Por Adolfo Caminha (1895)
— Estou falando sério; não vais dizer a Bom-Crioulo que eu lhe quero tomar o amigo... Olha que o negro é capaz de estrangular-me...
— Já está D. Carolina com brincadeiras...
— Não é brincadeira, não, filho, tornou a outra, afetando seriedade. Quero que durmas hoje, ao menos hoje, com a tua velha...
E foi se derreando sobre os ombros de Aleixo, com uma fingida ternura de mulher nova.
O pequeno desviava o olhar dos olhos dela, cheio de pudor, um sorriso fixo na boca sombreada por um buço em perspectiva, muito encolhido na sua cadeira, sem dizer palavra.
O contato de sua perna com a da portuguesa produzia-lhe um calorzinho especial, um brando enleio d’alma, uma vaga e deliciosa canseira no fundo do ser, um esquisito bem-estar.
Por sua vontade ficaria naquela posição eternamente, sentindo cada vez mais forte a influência magnética daquele corpo de mulher sobre os seus nervos de adolescente ainda virgem...
D. Carolina chegava-se pouco a pouco, estreitando-o, colando-se-lhe num grande ímpeto de fúria lúbrica, de mulher gasta que acorda para uma sensação nova...
— Tu não podes comigo, disse trançando a perna sobre o joelho do Aleixo.
E envolvendo-o todo com o seu corpo largo de portuguesa rude:
— Dize lá: ficas ou não ficas?
O efebo teve um arranco de novilho excitado, e, segurando-se à cadeira com as mãos ambas, todo trêmulo agora, sem sangue no rosto:
— Fico!
Então ela, como se lhe houvessem aberto de repente uma caudal de gozo, cravou os dentes na face do grumete, numa fúria brutal, e segurando-o pelas nádegas, o olhar cintilante, o rosto congestionado, foi depô-lo na cama:
— Pr’aí, meu jasmim de estufa, pr’aí! Vais conhecer uma portuguesa velha de sangue quente. Deixa a inocência pro lado, vamos!...
Bateu a porta e começou a se despir a toda pressa, diante de Aleixo, enquanto ele deixava-se estar imóvel, muito admirado para essa mulher-homem que o queria deflorar ali assim, torpemente como um animal.
— Anda, meu tolinho, despe-te também: aprende com tua velha... Anda, que eu estou que nem uma brasa!...
Aleixo não tinha tempo de coordenar idéias. D. Carolina o absorvia, transfigurando–se a seus olhos.
Ela, de ordinário tão meiga, tão comedida, tão escrupulosa mesmo, aparecialhe como um animal formidável, cheio de sensualidade, como uma vaca do campo extraordinariamente excitada, que se atira ao macho antes que ele prepare o bote...
Era incrível aquilo!
A mulher só faltava urrar.
E a sua admiração cresceu ainda mais quando ela, sacando fora a camisa ensopada de suor, caiu nua no leito, arquejante, segurando os seios moles, com um estranho fulgor no olhar de basilisco.
Mas Aleixo sabia, por Bom-Crioulo, até onde chega a animalidade humana, e, passando o primeiro momento de surpresa, sentiu que também era feito de carne e osso, como o negro e D. Carolina: — Valia a pena decerto uma noite como aquela!
Acordou cedinho, pela madrugada. Queria ir para bordo no escaler das compras.
A portuguesa ergue-se, fez café ali mesmo no quarto, sem despertar ninguém, jubilosa como uma noiva, exultando!
Graças a Deus estava muito conservadinha, não era tão velha como se pensava. Ainda tinha forças para inutilizar muito homem robusto, olá se tinha!
— E agora já sabes, meu pequerrucho: quando o negro não vier à terra — um abracinho à Carola. D’hoje em diante quero que me chames Carola, ouviste? É mais bonito, entre pessoas que se estimam... Carola e Bonitinho é como nos devemos tratar.
Vinha amanhecendo quando o grumete, ainda bêbedo de sono, os olhos apertados, o passo leve, saiu direto ao Cais dos Mineiros. Estava muito pálido, com grandes olheiras, repetia maquinalmente: — Se Bom-Crioulo soubesse!... ao mesmo tempo que seu espírito voltava-se todo para o sobradinho da Rua da Misericórdia, onde aquela hora D. Carolina encharcava-se num magnífico banho frio de chuveiro.
— Se fosse possível não me encontrar mais, nunca mais, com aquele negro, ah! que felicidade! pensava o grumete aproximando-se de um grupo de marinheiros, perto do cais.
E a figura da portuguesa, muito gorda e risonha, os dentes muito alvos, os quadris largos, a face rubra, dançava em sua imaginação, como um sonho diabólico.
CAPÍTULO VII
Bom-Crioulo não estava satisfeito no couraçado, naquela formidável prisão de aço, que lhe consumia o tempo, e cuja disciplina — um horror de trabalho — privavao de ir à terra hoje sim, amanhã não, como nos outros navios, Ah! mil vezes a corveta. mil vezes! Ao menos tinha-se liberdade. Separado agora de Aleixo, vivendo no meio de toda gente desconhecida e sem amor, lembrava-se, com tristeza, da bela vida que passara em companhia do grumete: um ano quase de sossego e felicidade!... Era bem certo o ditado: não há bem que sempre dure...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.