Por Adolfo Caminha (1893)
O professor pediu um compêndio que folheou de relance. — Qual era a lição? A Oceania? Pois bem...
— Diga-me, senhora D. Maria do Carmo: A Oceania é ilha ou continente?
Maria fechou depressa o compêndio que estivera lendo, muito embaraçada, e, fitando o mestre, batendo com os dedos na carteira, com um risinho:
— Somente uma parte da Oceania pode ser considerada um continente. — Perfeitissimamente bem!
E perguntou, radiante, como se chama essa parte da Oceania que pode ser considerada continente; explicou demorada e categoricamente a natureza das ilhas australianas, elogiando as belas paisagens claras da Nova Zelândia, a sua vegetação opulenta, as riquezas do seu solo, o seu clima, a sua fauna, com entusiasmo de touriste, animando-se pouco e pouco, dando pulinhos intermitentes na cadeira de braços que gemia ao peso de seu corpo.
Maria, muito séria, sem mover-se, ouvia com atenção, o olhar fixo nos olhos do Berredo, bebendo-lhe as palavras, admirando-o, adorando-o quase, como se visse nele um doutor em ciências, um sábio consumado, um grande espírito. Decididamente era um talento, o Berredo! Gostava imenso de o ouvir falar, achava-o eloqüente, claro, explícito, capaz de prender um auditório ilustrado. Era a sua aula predileta, a de geografia, e o Berredo tornava-a mais interessante ainda. Os outros, o professor de francês e o de ciências, nem por isso, davam sua lição, como papagaios, e — adeus, até amanhã. O Berredo, não senhores, tinha um excelente método de ensino, sabia atrair a atenção das alunas com descrições pitorescas e pilhérias encaixadas a jeito no fio do discurso.
Muitas ilhas da Oceania, dizia ele, coçando a barba, são habitadas por selvagens antropófagos, como os da América antes de sua descoberta...
— Imaginem as senhoras que horror! Homens devorando-se uns aos outros, comendo-se com a mesma satisfação, com a mesma voracidade, com o mesmo canibalismo que nós outros, civilizados, trincamos um beef-steak ao almoço...
Houve uma casquinada de risos à surdina.
— Agora, se o Zuza te come, disse baixinho, por trás de Maria do Carmo, uma moçoila de pince-nez. Toma cuidado, menina, o bicho tem cara de antropófago...
— E note-se, continuou o Berredo, as próprias mulheres não escapam à fúria das tribos inimigas: devoram-se também... — Virgem! fez Maria com espanto...
— As senhoras com certeza preferem viver no Ceará a habitar a Papuasia...
— Credo! fizeram muitas a uma voz.
— E no Brasil há desses selvagens? perguntou estouvadamente uma loura que se escondia na última fila, estirando o pescoço.
O pedagogo sorriu, passando a mão cabeluda na barba; e muito delicado, num tom benévolo:
— Atualmente existem poucos... Restos de tribos extintas...
E continuou a falar com a loquacidade de um sacerdote a pregar moral, explicando a vida e costumes dos selvagens da Nova Zelândia, citando Júlio Verne, cujas obras recomendava às normalistas como um “precioso tesouro de conhecimentos úteis e agradáveis”. — Lessem J. Verne nas horas de ócio; era sempre melhor do que perder tempo com leituras sem proveito, muitas vezes impróprias de uma moça de família...
— Vá esperando... murmurou a Lídia.
— Eu estou certo, dizia o Berredo, convicto, de que as senhoras não lêem livros obscenos, mas refiro-me a estes romances sentimentais que as moças geralmente gostam de ler, umas historiazinhas fúteis de amores galantes, que não significam absolutamente coisa alguma e só servem de transtornar o espírito às incautas... Aposto em como quase todas as senhoras conhecem a Dama das camélias, a Lucíola...
Quase todas conheciam.
— ... Entretanto, rigorosamente, são péssimos exemplos...
Tomou um gole de água, e continuando:
— Nada! As moças devem ler somente o grande Júlio Verne, o propagandista das ciências. Comprem a Viagem ao centro da terra, Os filhos do capitão Grant e tantos outros romances úteis, e encontrarão neles alta soma de ensinamentos valiosos, de conhecimentos práticos...
O contínuo veio anunciar que estava terminada a hora.
Dias depois o Berredo lecionava, como de costume, a seu bel-prazer, derreado na larga cadeira de espaldar, quando o contínuo, fazendo uma mesura, anunciou “S. Exª. o Sr. Presidente da Província”, e imediatamente assomou à porta da sala o ilustre personagem, mostrando a esplêndida dentadura num sorriso fidalgo, com o peito da camisa deslumbrante de alvura, colarinhos muito altos e tesos, gravata de seda cor de creme onde reluzia uma ferradura de ouro polido, bigodes torcidos imperiosamente: um belíssimo tipo de sulista aristocrata. Estava um pouco queimado da viagem a Baturité.
O Berredo desceu logo do estrado a cumprimentá-lo com o seu característico aprumo de homem que viajara à Europa. Todas as alunas ergueram-se.
— Como passa V. Exª., bem? Estava agora mesmo...
O presidente pediu que não se incomodasse, que continuasse.
Acompanhavam-no, como sempre, o José Pereira e o Zuza.
Maria, ao dar com os olhos no estudante, ficou branca, um calafrio gelou-lhe a espinha, baixou a cabeça, fria, fria, como se estivesse diante dum juiz inflexível.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.