alma uma tristeza de desterrado, uma profunda e incompreensível melancolia, feita ao mesmo tempo de saudade e descrença.

Incansáveis os americanos! Nenhum povo os excede em temeridade e perseverança. Sequiosos de glórias para o seu país, ávidos de empreendimentos que causem assombro ao mundo, eles têm uma grande qualidade — o amor à sua terra, o nativismo instintivo, o chauvinismo (deixem passar o termo) incondicional, absoluto, e é força confessar que, sem essa qualidade, sem esse egoísmo patriótico, as nações vivem, mas não progridem.

Ainda ultimamente a câmara do Estado de Nova Iorque aprovou, por unanimidade, o bill que propôs a construção de uma Nova ponte de ferro sobre o East River, passando sobre a ilha de Blackorel, que ligue Nova Iorque a Long Island, e que terá seis mil metros de comprimento e 46 de altura, com uma resistência de 65 quilômetros de velocidade para os trens que a deve atravessar.

É o caso de dizer, parodiando o outro: se eu não fosse brasileiro, desejaria ser americano do norte.

CAPÍTULO XIII

Nunca fui a Londres, apesar do grande e impaciente desejo que tenho de visitar a sombria capital britânica, mas estou bem certo de que Nova Iorque em muitos respeitos pode ser denominada a Londres americana.

Toda Nova, toda alegre e pitoresca, sem os bairros imundos que o Tâmisa lambe com as suas águas pútridas, onde bóiam cadáveres em decomposição, iluminada por um sol que dá vida e conforta, à Nova Londres tem um cunho especial de cidade latina. Como em Londres, tudo nela é grandioso e opulento, desde a edificação igual, sólida e elegante, até às festividades públicas e às instituições nacionais.

As ruas, longas e direitas, cruzam-se geometricamente e distinguem-se pela numeração (Fourteen street, Fifteen street etc.).

A Broadway é o centro comercial, a rua de maior movimento quotidiano — equivale à City de Londres.

Aí é que os carros se atropelam, que os transeuntes se abalroam numa confusão burlesca e indescritível de que a nossa Rua do Ouvidor não dá sequer a menor idéia. Negociantes, capitalistas, banqueiros, corretores, operários e vagabundos acotovelam-se, empurram-se, pisam-se os calos e vão seguindo adiante, sem olhar pra trás, carregados de embrulhos, suando no verão, que costuma ser muito forte em Nova Iorque. A gente vê-se abarbada para romper aquela multidão cerrada, compacta e egoísta.

Um cosmopolitismo sem igual em parte alguma.

Americanos, ingleses, espanhóis, franceses, italianos, alemães, gente de todas as nacionalidades, até turcos com os seus costumes esquisitos, confundem-se nas ruas de Nova Iorque, enchendo-as em ondas sucessivas e tumultuosas, como em dias de carnaval no Rio. Parece mesmo, à primeira vista, que o elemento estrangeiro absorve o nacional, tão numeroso é aquele. Custa, porém, a encontrarse um português ou um brasileiro. Em compensação a raça latina é abundantemente representada por espanhóis da Europa e da América. Os mexicanos, apesar da natural e oculta ojeriza que têm aos americanos dos Estados Unidos, encontram-se a cada passo e distinguem-se logo pelo seu tipo original: estatura média, rosto anguloso e abolachado, moreno, cabelo duro, olhos pequenos; amáveis. Não perdem ocasião de dizer mal dos americanos, que, entretanto, dedicam-lhes uma afeição especial.

(continua...)

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